O hospital tinha um ritmo próprio.
Lento.
Silencioso.
Sufocante.
Mas, pra Luna…
o mundo inteiro cabia naquele quarto.
— Você não precisa ficar aqui o tempo todo — Enrico disse.
Voz ainda fraca.
Mas teimosa.
— Preciso sim.
— Eu estou bem.
— Não está.
Silêncio.
— Estou melhor.
— Não discute.
Do outro lado…
— Ela não saiu de lá — Bruna disse.
— Nem ele vai mandar ela sair — Matteo respondeu.
— Eu tô achando isso suspeitamente fofo.
— Eu tô achando isso perigosamente intenso.
De volta…
— Você devia descansar — ele tentou.
— Eu vou descansar aqui.
— Isso é uma cadeira.
— Eu sobrevivo.
— Você reclama de tudo.
— De você principalmente.
Silêncio.
Pequeno sorriso.
— Eu mereço.
— Muito.
Pausa.
Olhar preso.
Respiração leve.
— Você ficou — ele disse.
Baixo.
Ela desviou o olhar.
— Eu disse que ficaria.
— Você não disse.
— Eu pensei.
— Não conta.
— Conta sim.
Silêncio.
— Então fala — ele provocou.
Erro.
Ela travou.
De novo.
Sempre.
— Não se aproveita disso.
— Eu estou só pedindo clareza.
— Você nunca pediu antes.
— Eu estou tentando agora.
Silêncio.
Ela suspirou.
Cansada.
Mas sem fugir dessa vez.
— Eu fiquei porque… — ela começou.
Parou.
Respirou.
Tentou de novo.
— Porque você importa.
Silêncio.
Ele não respondeu na hora.
Porque aquilo…
já era muito.
— Você também importa — ele disse.
Simples.
Direto.
Ela riu.
Baixo.
— Isso é o máximo que você consegue?
— Por enquanto.
Silêncio.
— Eu quase perdi você — ela disse.
De novo.
Mas agora…
mais calma.
Mais real.
— E eu quase perdi você antes disso — ele respondeu.
Pausa.
Ela olhou pra ele.
— A gente é muito r**m nisso.
— Em quase tudo.
— Em não se machucar principalmente.
Silêncio.
— Mas a gente continua tentando — ele disse.
— Não sei por quê.
— Eu sei.
Pausa.
— Porque você não foi embora.
Silêncio.
De novo.
Mas diferente.
Ela chegou mais perto.
Sem perceber.
Ou percebendo demais.
— E você não desistiu.
Eles estavam perto.
Muito perto
Respiração misturada.
Olhar preso.
Sem regra.
Sem plano.
— Isso não é seguro — ela murmurou.
— Nunca foi.
— A gente devia parar.
— Devia.
Silêncio.
Mas nenhum se afastou.
Ele levantou a mão.
Devagar.
Encostou no rosto dela.
Com cuidado.
Como se ainda tivesse medo de quebrar.
Ela fechou os olhos.
Um segundo.
Só sentindo.
— Isso ainda pode dar muito errado — ela disse.
— Vai dar.
— Então por que a gente continua?
Pausa.
Ele respondeu:
— Porque eu não consigo parar.
Erro.
Grande.
Irreversível.
Ela abriu os olhos.
Olhou direto pra ele.
— Nem eu.
Silêncio.
E dessa vez…
não tinha mais fuga.
Ele se aproximou.
Devagar.
Esperando.
Dando escolha.
Ela não recuou.
E o beijo veio.
Lento.
Cuidado.
Diferente.
Sem urgência.
Sem caos.
Só… sentimento.
Mas—
a porta abriu.
— EU SABIA! — Bruna entrou.
Silêncio.
Eles se afastaram rápido.
— Desculpa… — ela parou — não, não desculpa não.
— Bruna… — Luna murmurou.
— Matteo, você perdeu — Bruna gritou.
— Eu não apostei isso — Matteo respondeu, entrando.
Clima quebrado.
Total.
— Vocês estavam…? — Bruna apontou.
— Não — Luna disse.
— Sim — Matteo respondeu.
Silêncio.
— Eu odeio vocês — Luna disse.
— Eu amo vocês — Bruna respondeu.
Do outro lado…
Matteo cruzou os braços.
— Isso complica tudo.
— Já estava complicado — Enrico disse.
Silêncio.
Mas então—
o celular de Matteo vibrou.
Ele olhou.
E o rosto mudou.
— Ele apareceu.
Silêncio.
— Onde? — Enrico perguntou.
Matteo levantou o olhar.
— Perto daqui.
Silêncio.
Pesado.
Voltando.
— Ele sabe onde estamos — Luna disse.
E o momento…
acabou.
Porque o perigo…
não tinha ido embora.
Só estava esperando.
E agora…
mais perto do que nunca.
O hospital deixou de ser seguro.
Naquele instante…
virou território vulnerável.
— Como assim “perto daqui”? — Luna perguntou.
— Câmera externa — Matteo respondeu — estacionamento.
Silêncio.
