Se alguém dissesse pra Luna Andrade, naquela manhã, que ela terminaria o dia noiva de mentira de um CEO italiano problemático…
Ela teria rido.
Agora?
Ela só queria um café.
E talvez um pouco de juízo.
— Isso é sério mesmo? — ela perguntou, andando de um lado pro outro na sala de Enrico — tipo… oficial?
— Extremamente sério.
— Você tem noção do que tá fazendo?
— Tenho.
— Eu não tenho.
— Vai se acostumar.
— Eu não quero me acostumar!
— Tarde demais.
Silêncio.
Ela parou na frente dele.
— Tá. Vamos revisar isso aqui. Eu… Luna Andrade… — apontou pra si — vou fingir ser noiva de… — apontou pra ele — você.
— Correto.
— Um homem que eu conheço há… o quê? Algumas horas?
— Tempo suficiente.
— Tempo suficiente pra eu saber que você é insuportável.
— E eu sei que você é imprudente.
— Ótimo. Combinação perfeita.
Ele ignorou.
Claro.
— Precisamos estabelecer regras.
— ALELUIA. Algo sensato.
Ele pegou um tablet.
Frio. Organizado. Metódico.
— Regra número um: isso é um acordo profissional.
— Ou seja, nada de sentimentos.
— Exatamente.
— Relaxa. Eu tenho bom gosto.
Silêncio.
Ele apenas… anotou.
— Regra número dois: comportamento adequado em público.
— Define “adequado”.
— Sem gritar, sem sarcasmo excessivo—
Ela levantou a mão.
— Então eu não posso existir?
— Controle-se.
— Vou tentar… não prometo.
Ele respirou fundo.
— Regra número três: você deve agir como alguém compatível com o meu nível social.
Luna arregalou os olhos.
— Ih.
— Nada de gírias em eventos importantes.
— Você quer que eu pare de falar?
— Quero que você fale menos.
— Isso é praticamente censura.
— Isso é necessidade.
Ela cruzou os braços.
— Tá bom… eu posso tentar falar… chique.
— Tentar?
— Não força também, Enrico Bianchi.
Ele ignorou (de novo).
— Regra número quatro: nada de envolvimento pessoal.
Silêncio.
Ela inclinou a cabeça.
— Isso inclui beijo?
Ele parou.
Olhou pra ela.
Longo.
Direto.
— Só quando necessário.
Pausa.
— Necessário?
— Para convencer outras pessoas.
Ela soltou um riso curto.
— Nossa, que sacrifício.
— Controle-se.
— Eu tô controlada.
— Não parece.
— Porque você não me viu sem controle ainda.
Silêncio.
Perigoso.
Ele desviou o olhar primeiro.
— Regra número cinco: você segue minhas orientações em eventos.
— Tipo uma… noiva sob comando?
— Tipo alguém que não vai me constranger.
— Não prometo nada.
— Prometa.
— …eu prometo tentar não te destruir socialmente.
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Já é o máximo que eu vou conseguir, né?
— Com certeza.
Silêncio.
Mas dessa vez…
não era pesado.
Era… estranho.
Diferente.
— E você? — ela perguntou.
Ele franziu a testa.
— Eu?
— Suas regras.
— Eu já estabeleci.
— Não, querido. Agora é minha vez.
Ele cruzou os braços.
— Estou ouvindo.
Ela começou a andar pela sala.
Pensando.
Criando caos.
— Regra número um: você não manda em mim fora do trabalho.
— Eu não mando em você nem no trabalho.
Ela parou.
Olhou pra ele.
— Repete isso com mais convicção.
Silêncio.
Ele não repetiu.
— Exatamente — ela sorriu.
— Próxima.
— Regra número dois: você não me trata como se eu fosse descartável.
— Eu não faço isso.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Você faz.
Silêncio.
— Vou… considerar.
— Vai melhorar.
— Próxima.
— Regra número três: você não pode me olhar desse jeito.
Ele franziu a testa.
— Que jeito?
Ela chegou mais perto.
Devagar.
Perigosa.
— Como se estivesse me analisando o tempo todo.
— Eu estou analisando.
— Para.
— Não.
— Para.
— Não.
Silêncio.
Tensão.
— Última regra — ela disse, mais baixa — se isso começar a dar errado… a gente para.
Ele hesitou.
Um segundo.
Dois.
— Não vai dar errado.
Ela soltou um sorriso lento.
— Vai sim.
— Eu não erro.
— Então essa vai ser sua primeira vez.
Silêncio.
Ele a encarou.
Ela sustentou o olhar.
Ninguém desviou.
E pela primeira vez…
não era só provocação.
Tinha algo ali.
Pequeno.
Perigoso.
Real.
— Temos um acordo? — ele perguntou.
Ela estendeu a mão.
— Temos um problema.
Ele apertou.
— Resolvido.
Ela sorriu.
— Você acha.
Do lado de fora…
Bruna e Matteo estavam na mesma posição de sempre:
Observando o caos.
— Eles vão se matar — Matteo disse.
— Ou se beijar.
— Isso não é melhor.
— É muito melhor.
Ele passou a mão no rosto.
— Eu não entendo vocês.
Bruna sorriu.
— Ninguém entende.
Pausa.
— Nem a gente.
E assim…
com regras que claramente seriam quebradas…
um contrato foi fechado.
E o que era pra ser só um acordo profissional…
começou a ficar perigoso demais pra continuar sendo só isso.
Luna estava parada no meio do quarto.
Olhando para o espelho.
Em choque.
— Isso não sou eu.
Ela girou devagar.
Saia preta impecável. Blusa vermelha elegante, caída nos ombros na medida certa. Cinto marcando a cintura. Salto alto que gritava “confiança”…
E ainda assim…
— Eu tô com cara de gente rica.
