A adrenalina ainda não tinha passado.
Nem o medo.
Nem o silêncio pesado dentro do carro.
— A gente precisa ir pra polícia — Luna disse.
— Ainda não.
— COMO ASSIM “AINDA NÃO”?!
— Eu preciso ter certeza.
— Ele quase me atacou!
Silêncio.
Errado.
Mas ele não voltou atrás.
— Isso não foi aleatório — Enrico disse.
— Eu sei!
— Ele sabia quem você era.
— E sabia da gente.
Silêncio.
— Isso vem de dentro — Matteo disse quando eles chegaram.
— Eu também acho — Enrico respondeu.
— Isso é ótimo — Bruna falou — traidor interno, stalker, quase agressão… amo esse roteiro.
— Não ajuda — Luna murmurou.
— Desculpa… eu tô nervosa.
— Vamos pensar — Matteo começou — alguém que conhece a rotina, sabe do contrato, acompanha vocês…
— E tem acesso — Enrico completou.
Silêncio.
— Ex-funcionário? — Bruna sugeriu.
— Ou alguém que foi afastado — Matteo disse.
Pausa.
Enrico travou.
Um segundo.
Dois.
— O quê? — Luna percebeu.
Silêncio.
Pesado.
— Fala — ela disse.
Ele respirou fundo.
Difícil.
— Tem alguém.
— Claro que tem alguém! — Bruna disse.
— Não ajuda — Matteo repetiu.
— Quem? — Luna insistiu.
Silêncio.
— Rafael.
O nome caiu.
Pesado.
Desconhecido pra ela.
Mas não pra eles.
— Não… — Matteo murmurou.
— Quem é Rafael? — Luna perguntou.
Pausa.
Longa.
— Ele trabalhava comigo — Enrico disse — segurança interna.
— Trabalha.
— Trabalhava.
Silêncio.
— Ele foi demitido.
— Por quê?
Pausa.
Difícil.
— Obsessão.
Silêncio.
Total.
— Obsessão… com o quê? — Luna perguntou.
Mas já sabia.
No fundo…
já sabia.
— Com o controle da empresa.
Pausa.
— E… comigo.
Silêncio.
Pesado.
— Isso não é normal — Luna disse.
— Não.
— Isso é perigoso.
— Muito.
— Ele começou a ultrapassar limites — Matteo explicou — acesso indevido, vigilância interna…
— Ele sabia de tudo — Enrico completou.
— E você demitiu ele?
— Sim.
— E achou que ele ia só… desaparecer?
Silêncio.
— Eu não achei que ele fosse chegar nisso.
— Mas chegou.
Direto.
— E agora ele tá atrás de mim também — Luna disse.
Baixo.
Real.
— Porque você entrou no meu espaço — Enrico respondeu.
— Porque eu fiquei com você.
— Sim.
Silêncio.
— Isso é doentio — Bruna disse.
— Muito — Matteo concordou.
— Ele não vai parar — Luna disse.
— Não.
— Então a gente precisa fazer alguma coisa.
— Vamos fazer.
Silêncio.
Decisão.
Peso.
— Agora sim… polícia — Enrico disse.
— Finalmente — ela respondeu.
Mais tarde…
Delegacia.
Relato.
Detalhes.
Medo ganhando forma.
— Você o conhece bem? — o policial perguntou.
— O suficiente.
— Ele é perigoso?
Silêncio.
— Agora eu tenho certeza que sim.
Do lado de fora…
Noite.
Fria.
Tensa.
— Isso ficou muito maior do que eu esperava — Luna disse.
— Eu sei.
— E eu tô no meio disso.
— Eu sei.
Silêncio.
— Eu não vou sair — ela disse.
Pausa.
— Nem se isso piorar.
Ele olhou pra ela.
De verdade.
— Eu não vou deixar você enfrentar isso sozinha.
Ela cruzou os braços.
— Você não manda nisso.
— Eu sei.
— Mas…
Pausa.
Ela suspirou.
— …não vai ser r**m ter você por perto.
Silêncio.
Pequeno.
Mas importante.
Do outro lado…
Bruna respirou fundo.
— Agora é sério.
— Sempre foi — Matteo disse.
— Não, agora é perigoso de verdade.
— Sim.
De volta…
— A gente vai ter que tomar cuidado — Enrico disse.
— Eu sei.
— E confiar um no outro.
Silêncio.
Ela olhou pra ele.
Longo.
Profundo.
— Eu ainda tô aprendendo isso.
Ele assentiu.
— Eu também.
E naquele momento…
pela primeira vez…
não era só sobre eles.
Era sobre enfrentar algo juntos.
Mas o problema?
Rafael não era só um erro do passado.
Ele era alguém que ainda achava…
que não tinha perdido.
E gente assim?
Não para fácil.
A partir daquele momento…
ninguém estava mais seguro.
— Você não vai ficar sozinha — Enrico disse.
— Já entendi isso — Luna respondeu.
— Não é opcional.
— Eu não disse que era.
Silêncio.
Algo tinha mudado.
Ela não estava mais lutando contra ele…
estava lutando com ele.
Do outro lado…
— Eu nunca pensei que ia viver isso — Bruna disse.
— Eu também não — Matteo respondeu.
— E olha que eu gosto de caos.
— Isso não é caos.
— Isso é filme de suspense.
— E eu não gosto do final desses filmes.
Na empresa…
Segurança reforçada.
Portas controladas.
Olhares atentos.
Mas mesmo assim…
a sensação continuava.
— Ele conhece esse lugar — Matteo disse.
— Melhor do que deveria — Enrico respondeu.
— Isso significa que ele pode estar vendo tudo.
Silêncio.
Luna cruzou os braços.
— Ótimo.
— Não entra em pânico — Enrico disse.
— Eu não tô em pânico.
— Tá sim.
— Tô consciente.
Silêncio.
Justo.
— Vamos montar uma estratégia — Matteo disse.
— Finalmente alguém sensato — Bruna comentou.
— Eu sempre fui.
— Nunca.
— Ele quer controle — Enrico começou.
— E atenção — Luna completou.
Silêncio.
Ele olhou pra ela.
— Exato.
— Então a gente não reage como ele espera — ela continuou.
— E o que você sugere? — Matteo perguntou.
Pausa.
Pequeno sorriso.
Perigoso.
— A gente usa isso contra ele.
Silêncio.
— Eu gostei — Bruna disse.
— Eu tô preocupado — Matteo respondeu.
— Eu também — Enrico completou.
— Ele quer ver a gente vulnerável — Luna disse.
— Então a gente não mostra isso.
— Exato.
Silêncio.
— A gente atrai ele — ela concluiu.
Silêncio.
Pesado.
— Não — Enrico respondeu na hora.
— Sim.
— Nem pensar.
— Já estamos sendo perseguidos!
— Isso não significa que você vai se colocar como isca!
— Eu já sou a isca!
Silêncio.
Explodiu.
— Não — ele repetiu, firme.
— Você não decide isso sozinho!
— Eu não vou arriscar você!
— VOCÊ NÃO PODE ME PROTEGER DE TUDO!
Silêncio.
Ela respirou fundo.
Tentando não gritar.
Falhando só um pouco.
— Eu não sou frágil.
— Eu sei.
— Então para de agir como se eu fosse!
Pausa.
Longa.
— Eu não quero te perder — ele disse.
Baixo.
Sincero.
Sem defesa.
Silêncio.
Aquilo…
quebrou a tensão.
Um pouco.
Ela desviou o olhar.
Mas respondeu:
— Então para de tentar me controlar.
Pausa.
— E começa a confiar em mim.
Silêncio.
Importante.
Ele assentiu.
Devagar.
Difícil.
— Tá.
Do outro lado…
— EU TÔ CHOCADA — Bruna disse.
— Eu também — Matteo respondeu.
— Ele cedeu.
— Isso é novo.
De volta…
— A gente faz do meu jeito — Luna disse.
— Nosso jeito — ele corrigiu.
Silêncio.
Ela hesitou.
E aceitou.
— Nosso jeito.
Plano montado.
Arriscado.
Perigoso.
Inteligente.
— Evento amanhã — Matteo disse.
— Público — Bruna completou.
— Exposição máxima — Enrico concluiu.
Silêncio.
— Perfeito pra ele aparecer — Luna disse.
Mais tarde…
Noite.
Luna sozinha no quarto.
Mas não realmente sozinha.
Ela olhou o celular.
Nenhuma mensagem.
Estranho.
Silêncio demais.
E então— Vibrou.
“Você acha que está no controle agora?”
Ela respirou fundo.
Dessa vez…
sem travar.
Digitou:
“Vem tentar descobrir.”
Silêncio.
Do outro lado…
alguém sorrindo.
De volta…
Ela largou o celular.
Coração acelerado.
E pela primeira vez…
não era só medo.
Era desafio.
E isso?
Isso era exatamente o que ele queria.
Mas agora…
ela também queria jogar.
E quando dois lados querem o jogo…
alguém sempre perde.