Três

1657 Words
Se alguém dissesse pra Luna Andrade, naquela manhã, que ela terminaria o dia noiva de mentira de um CEO italiano problemático… Ela teria rido. Agora? Ela só queria um café. E talvez um pouco de juízo. — Isso é sério mesmo? — ela perguntou, andando de um lado pro outro na sala de Enrico — tipo… oficial? — Extremamente sério. — Você tem noção do que tá fazendo? — Tenho. — Eu não tenho. — Vai se acostumar. — Eu não quero me acostumar! — Tarde demais. Silêncio. Ela parou na frente dele. — Tá. Vamos revisar isso aqui. Eu… Luna Andrade… — apontou pra si — vou fingir ser noiva de… — apontou pra ele — você. — Correto. — Um homem que eu conheço há… o quê? Algumas horas? — Tempo suficiente. — Tempo suficiente pra eu saber que você é insuportável. — E eu sei que você é imprudente. — Ótimo. Combinação perfeita. Ele ignorou. Claro. — Precisamos estabelecer regras. — ALELUIA. Algo sensato. Ele pegou um tablet. Frio. Organizado. Metódico. — Regra número um: isso é um acordo profissional. — Ou seja, nada de sentimentos. — Exatamente. — Relaxa. Eu tenho bom gosto. Silêncio. Ele apenas… anotou. — Regra número dois: comportamento adequado em público. — Define “adequado”. — Sem gritar, sem sarcasmo excessivo— Ela levantou a mão. — Então eu não posso existir? — Controle-se. — Vou tentar… não prometo. Ele respirou fundo. — Regra número três: você deve agir como alguém compatível com o meu nível social. Luna arregalou os olhos. — Ih. — Nada de gírias em eventos importantes. — Você quer que eu pare de falar? — Quero que você fale menos. — Isso é praticamente censura. — Isso é necessidade. Ela cruzou os braços. — Tá bom… eu posso tentar falar… chique. — Tentar? — Não força também, Enrico Bianchi. Ele ignorou (de novo). — Regra número quatro: nada de envolvimento pessoal. Silêncio. Ela inclinou a cabeça. — Isso inclui beijo? Ele parou. Olhou pra ela. Longo. Direto. — Só quando necessário. Pausa. — Necessário? — Para convencer outras pessoas. Ela soltou um riso curto. — Nossa, que sacrifício. — Controle-se. — Eu tô controlada. — Não parece. — Porque você não me viu sem controle ainda. Silêncio. Perigoso. Ele desviou o olhar primeiro. — Regra número cinco: você segue minhas orientações em eventos. — Tipo uma… noiva sob comando? — Tipo alguém que não vai me constranger. — Não prometo nada. — Prometa. — …eu prometo tentar não te destruir socialmente. Ele fechou os olhos por um segundo. — Já é o máximo que eu vou conseguir, né? — Com certeza. Silêncio. Mas dessa vez… não era pesado. Era… estranho. Diferente. — E você? — ela perguntou. Ele franziu a testa. — Eu? — Suas regras. — Eu já estabeleci. — Não, querido. Agora é minha vez. Ele cruzou os braços. — Estou ouvindo. Ela começou a andar pela sala. Pensando. Criando caos. — Regra número um: você não manda em mim fora do trabalho. — Eu não mando em você nem no trabalho. Ela parou. Olhou pra ele. — Repete isso com mais convicção. Silêncio. Ele não repetiu. — Exatamente — ela sorriu. — Próxima. — Regra número dois: você não me trata como se eu fosse descartável. — Eu não faço isso. Ela arqueou a sobrancelha. — Você faz. Silêncio. — Vou… considerar. — Vai melhorar. — Próxima. — Regra número três: você não pode me olhar desse jeito. Ele franziu a testa. — Que jeito? Ela chegou mais perto. Devagar. Perigosa. — Como se estivesse me analisando o tempo todo. — Eu estou analisando. — Para. — Não. — Para. — Não. Silêncio. Tensão. — Última regra — ela disse, mais baixa — se isso começar a dar errado… a gente para. Ele hesitou. Um segundo. Dois. — Não vai dar errado. Ela soltou um sorriso lento. — Vai sim. — Eu não erro. — Então essa vai ser sua primeira vez. Silêncio. Ele a encarou. Ela sustentou o olhar. Ninguém desviou. E pela primeira vez… não era só provocação. Tinha algo ali. Pequeno. Perigoso. Real. — Temos um acordo? — ele perguntou. Ela estendeu a mão. — Temos um problema. Ele apertou. — Resolvido. Ela sorriu. — Você acha. Do lado de fora… Bruna e Matteo estavam na mesma posição de sempre: Observando o caos. — Eles vão se matar — Matteo disse. — Ou se beijar. — Isso não é melhor. — É muito melhor. Ele passou a mão no rosto. — Eu não entendo vocês. Bruna sorriu. — Ninguém entende. Pausa. — Nem a gente. E assim… com regras que claramente seriam quebradas… um contrato foi fechado. E o que era pra ser só um acordo profissional… começou a ficar perigoso demais pra continuar sendo só isso. Luna estava parada no meio do quarto. Olhando para o espelho. Em choque. — Isso não sou eu. Ela girou devagar. Saia