Dezenove

1350 Words
O hospital tinha um ritmo próprio. Lento. Silencioso. Sufocante. Mas, pra Luna… o mundo inteiro cabia naquele quarto. — Você não precisa ficar aqui o tempo todo — Enrico disse. Voz ainda fraca. Mas teimosa. — Preciso sim. — Eu estou bem. — Não está. Silêncio. — Estou melhor. — Não discute. Do outro lado… — Ela não saiu de lá — Bruna disse. — Nem ele vai mandar ela sair — Matteo respondeu. — Eu tô achando isso suspeitamente fofo. — Eu tô achando isso perigosamente intenso. De volta… — Você devia descansar — ele tentou. — Eu vou descansar aqui. — Isso é uma cadeira. — Eu sobrevivo. — Você reclama de tudo. — De você principalmente. Silêncio. Pequeno sorriso. — Eu mereço. — Muito. Pausa. Olhar preso. Respiração leve. — Você ficou — ele disse. Baixo. Ela desviou o olhar. — Eu disse que ficaria. — Você não disse. — Eu pensei. — Não conta. — Conta sim. Silêncio. — Então fala — ele provocou. Erro. Ela travou. De novo. Sempre. — Não se aproveita disso. — Eu estou só pedindo clareza. — Você nunca pediu antes. — Eu estou tentando agora. Silêncio. Ela suspirou. Cansada. Mas sem fugir dessa vez. — Eu fiquei porque… — ela começou. Parou. Respirou. Tentou de novo. — Porque você importa. Silêncio. Ele não respondeu na hora. Porque aquilo… já era muito. — Você também importa — ele disse. Simples. Direto. Ela riu. Baixo. — Isso é o máximo que você consegue? — Por enquanto. Silêncio. — Eu quase perdi você — ela disse. De novo. Mas agora… mais calma. Mais real. — E eu quase perdi você antes disso — ele respondeu. Pausa. Ela olhou pra ele. — A gente é muito r**m nisso. — Em quase tudo. — Em não se machucar principalmente. Silêncio. — Mas a gente continua tentando — ele disse. — Não sei por quê. — Eu sei. Pausa. — Porque você não foi embora. Silêncio. De novo. Mas diferente. Ela chegou mais perto. Sem perceber. Ou percebendo demais. — E você não desistiu. Eles estavam perto. Muito perto Respiração misturada. Olhar preso. Sem regra. Sem plano. — Isso não é seguro — ela murmurou. — Nunca foi. — A gente devia parar. — Devia. Silêncio. Mas nenhum se afastou. Ele levantou a mão. Devagar. Encostou no rosto dela. Com cuidado. Como se ainda tivesse medo de quebrar. Ela fechou os olhos. Um segundo. Só sentindo. — Isso ainda pode dar muito errado — ela disse. — Vai dar. — Então por que a gente continua? Pausa. Ele respondeu: — Porque eu não consigo parar. Erro. Grande. Irreversível. Ela abriu os olhos. Olhou direto pra ele. — Nem eu. Silêncio. E dessa vez… não tinha mais fuga. Ele se aproximou. Devagar. Esperando. Dando escolha. Ela não recuou. E o beijo veio. Lento. Cuidado. Diferente. Sem urgência. Sem caos. Só… sentimento. Mas— a porta abriu. — EU SABIA! — Bruna entrou. Silêncio. Eles se afastaram rápido. — Desculpa… — ela parou — não, não desculpa não. — Bruna… — Luna murmurou. — Matteo, você perdeu — Bruna gritou. — Eu não apostei isso — Matteo respondeu, entrando. Clima quebrado. Total. — Vocês estavam…? — Bruna apontou. — Não — Luna disse. — Sim — Matteo respondeu. Silêncio. — Eu odeio vocês — Luna disse. — Eu amo vocês — Bruna respondeu. Do outro lado… Matteo cruzou os braços. — Isso complica tudo. — Já estava complicado — Enrico disse. Silêncio. Mas então— o celular de Matteo vibrou. Ele olhou. E o rosto mudou. — Ele apareceu. Silêncio. — Onde? — Enrico perguntou. Matteo levantou o olhar. — Perto daqui. Silêncio. Pesado. Voltando. — Ele sabe onde estamos — Luna disse. E o momento… acabou. Porque o perigo… não tinha ido embora. Só estava esperando. E agora… mais perto do que nunca. O hospital deixou de ser seguro. Naquele instante… virou território vulnerável. — Como assim “perto daqui”? — Luna perguntou. — Câmera externa — Matteo respondeu — estacionamento. Silêncio. Pesado. — Ele