Onze

1345 Words
Se alguém olhasse de fora… diria que estava tudo resolvido. Sem escândalo novo. Sem brigas públicas. Sem olhares intensos. Só um casal perfeito. Mentira. Era só silêncio bem treinado. — Café? — Matteo perguntou. — Sempre — Bruna respondeu, pegando a xícara — eu preciso de energia pra lidar com esses dois. — Eles estão… estáveis. — Eles estão mortos por dentro. — Isso é dramático. — Isso é preciso. Silêncio. No escritório… — Assinatura aqui — Luna disse. — Obrigado. — Reunião confirmada. — Certo. — Mais alguma coisa? — Não. Silêncio. E acabou. Simples assim. Sem troca. Sem tensão. Sem nada. — Eu não aguento mais isso — Bruna murmurou. — Eu também não — Matteo respondeu. — Eles viraram colegas de trabalho. — Tecnicamente, sempre foram. — Não desse jeito. Silêncio. Mais tarde… — Hoje à noite tem evento — Enrico disse. — Eu sei. — Vai precisar ir. — Eu sei. — Certo. Silêncio. Ela já ia sair quando— — Luna. Ela parou. Mas não virou. — O quê? Pausa. Curta. — Nada. Silêncio. Ela assentiu. E saiu. — Você é um desastre emocional — Bruna disse, entrando sem bater. — Obrigado. — Isso também não foi elogio. — Eu sei. — Você tinha algo pra dizer. — Não mais. — Você sempre faz isso. Silêncio. — Eu sei. Do outro lado… Matteo encostou na mesa de Luna. — Você também. — Também o quê? — Tinha algo pra dizer. Ela digitou. Sem olhar. — Não mais. Silêncio. — Vocês são iguais — ele disse. — Não somos. — São sim. — Eu falo. — Mas não fala o que importa. Silêncio. Ela parou de digitar. Só por um segundo. — Talvez porque não adianta. No evento… Tudo perfeito. Como sempre. Eles chegaram juntos. Mãos dadas. Sorrisos ensaiados. Distância invisível. — Mais perto — fotógrafo pediu. Eles se aproximaram. Automático. Sem reação. — Olha pra ele — pediram. Ela olhou. E foi estranho. Porque não tinha mais provocação. Nem desafio. Só… lembrança. — Perfeito — o fotógrafo disse. Mas não estava. — Isso tá pior do que antes — Bruna comentou. — Porque agora eles estão desistindo — Matteo respondeu. Silêncio. Durante o evento… Um investidor se aproximou de Luna. — Você deve estar orgulhosa — ele disse. — De quê? — De estar ao lado de alguém como ele. Pausa. Ela sorriu. Educada. Fria. — Eu trabalho com ele. — Mas também está com ele. Silêncio. Ela respondeu simples: — São coisas diferentes. Do outro lado… Enrico viu. Observou. Mas não fez nada. E isso… doeu mais do que qualquer reação. Mais tarde… Varanda. De novo. Sempre ela. Mas agora… vazia. Ela estava sozinha. Olhando a cidade. Pensando. Sentindo. E tentando não sentir. — Você sumiu. Ela reconheceu a voz. Mas não virou. — Eu tô aqui. Enrico se aproximou. Devagar. Parou ao lado dela. Distância segura. — Você mudou. — Você também. Silêncio. — Isso não parece certo — ele disse. — Mas é o que você queria. — Não exatamente. — Mas é o que você fez. Pausa. Ele não negou. — A gente perdeu alguma coisa — ele disse. Silêncio. Ela respondeu baixo: — A gente deixou escapar. Pausa. — Ainda dá tempo? Erro. Pergunta errada. Ela fechou os olhos por um segundo. — Pra quê? Silêncio. Ele não respondeu. De novo. Sempre. Ela virou pra ele. Pela primeira vez em dias. Olhar calmo. Mas cansado. — Você nunca sabe o que quer. Silêncio. — E eu cansei de tentar adivinhar. Vento. Noite. Distância. — Então é isso? — ele perguntou. — Isso o quê? — A gente assim. Pausa. Ela deu um meio sorriso. Triste. — A gente nunca foi “assim”. Silêncio. Final demais. De novo. Ela saiu. Sem pressa. Sem olhar pra trás. De novo. Do outro lado… Bruna suspirou. — Eu não gostei disso. — Ninguém gostou — Matteo respondeu. — Isso não é nem triste. — É pior. — É vazio. E o vazio… às vezes… é mais perigoso que o caos. Porque no caos… ainda tem sentimento. Mas no vazio? Só sobra o que já foi perdido. O silêncio não durou. Nunca dura. Porque quando você prende demais… uma hora explode. Era fim de tarde. Céu pesado. Clima estranho. Igual a eles. — Você viu isso? — Bruna entrou já mostrando o celular. — O que foi agora… — Luna pegou. Leu. E travou. — …não. — Sim. — NÃO. Matteo apareceu. — Eu já vi. Silêncio. Pesado. Na tela: “CEO Enrico Bianchi visto em jantar com herdeira italiana — novo romance?” Foto. Nítida. Ele. Sentado. Com uma mulher. Elegante. Próxima demais. Confortável demais. — Isso é… — Luna começou. — Um desastre — Matteo completou. — Ou estratégia — Bruna disse. Silêncio. Luna riu. Baixo. Sem humor. — Claro. — Você acha que é real? — Bruna perguntou. Pausa. Curta. Dolorosa. — Não importa. — Importa sim! — Não importa mais. Silêncio. E isso… já dizia tudo. A porta abriu. Enrico entrou. E encontrou os três olhando. — Eu sei — ele disse. Direto. Sem rodeio. — Que bom — Luna respondeu. Fria. Cortante. Perfeita. — Isso não é o que parece — ele começou. Ela riu. — Sério? — É um acordo. — Claro que é. — Para conter o escândalo. — Sempre a empresa. Silêncio. — Isso ajuda todo mundo. — Todo mundo quem? Pausa. — A empresa. — Claro. Silêncio. Ela assentiu devagar. — Faz sentido. Tom leve. Perigoso. — Então pronto. Ele franziu a testa. — Pronto? — Sim. — Luna— — Você resolveu. Silêncio. — Agora tá tudo sob controle, não tá? — Isso não muda o nosso acordo — ele disse. Erro. Grave erro. Ela travou. — Nosso acordo. Pausa. — Claro. Ela deu um passo pra trás. — É só isso mesmo. Silêncio. — Sempre foi. Mentira. Mas agora… ela estava convencendo até a si mesma. — Você sabia disso — ele disse. — Eu sei de muita coisa. — Então por que está reagindo assim? Silêncio. Ela riu. Sem humor. — Eu não estou reagindo. — Está sim. — Não. — Luna— — EU NÃO ESTOU! Silêncio. Explodiu. Finalmente. — Você pode sair com quem quiser — ela continuou — isso nunca foi da minha conta. — Não é assim. — É exatamente assim! — Não— — É SIM! Silêncio. Pesado. — A gente não é nada — ela disse. Direto. Frio. Doloroso. — Nunca foi. Pausa. Ele travou. — Isso não é verdade. — Então o que é? Silêncio. Fatal. Ele não respondeu. De novo. Sempre. Ela assentiu. Devagar. — Exatamente. Pausa. — Obrigada por esclarecer. Bruna tentou intervir: — Luna— — Não. Matteo ficou quieto. Porque sabia. Não tinha o que fazer. — A gente termina isso aqui — Luna disse. Silêncio. — Termina? — O contrato. Pausa. — Não — Enrico respondeu. Direto. — Não? — Não. — Você não decide isso sozinho. — Eu não vou deixar isso acabar assim. Silêncio. Ela olhou pra ele. De verdade. — Assim como? Pausa. — Limpo demais? Silêncio. Ela respirou fundo. Tentando se segurar. Falhando. — Você já substituiu. — Não substituí. — Já sim. — Isso é estratégia. — Isso é escolha. Silêncio. Ela chegou mais perto. Última vez. — E sabe qual é a pior parte? Pausa. — Eu nem posso reclamar. Silêncio. — Porque você nunca prometeu nada. Direto. Sem defesa. Sem saída. Ela deu um passo pra trás. E dessa vez… acabou. — Boa sorte com a nova noiva — ela disse. Frio. Cortante. Final. Ela saiu. Sem olhar pra trás. De novo. Mas dessa vez… parecia definitivo. Silêncio. Pesado. Quebrado. Bruna olhou pra Enrico. — Você conseguiu. — O quê? — Perder ela. Silêncio. Matteo completou: — E dessa vez… foi de verdade. E pela primeira vez… não tinha plano. Não tinha controle. Não tinha solução rápida. Porque agora… não era mais orgulho. Nem medo. Nem confusão. Era perda. E essa? Essa não se resolve com contrato.
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