O segredo do rei

2464 Words
Novembro de 2085. Derek Baynes se sentia desesperado naquela noite, no auge dos seus 25 anos, estava ao lado de seus soldados em uma guerra que não parecia ter fim. Aquela era uma noite quente e de chuva torrencial. Há mais de quinze anos seu pai, Davi Baynes, para manter a paz de Ashara decretou uma lei não apreciada por toda a população. Acreditando que manter apenas iguais dentro daqueles muros fossem o melhor para uma sociedade bem construída, Davi decretou que qualquer nascido sem dons fosse levado para fora de Ashara, se caso seus dons não fossem descobertos até a adolescência, esses adolescentes deveriam ser mandados embora da cidade. Já que dons como terra e ar não eram fáceis de perceber já no nascimento do bebê. A ideia era criar uma sociedade forte após a guerra e não existir distinção entre nenhum morador de Ashara, todos eram iguais, todos tinham dons. Apesar de parecer ter funcionado diante do povo, nas fronteiras a história era diferente, aqueles que não aceitavam ser exilados, separados de suas famílias, começaram uma revolta contra o rei e o reino, requerendo tudo aquilo que acreditavam ser seu por direito. Direitos em um mundo renascido não eram como os do mundo humano, aqueles já não existiam, novos eram criados com o passar da necessidade e prevalecia sempre a ordem do mais forte. Derek Baynes estava cansado, respirando pesadamente, ofegante, incerto e amedrontado. Não usou seu dom e nem deixou que os homens de seu exército o fizessem, não queria ferir aquelas pessoas que um dia conhecera. Pessoas que cresceram e viveram por um período em seu reino e agora o via como um inimigo. Sabia que a decisão de seu pai era sábia, que precisava ser feito para que Ashara pudesse viver em paz, mas nem por isso era uma decisão fácil. Sabia que não seria fácil desde o momento que fez vinte e dois anos e precisou assumir seu lugar na coroa, mas não imaginava que estaria ali, na linha de frente, vendo seus soldados feridos por ferro e fogo, incerto sobre o que fazer. — Senhor! — ouviu o grito de Elijah Parker. O rei não teve tempo para reagir, sentindo a espada cortando seu pescoço, por sorte o guarda foi mais ágil, acertando a flecha no olho do exilado que caiu imóvel no chão. Derek ficou ainda mais ofegante e amedrontado, sentindo o coração bater rápido enquanto sua mão ia para a lateral do pescoço, sentindo o batimento cardíaco e o sangue escorrendo do pequeno ferimento que, por sorte, não pegou em sua carótida. — Elijah… você… — O rei, ainda tão novato, não tinha nem palavras para descrever seu agradecimento e também sua angústia. Olhava o corpo no chão, percebendo que conhecia aquele homem, alguém que havia estudado consigo durante a infância e adolescência, mas havia sumido de Ashara após os dezesseis anos. — Foi por muito pouco, senhor. Acho que não teremos outra escolha. Ou teremos que usar nossos dons contra eles ou teremos que fazer como o senhor seu pai, o primeiro rei, abrir a f***a que salvou Ashara na primeira vez. — o homem parecia igualmente desesperado. Não era para menos. Elijah tinha uma esposa grávida que teria seu primogênito a qualquer momento, não queria morrer em uma guerra na qual tinha chances avassaladoras de vitória. Entendia a dor do rei e sua misericórdia, mas estavam ficando sem opções. — Abra a f***a. Cerque todo o reino de modo que ninguém se aproxime de nós novamente. — decretou, sentindo-se imóvel. Em um grito gutural, Elijah Parker, o braço direito do rei, quem conhecia aquele reino melhor que ninguém, fechou seus olhos, usando toda a sua energia para abrir uma cratera na chão, dividindo o muro das fronteiras e mundo exterior, isolando Ashara de modo que ninguém mais a atacaria, se tentasse fazer, cairia rumo ao fim. O chão da cidade tremia enquanto a cratera se abria e o grito do guarda podia ser ouvido a quilômetros, usando toda a sua energia vital para abrir o solo. Elijah caiu de joelhos no chão quando concluído, quando todo o redor da pequena cidade estava cercado. Respirou ofegante, tentando ter forças, mas sentia que estava a ponto de desmaiar sendo amparado pelo rei. — Elijah! Aguente firme, vou levar você para o hospital. — disse o rei, amparando o amigo. Aquela chuva torrencial não ajudava em nada. A situação já era desesperadora por si só. Mas ao menos agora estavam livres. Pelo menos livres daqueles que estavam do outro lado do muro, os que permaneciam dentro da cidade, resolveriam depois. Isso os soldados poderiam fazer. O rei usou seu dom para enviar um sinal que precisava de ajuda, disparando grandes bolas de luz para o céu noturno, as explodindo como fogos de artifício para que seus demais soldados os encontrassem. — Rei! — um