não vai entrar — Enrico disse. — Você não sabe disso — Luna cortou. — A segurança— — FALHOU ANTES! Silêncio Bruna já andando de um lado pro outro. — Eu não tô pronta pra morrer em hospital, gente. — Você não vai morrer — Matteo disse. — Não garante! — Ninguém aqui garante nada — Luna respondeu. Direto. Real. — Ok — Enrico respirou fundo — a gente precisa pensar rápido. — Finalmente — Luna disse. — Você não ajuda. — Eu ajudo sendo realista. Silêncio. — A gente não pode sair correndo — Matteo disse. — Nem ficar parado — Bruna completou. — Ele quer acesso — Enrico analisou. — E quer você — Luna disse. Silêncio. — E você — ele completou. Troca de olhares. Agora era claro: não tinha mais alvo único. — Então a gente muda o jogo — Luna disse. — Como? — Matteo perguntou. Pausa. Ela pensou. Rápido. Frio. — A gente faz ele entrar. Silêncio. — NÃO — Enrico respondeu na hora. — Sim. — Nem pensar. — Ele já está aqui! — Isso não significa— — Significa que ele não vai parar! Silêncio. Ela chegou mais perto. Olho no olho. Sem medo agora. — Ou a gente enfrenta… ou continua correndo. Pausa. — E eu não vou mais correr. Silêncio. Pesado. Importante. Enrico fechou os olhos por um segundo. Tomando decisão. Difícil. — Tá. Bruna parou. — Espera… você disse “tá”? — Disse. — Eu não gostei. — Nem eu — Matteo concordou. Plano. Rápido. Arriscado. — A gente isola o andar — Matteo disse. — Segurança nos acessos — Enrico completou. — E eu? — Luna perguntou. Silêncio. — Comigo — ele respondeu. Ela assentiu. Sem discutir. — Isso tá sério demais — Bruna murmurou. — Já passou desse ponto — Matteo disse. Minutos depois… Corredores vazios. Portas fechadas. Passos ecoando Tudo quieto. De novo. Errado. — Ele vai aparecer — Luna disse. — Eu sei. — E dessa vez? Silêncio. — Dessa vez acaba. Som. Distante. Porta abrindo. Todos ficaram imóveis. Passos. Lentos. Calmos. E então… ele apareceu. Rafael. Sem pressa. Sem esconder. — Finalmente — ele disse. Como se estivesse esperando isso. — Acabou — Enrico respondeu. — Não acabou. — Acabou sim. Silêncio. Rafael olhou pra Luna. Direto. Fixado. — Você ainda não entendeu — ele disse. — Então explica — ela respondeu. Sem recuar. — Você entrou em algo que não é seu. — Eu não pertenço a ninguém. Silêncio. — Ele pertence — Rafael disse. — Não — Enrico respondeu — eu não pertenço a você. Pausa. Curta. Perigosa. — Você destruiu tudo — Rafael continuou. — Você fez isso sozinho. Silêncio. Os olhos dele escureceram. — Eu só quero corrigir. — Isso não é correção — Luna disse — isso é obsessão. Silêncio. Pesado. — Você acha que ele escolheu você? — Rafael provocou. Erro. Luna não recuou. — Eu sei que ele escolheu. Silêncio. Enrico olhou pra ela. Surpreso. Mas não negou. Rafael riu. Frio. — Então vamos testar isso. Movimento rápido. De novo. Mas dessa vez— segurança entrou. — AGORA! — Matteo gritou. Caos Rafael tentou correr. Mas— foi cercado. — ACABOU! — Enrico disse. Silêncio. Respiração pesada. Tensão no limite. Rafael ainda sorria. — Você acha que ganhou? — Acabou — Enrico repetiu. Ele olhou pra Luna. Última vez. — Isso não termina aqui. Mas dessa vez… não conseguiu fugir. Foi contido. Levado. Silêncio. Grande. Pesado. Tudo parou Bruna soltou o ar. — EU PRECISO DE ÁGUA. — Eu preciso de férias — Matteo disse. Luna ficou parada. Processando. Sentindo — Acabou…? — ela perguntou. Enrico olhou pra ela. Respirou fundo. — Agora sim. Silêncio. Diferente. Mais leve. Ela deu um passo mais perto. — Você tem certeza? Pausa. Ele respondeu: — Eu vou garantir. Silêncio. E dessa vez… parecia verdade. Mas ainda não era o fim. Porque mesmo quando o perigo acaba… as consequências ficam. E eles? Ainda tinham muita coisa pra resolver.
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