Pesado.
— Ele não vai entrar — Enrico disse.
— Você não sabe disso — Luna cortou.
— A segurança—
— FALHOU ANTES!
Silêncio
Bruna já andando de um lado pro outro.
— Eu não tô pronta pra morrer em hospital, gente.
— Você não vai morrer — Matteo disse.
— Não garante!
— Ninguém aqui garante nada — Luna respondeu.
Direto.
Real.
— Ok — Enrico respirou fundo — a gente precisa pensar rápido.
— Finalmente — Luna disse.
— Você não ajuda.
— Eu ajudo sendo realista.
Silêncio.
— A gente não pode sair correndo — Matteo disse.
— Nem ficar parado — Bruna completou.
— Ele quer acesso — Enrico analisou.
— E quer você — Luna disse.
Silêncio.
— E você — ele completou.
Troca de olhares.
Agora era claro:
não tinha mais alvo único.
— Então a gente muda o jogo — Luna disse.
— Como? — Matteo perguntou.
Pausa.
Ela pensou.
Rápido.
Frio.
— A gente faz ele entrar.
Silêncio.
— NÃO — Enrico respondeu na hora.
— Sim.
— Nem pensar.
— Ele já está aqui!
— Isso não significa—
— Significa que ele não vai parar!
Silêncio.
Ela chegou mais perto.
Olho no olho.
Sem medo agora.
— Ou a gente enfrenta… ou continua correndo.
Pausa.
— E eu não vou mais correr.
Silêncio.
Pesado.
Importante.
Enrico fechou os olhos por um segundo.
Tomando decisão.
Difícil.
— Tá.
Bruna parou.
— Espera… você disse “tá”?
— Disse.
— Eu não gostei.
— Nem eu — Matteo concordou.
Plano.
Rápido.
Arriscado.
— A gente isola o andar — Matteo disse.
— Segurança nos acessos — Enrico completou.
— E eu? — Luna perguntou.
Silêncio.
— Comigo — ele respondeu.
Ela assentiu.
Sem discutir.
— Isso tá sério demais — Bruna murmurou.
— Já passou desse ponto — Matteo disse.
Minutos depois…
Corredores vazios.
Portas fechadas.
Passos ecoando
Tudo quieto.
De novo.
Errado.
— Ele vai aparecer — Luna disse.
— Eu sei.
— E dessa vez?
Silêncio.
— Dessa vez acaba.
Som.
Distante.
Porta abrindo.
Todos ficaram imóveis.
Passos.
Lentos.
Calmos.
E então…
ele apareceu.
Rafael.
Sem pressa.
Sem esconder.
— Finalmente — ele disse.
Como se estivesse esperando isso.
— Acabou — Enrico respondeu.
— Não acabou.
— Acabou sim.
Silêncio.
Rafael olhou pra Luna.
Direto.
Fixado.
— Você ainda não entendeu — ele disse.
— Então explica — ela respondeu.
Sem recuar.
— Você entrou em algo que não é seu.
— Eu não pertenço a ninguém.
Silêncio.
— Ele pertence — Rafael disse.
— Não — Enrico respondeu — eu não pertenço a você.
Pausa.
Curta.
Perigosa.
— Você destruiu tudo — Rafael continuou.
— Você fez isso sozinho.
Silêncio.
Os olhos dele escureceram.
— Eu só quero corrigir.
— Isso não é correção — Luna disse — isso é obsessão.
Silêncio.
Pesado.
— Você acha que ele escolheu você? — Rafael provocou.
Erro.
Luna não recuou.
— Eu sei que ele escolheu.
Silêncio.
Enrico olhou pra ela.
Surpreso.
Mas não negou.
Rafael riu.
Frio.
— Então vamos testar isso.
Movimento rápido.
De novo.
Mas dessa vez—
segurança entrou.
— AGORA! — Matteo gritou.
Caos
Rafael tentou correr.
Mas—
foi cercado.
— ACABOU! — Enrico disse.
Silêncio.
Respiração pesada.
Tensão no limite.
Rafael ainda sorria.
— Você acha que ganhou?
— Acabou — Enrico repetiu.
Ele olhou pra Luna.
Última vez.
— Isso não termina aqui.
Mas dessa vez…
não conseguiu fugir.
Foi contido.
Levado.
Silêncio.
Grande.
Pesado.
Tudo parou
Bruna soltou o ar.
— EU PRECISO DE ÁGUA.
— Eu preciso de férias — Matteo disse.
Luna ficou parada.
Processando.
Sentindo
— Acabou…? — ela perguntou.
Enrico olhou pra ela.
Respirou fundo.
— Agora sim.
Silêncio.
Diferente.
Mais leve.
Ela deu um passo mais perto.
— Você tem certeza?
Pausa.
Ele respondeu:
— Eu vou garantir.
Silêncio.
E dessa vez…
parecia verdade.
Mas ainda não era o fim.
Porque mesmo quando o perigo acaba…
as consequências ficam.
E eles?
Ainda tinham muita coisa pra resolver.