dos guardas chegou em seu cavalo, parando próximo a eles. — Precisamos ir para o hospital, ele gastou muita energia, está muito fraco. — disse o Derek, ajudando o guarda a colocar Elijah sobre o cavalo. — Eu vim aqui porque tenho outro recado para vocês. Sua esposa, a rainha, pediu para que fossem direto para a casa do senhor Parker. O filho dele nasceu e, além da rainha que fez o parto, a senhora Patrícia não quer ver ninguém além de Elijah. — Meu filho… senhor… me leve até meu filho. O Baynes engoliu em seco, sentindo que havia algo de errado acontecendo. Seu coração estava ainda mais acelerado se é que isso era possível. Depois de alguns segundos, concordou. — Vão na frente. Leve Elijah e eu encontro vocês lá. — ordenou e com isso não houve discussões. Ambos os soldados se dirigiram ao centro da cidade, enquanto o rei tentava encontrar outro soldado com um cavalo para lhe levar até o local. Mas isso não seria uma tarefa fácil, ainda haviam exilados dentro dos muros, pessoas que o queriam morto e fariam de tudo para o impedir de chegar até o amigo novamente. ✘✘✘ O dia já estava quase amanhecendo quando o rei finalmente chegou a casa de seu braço direito. Entrou na casa que estava silenciosa. Estavam ali Elijah, Patrícia e Harper, sua esposa. — O que está acontecendo? Por que vocês estão assim? — perguntou sério, seu cenho franzido tentando entender o que estava acontecendo. — Mostre a ele. — Elijah disse triste, cansado e com certeza desesperançado. O tom do amigo fez um arrepio cruzar a espinha do rei. Que olhou para Harper, quem segurava o pequeno bebê enrolado em uma malha quentinha. — Não, por favor. — Patrícia, que estava sentada no sofá, ainda se recuperando do parto, pediu a amiga de forma chorosa, segurando o braço dela. — Não adianta. Não temos escolha. Não temos como esconder isso. — Elijah acariciou as costas da esposa, tentando acalmá-la. A situação deixou o rei um tanto confuso, até direcionar o olhar para esposa novamente e ver ela abaixar o tecido com delicadeza, revelando o bebê Parker. O pequeno se remexia suavemente no colo da parteira, seu corpo frágil de bebê irradiando a luz laranja de seu dom. Em seu corpo o fogo circulava como lava em suas veias. O Baynes sentiu um solavanco em seu estômago, entendendo o desespero de Patrícia, o olhar piedoso de sua esposa e a desesperança do amigo. — Alguém viu? Alguém estava aqui na hora do parto? — o rei perguntou, dando as costas para a esposa, não querendo mais ver o bebê. Harper cobriu o bebê novamente, balançando-o suavemente. — Derek, por favor… por favor… — Patrícia implorou chorosa. — Eu faço qualquer coisa. Eu vou embora. Eu vou embora ainda hoje, mas não… não mata o meu bebê. A mulher pedia com desespero, segurando-se na velha amiga, que foi sua parteira naquela noite, implorando por misericórdia. — Ninguém viu, rei. Patrícia estava sozinha e eu fiz o parto. Só nós sabemos. — respondeu Harper. O Baynes suspirou, colocando as mãos na cintura e tentando pensar em uma solução. Aquela era uma lei primordial, nem ele, o rei, poderia quebrá-la. Acima de tudo seria injusto deixar aquela criança viver, já que tantas outras famílias não tiveram escolha. Ao mesmo tempo seu coração estava impaciente, sabia a dor que seu amigo enfrentaria de perder o primogênito daquela forma, sabendo que seu filho nasceu saudável, que o pegou nos braços e então perdê-lo, essa era uma dor que poderia nunca ser superada. Seu pequeno bebê, primogênito dos Baynes, havia nascido poucos meses antes e Derek sabia que faria qualquer coisa por aquela criança. Além de tudo, também prezava a amizade do amigo, o queria ao seu lado, o queria como seu principal guarda. Tinha Elijah do seu lado desde que tinha doze anos de idade e não imaginava perdê-lo, mas sabia que, ainda que fosse o rei, uma decisão de tirar o filho dos braços do pai de forma tão fria, não seria perdoada ou esquecida. Além de tudo ele quase esgotou suas energias naquela tentativa de salvar a cidade. Derek olhou para o amigo, seu guarda, com seriedade. Tentando olhar no fundo dos olhos de Elijah e apontou o dedo em sua direção. — Essa criança deve a vida dela a mim. E quando chegar o dia, ele não terá outra escolha além de servir ao reino. Servir ao meu filho. — disse sério. Naquela manhã, o rei proferiu tais palavras não imaginando a forma como o destino daquelas crianças se cruzariam. Sem imaginar que antes da dívida, ele foi escolhido. Elijah Parker, que até então encarava o chão, olhou em direção ao rei, de certo modo desacreditado. — Está dizendo que…? O Baynes suspirou, passando a mão no pescoço ferido. Estava vivo naquela manhã graças ao Parker, não conseguia ser c***l ao ponto de fazê-lo