preta impecável. Blusa vermelha elegante, caída nos ombros na medida certa. Cinto marcando a cintura. Salto alto que gritava “confiança”… E ainda assim… — Eu tô com cara de gente rica. Bruna, jogada na cama, levantou o celular pra tirar foto. — Amiga, você não tá com cara de rica. Click. — Você tá com cara de problema. — Eu já sou um problema. — Agora você é um problema caro. Luna respirou fundo. — Eu não sei fazer isso. — Fazer o quê? — Fingir ser noiva de um CEO frio que me olha como se eu fosse um enigma ambulante. Bruna sentou. — Primeiro: você é um enigma ambulante. — Segundo: você não precisa fingir muita coisa. Só diminui uns 40% do caos. — Só 40%? — Tá… 20%. Mais que isso você morre. Luna riu, nervosa. — Isso vai dar errado. — Vai. — Muito errado. — Com certeza. — E você tá animada? — MUITO. — Eu odeio você. — Eu sei. Minutos depois… O carro parou na frente de um lugar absurdamente chique. Luna olhou pela janela. — Isso aqui não é um jantar… é um teste de sobrevivência. — Respira — Bruna disse — você vai arrasar. — Ou ser expulsa. — Ou os dois. A porta abriu. E lá estava ele. Enrico Bianchi. Terno impecável. Postura perfeita. Olhar sério. E completamente pronto pra julgar. Ele olhou para Luna. E… parou. Por um segundo. Dois. Três. Luna arqueou a sobrancelha. — Que foi? Ele demorou um pouco mais do que deveria pra responder. — Você… está adequada. Ela cruzou os braços. — Isso foi um elogio? — Foi uma constatação. — Fraco. Ele estendeu o braço. — Vamos. Ela olhou pro braço. Depois pra cara dele. Depois pro braço de novo. — Ah… contato físico já? — É necessário. — Claro. Necessário. Ela segurou o braço dele. E imediatamente percebeu uma coisa: — Você é forte. Ele não reagiu. — Eu faço academia. — Eu percebi. Silêncio. Mas não era desconfortável. Era… estranho. Diferente. Eles entraram. E o mundo mudou. Olhares. Sussurros. Gente elegante demais fingindo não estar observando. — Eles estão olhando — Luna sussurrou. — Deixe que olhem. — Eu tô sendo julgada. — Sempre são. — Eu não gosto disso. — Finja que gosta. — Eu não sei fingir isso. Ele se inclinou levemente. Mais perto. Mais baixo. — Então finja que gosta de mim. Ela travou. Por meio segundo. — Isso vai ser mais difícil. Ele quase sorriu. Quase. — Enrico! Uma mulher apareceu. Elegante. Perfeita. Perigosa. E claramente… interessada. Ela olhou para Luna. De cima a baixo. — E essa é…? Silêncio. O momento. O teste. Enrico apertou levemente a mão de Luna. Um aviso. Ela respirou fundo. Virou o jogo. Sorriu. Calma. Confiante. Perigosa. — Noiva — Luna respondeu, antes mesmo dele falar. Silêncio. A mulher piscou. — Desculpa? Luna se aproximou mais de Enrico. Natural. Como se já fosse dela. — Eu sou a noiva dele. E então… ela fez o pior. Ou o melhor. Depende do ponto de vista. Ela encostou a cabeça de leve no ombro dele. E sorriu. — Surpresa. Silêncio. Pesado. A mulher ficou sem reação. Enrico… também. Por um segundo. Mas só por um segundo. Porque no seguinte… ele entrou no jogo. A mão dele deslizou pela cintura dela. Firme. Segura. Como se fosse natural. — Eu ia anunciar mais tarde — ele disse. Calmo. Perfeito. Mentiroso profissional. Luna olhou pra ele de canto. — Uau, você mente bem. Ele murmurou de volta: — Você improvisa melhor. A mulher forçou um sorriso. — Que… novidade. — Pois é — Luna respondeu — a vida surpreende. Clima tenso. Ciúme evidente. Vitória parcial. Mais tarde… Já longe dali… Luna soltou o braço dele. — Eu sobrevivi. — Você exagerou. — Eu brilhei. — Você quase causou um escândalo. — “Quase” é sucesso. Silêncio. Ele a encarou. Mais uma vez. Diferente. — Você foi convincente. Ela sorriu. — Eu sou boa no que faço. — Isso é preocupante. — Pra você? — Muito. Pausa. — E você? — ela perguntou — gostou de fingir? Ele hesitou. Só um pouco. — Foi necessário. Ela chegou mais perto. Devagar. — Só necessário? Silêncio. Ele não respondeu. Ela sorriu. Sabia a resposta. Do outro lado da festa… Bruna estava animada demais. — EU AMEI. Matteo estava… cansado. — Eu estou confuso. — Normal. — Eles brigam ou se beijam? — Os dois. — Isso não faz sentido. — Romance nunca faz. Ele olhou pra ela. — E você? — Eu? — Você também é assim? Ela sorriu. — Pior. Ele suspirou. — Eu preciso mesmo de um café. Ela puxou ele pelo braço. — Vem, italiano. Eu te ensino a sobreviver. Ele deixou. Sem entender por quê. E naquela noite… o que era só um teatro… começou a parecer real demais. E o problema? Bom… ninguém estava mais seguindo as regras.
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