Bruna, jogada na cama, levantou o celular pra tirar foto.
— Amiga, você não tá com cara de rica.
Click.
— Você tá com cara de problema.
— Eu já sou um problema.
— Agora você é um problema caro.
Luna respirou fundo.
— Eu não sei fazer isso.
— Fazer o quê?
— Fingir ser noiva de um CEO frio que me olha como se eu fosse um enigma ambulante.
Bruna sentou.
— Primeiro: você é um enigma ambulante.
— Segundo: você não precisa fingir muita coisa. Só diminui uns 40% do caos.
— Só 40%?
— Tá… 20%. Mais que isso você morre.
Luna riu, nervosa.
— Isso vai dar errado.
— Vai.
— Muito errado.
— Com certeza.
— E você tá animada?
— MUITO.
— Eu odeio você.
— Eu sei.
Minutos depois…
O carro parou na frente de um lugar absurdamente chique.
Luna olhou pela janela.
— Isso aqui não é um jantar… é um teste de sobrevivência.
— Respira — Bruna disse — você vai arrasar.
— Ou ser expulsa.
— Ou os dois.
A porta abriu.
E lá estava ele.
Enrico Bianchi.
Terno impecável. Postura perfeita. Olhar sério.
E completamente pronto pra julgar.
Ele olhou para Luna.
E… parou.
Por um segundo.
Dois.
Três.
Luna arqueou a sobrancelha.
— Que foi?
Ele demorou um pouco mais do que deveria pra responder.
— Você… está adequada.
Ela cruzou os braços.
— Isso foi um elogio?
— Foi uma constatação.
— Fraco.
Ele estendeu o braço.
— Vamos.
Ela olhou pro braço.
Depois pra cara dele.
Depois pro braço de novo.
— Ah… contato físico já?
— É necessário.
— Claro. Necessário.
Ela segurou o braço dele.
E imediatamente percebeu uma coisa:
— Você é forte.
Ele não reagiu.
— Eu faço academia.
— Eu percebi.
Silêncio.
Mas não era desconfortável.
Era… estranho.
Diferente.
Eles entraram.
E o mundo mudou.
Olhares.
Sussurros.
Gente elegante demais fingindo não estar observando.
— Eles estão olhando — Luna sussurrou.
— Deixe que olhem.
— Eu tô sendo julgada.
— Sempre são.
— Eu não gosto disso.
— Finja que gosta.
— Eu não sei fingir isso.
Ele se inclinou levemente.
Mais perto.
Mais baixo.
— Então finja que gosta de mim.
Ela travou.
Por meio segundo.
— Isso vai ser mais difícil.
Ele quase sorriu.
Quase.
— Enrico!
Uma mulher apareceu.
Elegante. Perfeita. Perigosa.
E claramente… interessada.
Ela olhou para Luna.
De cima a baixo.
— E essa é…?
Silêncio.
O momento.
O teste.
Enrico apertou levemente a mão de Luna.
Um aviso.
Ela respirou fundo.
Virou o jogo.
Sorriu.
Calma.
Confiante.
Perigosa.
— Noiva — Luna respondeu, antes mesmo dele falar.
Silêncio.
A mulher piscou.
— Desculpa?
Luna se aproximou mais de Enrico.
Natural.
Como se já fosse dela.
— Eu sou a noiva dele.
E então…
ela fez o pior.
Ou o melhor.
Depende do ponto de vista.
Ela encostou a cabeça de leve no ombro dele.
E sorriu.
— Surpresa.
Silêncio.
Pesado.
A mulher ficou sem reação.
Enrico… também.
Por um segundo.
Mas só por um segundo.
Porque no seguinte…
ele entrou no jogo.
A mão dele deslizou pela cintura dela.
Firme.
Segura.
Como se fosse natural.
— Eu ia anunciar mais tarde — ele disse.
Calmo.
Perfeito.
Mentiroso profissional.
Luna olhou pra ele de canto.
— Uau, você mente bem.
Ele murmurou de volta:
— Você improvisa melhor.
A mulher forçou um sorriso.
— Que… novidade.
— Pois é — Luna respondeu — a vida surpreende.
Clima tenso.
Ciúme evidente.
Vitória parcial.
Mais tarde…
Já longe dali…
Luna soltou o braço dele.
— Eu sobrevivi.
— Você exagerou.
— Eu brilhei.
— Você quase causou um escândalo.
— “Quase” é sucesso.
Silêncio.
Ele a encarou.
Mais uma vez.
Diferente.
— Você foi convincente.
Ela sorriu.
— Eu sou boa no que faço.
— Isso é preocupante.
— Pra você?
— Muito.
Pausa.
— E você? — ela perguntou — gostou de fingir?
Ele hesitou.
Só um pouco.
— Foi necessário.
Ela chegou mais perto.
Devagar.
— Só necessário?
Silêncio.
Ele não respondeu.
Ela sorriu.
Sabia a resposta.
Do outro lado da festa…
Bruna estava animada demais.
— EU AMEI.
Matteo estava… cansado.
— Eu estou confuso.
— Normal.
— Eles brigam ou se beijam?
— Os dois.
— Isso não faz sentido.
— Romance nunca faz.
Ele olhou pra ela.
— E você?
— Eu?
— Você também é assim?
Ela sorriu.
— Pior.
Ele suspirou.
— Eu preciso mesmo de um café.
Ela puxou ele pelo braço.
— Vem, italiano. Eu te ensino a sobreviver.
Ele deixou.
Sem entender por quê.
E naquela noite…
o que era só um teatro…
começou a parecer real demais.
E o problema?
Bom…
ninguém estava mais seguindo as regras.