passar por tamanha dor naquele momento. — Vocês terão que ter cuidado redobrado. Ninguém neste reino nunca poderá saber o que ocorreu aqui… Terei misericórdia do seu primogênito. Apenas do primogênito. Patrícia começou a chorar ainda mais, estendendo os braços para a amiga, que lhe entregou seu filho. A ômega abraçou o pequeno bebê, dando beijinhos em seu rosto e o vendo chorar, estranhando o contato repentino. — Obrigada. Seremos sempre fiéis ao reino, toda a minha família. — disse Patrícia, agarrada ao próprio filho. Naquele momento Derek só esperava não se arrepender dessa decisão como se arrependeu de não ter lutado com toda a sua força contra os exilados. Ano de 2107. Charles sentia-se exausto, assim que o dia começou a amanhecer, deu graças a Deus pela troca de guarda. Desceu rapidamente do muro, fazendo o mesmo caminho que Hunter fez mais cedo e esperando o bondinho, que naquele horário não demorou a chegar. O alfa sentou-se no banco de madeira, com os braços cruzados, recostou a cabeça por um momento, adormecendo. O alfa acordou ao se aproximar do centro da cidade, sendo acordado do seu sono leve pelo barulho das vozes se misturando em questionamentos incompreensíveis. Estranhou aquela movimentação das pessoas, era muito difícil aquele tipo de burburinho se espalhar por Ashara. Assim que chegou próximo ao palácio, desceu do bondinho, encontrando Kayne em frente a este com uma expressão que poderia ser descrita como pavor. O Parker franziu o cenho, encarando o ômega. — O que aconteceu? — questionou, vendo que Kayne parecia ainda mais atordoado. — Charles… é que… — o garoto engoliu em seco, sem saber como dar tal notícia. — O Hunter foi sequestrado pelos exilados. O alfa sentiu como se sua pressão tivesse baixado, um solavanco em seu peito, uma sensação de puro pavor. — Onde está o rei? — Está com o conselho, estão tentando entender como isso aconteceu e localizar a base dos exilados. O Parker concordou com um aceno de cabeça e entrou no palácio. — …Verificamos que na zona leste a f***a se fechou, senhor. Tem algum dominador de terra os ajudando. — disse o ministro Shelter. Charles entrou na sala em um rompante. — Cheguei da minha ronda agora. — seu tom parecia até um pouco ofegante. — Eu sei onde ele estava na noite passada. Hunter… O rei suspirou e o guarda Parker colocou a mão no ombro do filho, tentando acalmá-lo. — Os exilados estão tentando achar uma forma de atacar o rei diretamente. Mas vamos salvá-lo. — disse o Parker mais velho. — Eu estava na zona leste ontem e Hunter foi até lá me ver durante a noite, ele não foi com o Abissal, não queria chamar atenção. Mas ele esteve lá ontem a noite. O ministro olhou para o rei, aquela era a peça que faltava para saber como o príncipe havia sido tão facilmente levado. — Parker! — o tom do rei era odioso. Derek queria poder dizer que se arrependia do dia que o deixou viver, mas não podia. Ninguém podia saber sobre aquele segredo. Charles engoliu em seco, encarando o rei como se houvesse apenas os dois naquela sala. — Eu vou encontrá-lo e trazê-lo de volta, senhor. Só preciso da ajuda do senhor Jinkings para saber por onde ele passou, nada mais. Eu vou encontrá-lo. — a voz de Charles era confiante e não tremeu por nem um momento. — Acho bom que encontre e traga meu filho para casa ainda hoje, custe o que custar. Não importa como fará isso. O Parker concordou, balançando a cabeça. Entendeu bem o que o rei estava dizendo. Estava liberado até para o uso do seu dom, desde que trouxesse Hunter de volta nada disso importava. Charles retirou-se da sala do rei sentindo-se sem fôlego. Seu peito doía. Estava exausto, atordoado e não sabia por onde começar a procurar. Se apoiou nos muros do lado de fora do palácio, respirando fundo e tentando manter a calma. — Eu preciso falar com você… — Kayne engoliu em seco, sussurrando e se aproximando do alfa. — É um péssimo momento pra isso, eu sei… mas eu preciso te contar uma coisa que muda tudo. — disse baixo, olhando para os lados para ter certeza que ninguém mais os ouviria. — Você sabe de algo sobre o sequestro? O Daves balançou a cabeça para os lados. — O rei recebeu a massagem em uma flecha atirada contra sua janela. Mas não é essa a questão… Hunter está grávido, Charles. Ele ainda não contou pra você por causa dos seus turnos nas fronteiras, mas ele está grávido. Não conseguiu absorver aquela informação muito bem, sentiu novamente o solavanco em seu estômago e um enjoo inesperado, apenas pondo o corpo levemente para o lado e vomitando no canteiro de flores do palácio. Se o alfa achava que a situação já era r**m o bastante, sempre havia um momento para piorar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD