Se alguém olhasse de fora…
diria que estava tudo resolvido.
Sem escândalo novo.
Sem brigas públicas.
Sem olhares intensos.
Só um casal perfeito.
Mentira.
Era só silêncio bem treinado.
— Café? — Matteo perguntou.
— Sempre — Bruna respondeu, pegando a xícara — eu preciso de energia pra lidar com esses dois.
— Eles estão… estáveis.
— Eles estão mortos por dentro.
— Isso é dramático.
— Isso é preciso.
Silêncio.
No escritório…
— Assinatura aqui — Luna disse.
— Obrigado.
— Reunião confirmada.
— Certo.
— Mais alguma coisa?
— Não.
Silêncio.
E acabou.
Simples assim.
Sem troca.
Sem tensão.
Sem nada.
— Eu não aguento mais isso — Bruna murmurou.
— Eu também não — Matteo respondeu.
— Eles viraram colegas de trabalho.
— Tecnicamente, sempre foram.
— Não desse jeito.
Silêncio.
Mais tarde…
— Hoje à noite tem evento — Enrico disse.
— Eu sei.
— Vai precisar ir.
— Eu sei.
— Certo.
Silêncio.
Ela já ia sair quando—
— Luna.
Ela parou.
Mas não virou.
— O quê?
Pausa.
Curta.
— Nada.
Silêncio.
Ela assentiu.
E saiu.
— Você é um desastre emocional — Bruna disse, entrando sem bater.
— Obrigado.
— Isso também não foi elogio.
— Eu sei.
— Você tinha algo pra dizer.
— Não mais.
— Você sempre faz isso.
Silêncio.
— Eu sei.
Do outro lado…
Matteo encostou na mesa de Luna.
— Você também.
— Também o quê?
— Tinha algo pra dizer.
Ela digitou.
Sem olhar.
— Não mais.
Silêncio.
— Vocês são iguais — ele disse.
— Não somos.
— São sim.
— Eu falo.
— Mas não fala o que importa.
Silêncio.
Ela parou de digitar.
Só por um segundo.
— Talvez porque não adianta.
No evento…
Tudo perfeito.
Como sempre.
Eles chegaram juntos.
Mãos dadas.
Sorrisos ensaiados.
Distância invisível.
— Mais perto — fotógrafo pediu.
Eles se aproximaram.
Automático.
Sem reação.
— Olha pra ele — pediram.
Ela olhou.
E foi estranho.
Porque não tinha mais provocação.
Nem desafio.
Só… lembrança.
— Perfeito — o fotógrafo disse.
Mas não estava.
— Isso tá pior do que antes — Bruna comentou.
— Porque agora eles estão desistindo — Matteo respondeu.
Silêncio.
Durante o evento…
Um investidor se aproximou de Luna.
— Você deve estar orgulhosa — ele disse.
— De quê?
— De estar ao lado de alguém como ele.
Pausa.
Ela sorriu.
Educada.
Fria.
— Eu trabalho com ele.
— Mas também está com ele.
Silêncio.
Ela respondeu simples:
— São coisas diferentes.
Do outro lado…
Enrico viu.
Observou.
Mas não fez nada.
E isso…
doeu mais do que qualquer reação.
Mais tarde…
Varanda.
De novo.
Sempre ela.
Mas agora…
vazia.
Ela estava sozinha.
Olhando a cidade.
Pensando.
Sentindo.
E tentando não sentir.
— Você sumiu.
Ela reconheceu a voz.
Mas não virou.
— Eu tô aqui.
Enrico se aproximou.
Devagar.
Parou ao lado dela.
Distância segura.
— Você mudou.
— Você também.
Silêncio.
— Isso não parece certo — ele disse.
— Mas é o que você queria.
— Não exatamente.
— Mas é o que você fez.
Pausa.
Ele não negou.
— A gente perdeu alguma coisa — ele disse.
Silêncio.
Ela respondeu baixo:
— A gente deixou escapar.
Pausa.
— Ainda dá tempo?
Erro.
Pergunta errada.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Pra quê?
Silêncio.
Ele não respondeu.
De novo.
Sempre.
Ela virou pra ele.
Pela primeira vez em dias.
Olhar calmo.
Mas cansado.
— Você nunca sabe o que quer.
Silêncio.
— E eu cansei de tentar adivinhar.
Vento.
Noite.
Distância.
— Então é isso? — ele perguntou.
— Isso o quê?
— A gente assim.
Pausa.
Ela deu um meio sorriso.
Triste.
— A gente nunca foi “assim”.
Silêncio.
Final demais.
De novo.
Ela saiu.
Sem pressa.
Sem olhar pra trás.
De novo.
Do outro lado…
Bruna suspirou.
— Eu não gostei disso.
— Ninguém gostou — Matteo respondeu.
— Isso não é nem triste.
— É pior.
— É vazio.
E o vazio…
às vezes…
é mais perigoso que o caos.
Porque no caos…
ainda tem sentimento.
Mas no vazio?
Só sobra o que já foi perdido.
O silêncio não durou.
Nunca dura.
Porque quando você prende demais…
uma hora explode.
Era fim de tarde.
Céu pesado.
Clima estranho.
Igual a eles.
— Você viu isso? — Bruna entrou já mostrando o celular.
— O que foi agora… — Luna pegou.
Leu.
E travou.
— …não.
— Sim.
— NÃO.
Matteo apareceu.
— Eu já vi.
Silêncio.
Pesado.
Na tela:
“CEO Enrico Bianchi visto em jantar com herdeira italiana — novo romance?”
Foto.
Nítida.
Ele.
Sentado.
Com uma mulher.
Elegante.
Próxima demais.
Confortável demais.
— Isso é… — Luna começou.
— Um desastre — Matteo completou.
— Ou estratégia — Bruna disse.
Silêncio.
Luna riu.
Baixo.
Sem humor.
— Claro.
— Você acha que é real? — Bruna perguntou.
Pausa.
Curta.
Dolorosa.
— Não importa.
— Importa sim!
— Não importa mais.
Silêncio.
E isso…
já dizia tudo.
A porta abriu.
Enrico entrou.
E encontrou os três olhando.
— Eu sei — ele disse.
Direto.
Sem rodeio.
— Que bom — Luna respondeu.
Fria.
Cortante.
Perfeita.
— Isso não é o que parece — ele começou.
Ela riu.
— Sério?
— É um acordo.
— Claro que é.
— Para conter o escândalo.
— Sempre a empresa.
Silêncio.
— Isso ajuda todo mundo.
— Todo mundo quem?
Pausa.
— A empresa.
— Claro.
Silêncio.
Ela assentiu devagar.
— Faz sentido.
Tom leve.
Perigoso.
— Então pronto.
Ele franziu a testa.
— Pronto?
— Sim.
— Luna—
— Você resolveu.
Silêncio.
— Agora tá tudo sob controle, não tá?
— Isso não muda o nosso acordo — ele disse.
Erro.
Grave erro.
Ela travou.
— Nosso acordo.
Pausa.
— Claro.
Ela deu um passo pra trás.
— É só isso mesmo.
Silêncio.
— Sempre foi.
Mentira.
Mas agora…
ela estava convencendo até a si mesma.
— Você sabia disso — ele disse.
— Eu sei de muita coisa.
— Então por que está reagindo assim?
Silêncio.
Ela riu.
Sem humor.
— Eu não estou reagindo.
— Está sim.
— Não.
— Luna—
— EU NÃO ESTOU!
Silêncio.
Explodiu.
Finalmente.
— Você pode sair com quem quiser — ela continuou — isso nunca foi da minha conta.
— Não é assim.
— É exatamente assim!
— Não—
— É SIM!
Silêncio.
Pesado.
— A gente não é nada — ela disse.
Direto.
Frio.
Doloroso.
— Nunca foi.
Pausa.
Ele travou.
— Isso não é verdade.
— Então o que é?
Silêncio.
Fatal.
Ele não respondeu.
De novo.
Sempre.
Ela assentiu.
Devagar.
— Exatamente.
Pausa.
— Obrigada por esclarecer.
Bruna tentou intervir:
— Luna—
— Não.
Matteo ficou quieto.
Porque sabia.
Não tinha o que fazer.
— A gente termina isso aqui — Luna disse.
Silêncio.
— Termina?
— O contrato.
Pausa.
— Não — Enrico respondeu.
Direto.
— Não?
— Não.
— Você não decide isso sozinho.
— Eu não vou deixar isso acabar assim.
Silêncio.
Ela olhou pra ele.
De verdade.
— Assim como?
Pausa.
— Limpo demais?
Silêncio.
Ela respirou fundo.
Tentando se segurar.
Falhando.
— Você já substituiu.
— Não substituí.
— Já sim.
— Isso é estratégia.
— Isso é escolha.
Silêncio.
Ela chegou mais perto.
Última vez.
— E sabe qual é a pior parte?
Pausa.
— Eu nem posso reclamar.
Silêncio.
— Porque você nunca prometeu nada.
Direto.
Sem defesa.
Sem saída.
Ela deu um passo pra trás.
E dessa vez…
acabou.
— Boa sorte com a nova noiva — ela disse.
Frio.
Cortante.
Final.
Ela saiu.
Sem olhar pra trás.
De novo.
Mas dessa vez…
parecia definitivo.
Silêncio.
Pesado.
Quebrado.
Bruna olhou pra Enrico.
— Você conseguiu.
— O quê?
— Perder ela.
Silêncio.
Matteo completou:
— E dessa vez… foi de verdade.
E pela primeira vez…
não tinha plano.
Não tinha controle.
Não tinha solução rápida.
Porque agora…
não era mais orgulho.
Nem medo.
Nem confusão.
Era perda.
E essa?
Essa não se resolve com contrato.