Dezessete

1274 Words
A adrenalina ainda não tinha passado. Nem o medo. Nem o silêncio pesado dentro do carro. — A gente precisa ir pra polícia — Luna disse. — Ainda não. — COMO ASSIM “AINDA NÃO”?! — Eu preciso ter certeza. — Ele quase me atacou! Silêncio. Errado. Mas ele não voltou atrás. — Isso não foi aleatório — Enrico disse. — Eu sei! — Ele sabia quem você era. — E sabia da gente. Silêncio. — Isso vem de dentro — Matteo disse quando eles chegaram. — Eu também acho — Enrico respondeu. — Isso é ótimo — Bruna falou — traidor interno, stalker, quase agressão… amo esse roteiro. — Não ajuda — Luna murmurou. — Desculpa… eu tô nervosa. — Vamos pensar — Matteo começou — alguém que conhece a rotina, sabe do contrato, acompanha vocês… — E tem acesso — Enrico completou. Silêncio. — Ex-funcionário? — Bruna sugeriu. — Ou alguém que foi afastado — Matteo disse. Pausa. Enrico travou. Um segundo. Dois. — O quê? — Luna percebeu. Silêncio. Pesado. — Fala — ela disse. Ele respirou fundo. Difícil. — Tem alguém. — Claro que tem alguém! — Bruna disse. — Não ajuda — Matteo repetiu. — Quem? — Luna insistiu. Silêncio. — Rafael. O nome caiu. Pesado. Desconhecido pra ela. Mas não pra eles. — Não… — Matteo murmurou. — Quem é Rafael? — Luna perguntou. Pausa. Longa. — Ele trabalhava comigo — Enrico disse — segurança interna. — Trabalha. — Trabalhava. Silêncio. — Ele foi demitido. — Por quê? Pausa. Difícil. — Obsessão. Silêncio. Total. — Obsessão… com o quê? — Luna perguntou. Mas já sabia. No fundo… já sabia. — Com o controle da empresa. Pausa. — E… comigo. Silêncio. Pesado. — Isso não é normal — Luna disse. — Não. — Isso é perigoso. — Muito. — Ele começou a ultrapassar limites — Matteo explicou — acesso indevido, vigilância interna… — Ele sabia de tudo — Enrico completou. — E você demitiu ele? — Sim. — E achou que ele ia só… desaparecer? Silêncio. — Eu não achei que ele fosse chegar nisso. — Mas chegou. Direto. — E agora ele tá atrás de mim também — Luna disse. Baixo. Real. — Porque você entrou no meu espaço — Enrico respondeu. — Porque eu fiquei com você. — Sim. Silêncio. — Isso é doentio — Bruna disse. — Muito — Matteo concordou. — Ele não vai parar — Luna disse. — Não. — Então a gente precisa fazer alguma coisa. — Vamos fazer. Silêncio. Decisão. Peso. — Agora sim… polícia — Enrico disse. — Finalmente — ela respondeu. Mais tarde… Delegacia. Relato. Detalhes. Medo ganhando forma. — Você o conhece bem? — o policial perguntou. — O suficiente. — Ele é perigoso? Silêncio. — Agora eu tenho certeza que sim. Do lado de fora… Noite. Fria. Tensa. — Isso ficou muito maior do que eu esperava — Luna disse. — Eu sei. — E eu tô no meio disso. — Eu sei. Silêncio. — Eu não vou sair — ela disse. Pausa. — Nem se isso piorar. Ele olhou pra ela. De verdade. — Eu não vou deixar você enfrentar isso sozinha. Ela cruzou os braços. — Você não manda nisso. — Eu sei. — Mas… Pausa. Ela suspirou. — …não vai ser r**m ter você por perto. Silêncio. Pequeno. Mas importante. Do outro lado… Bruna respirou fundo. — Agora é sério. — Sempre foi — Matteo disse. — Não, agora é perigoso de verdade. — Sim. De volta… — A gente vai ter que tomar cuidado — Enrico disse. — Eu sei. — E confiar um no outro. Silêncio. Ela olhou pra ele. Longo. Profundo. — Eu ainda tô aprendendo isso. Ele assentiu. — Eu também. E naquele momento… pela primeira vez… não era só sobre eles. Era sobre enfrentar algo juntos. Mas o problema? Rafael não era só um erro do passado. Ele era alguém que ainda achava… que não tinha perdido. E gente assim? Não para fácil. A partir daquele momento… ninguém estava mais seguro. — Você não vai ficar sozinha — Enrico disse. — Já entendi isso — Luna respondeu. — Não é opcional. — Eu não disse que era. Silêncio. Algo tinha mudado. Ela não estava mais lutando contra ele… estava lutando com ele. Do outro lado… — Eu nunca pensei que ia viver isso — Bruna disse. — Eu também não — Matteo respondeu. — E olha que eu gosto de caos. — Isso não é caos. — Isso é filme de suspense. — E eu não gosto do final desses filmes. Na empresa… Segurança reforçada. Portas controladas. Olhares atentos. Mas mesmo assim… a sensação continuava. — Ele conhece esse lugar — Matteo disse. — Melhor do que deveria — Enrico respondeu. — Isso significa que ele pode estar vendo tudo. Silêncio. Luna cruzou os braços. — Ótimo. — Não entra em pânico — Enrico disse. — Eu não tô em pânico. — Tá sim. — Tô consciente. Silêncio. Justo. — Vamos montar uma estratégia — Matteo disse. — Finalmente alguém sensato — Bruna comentou. — Eu sempre fui. — Nunca. — Ele quer controle — Enrico começou. — E atenção — Luna completou. Silêncio. Ele olhou pra ela. — Exato. — Então a gente não reage como ele espera — ela continuou. — E o que você sugere? — Matteo perguntou. Pausa. Pequeno sorriso. Perigoso. — A gente usa isso contra ele. Silêncio. — Eu gostei — Bruna disse. — Eu tô preocupado — Matteo respondeu. — Eu também — Enrico completou. — Ele quer ver a gente vulnerável — Luna disse. — Então a gente não mostra isso. — Exato. Silêncio. — A gente atrai ele — ela concluiu. Silêncio. Pesado. — Não — Enrico respondeu na hora. — Sim. — Nem pensar. — Já estamos sendo perseguidos! — Isso não significa que você vai se colocar como isca! — Eu já sou a isca! Silêncio. Explodiu. — Não — ele repetiu, firme. — Você não decide isso sozinho! — Eu não vou arriscar você! — VOCÊ NÃO PODE ME PROTEGER DE TUDO! Silêncio. Ela respirou fundo. Tentando não gritar. Falhando só um pouco. — Eu não sou frágil. — Eu sei. — Então para de agir como se eu fosse! Pausa. Longa. — Eu não quero te perder — ele disse. Baixo. Sincero. Sem defesa. Silêncio. Aquilo… quebrou a tensão. Um pouco. Ela desviou o olhar. Mas respondeu: — Então para de tentar me controlar. Pausa. — E começa a confiar em mim. Silêncio. Importante. Ele assentiu. Devagar. Difícil. — Tá. Do outro lado… — EU TÔ CHOCADA — Bruna disse. — Eu também — Matteo respondeu. — Ele cedeu. — Isso é novo. De volta… — A gente faz do meu jeito — Luna disse. — Nosso jeito — ele corrigiu. Silêncio. Ela hesitou. E aceitou. — Nosso jeito. Plano montado. Arriscado. Perigoso. Inteligente. — Evento amanhã — Matteo disse. — Público — Bruna completou. — Exposição máxima — Enrico concluiu. Silêncio. — Perfeito pra ele aparecer — Luna disse. Mais tarde… Noite. Luna sozinha no quarto. Mas não realmente sozinha. Ela olhou o celular. Nenhuma mensagem. Estranho. Silêncio demais. E então— Vibrou. “Você acha que está no controle agora?” Ela respirou fundo. Dessa vez… sem travar. Digitou: “Vem tentar descobrir.” Silêncio. Do outro lado… alguém sorrindo. De volta… Ela largou o celular. Coração acelerado. E pela primeira vez… não era só medo. Era desafio. E isso? Isso era exatamente o que ele queria. Mas agora… ela também queria jogar. E quando dois lados querem o jogo… alguém sempre perde.
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