Cinco

1686 Words
Na manhã seguinte… O escritório estava normal. Calmo. Organizado. Sem caos. Sem tensão. Sem nada suspeito. Mentira. — Bom dia — Luna disse, entrando. — Bom dia — Enrico respondeu. Silêncio. Pesado. Estranho. Desconfortável. Ela foi até a mesa. Sentou. Abriu o notebook. Fechou. Abriu de novo. Fechou. — Você vai quebrar isso — ele comentou. — Eu sei. Silêncio. — Você está estranha. — Eu não estou estranha. — Está sim. — Não estou. — Está. — Não— — Está. Silêncio. Ela respirou fundo. — Tá. Talvez um pouco. — Por quê? Ela olhou pra ele. — Você sabe por quê. Silêncio. Ele desviou o olhar primeiro. — Não aconteceu nada. Ela arregalou os olhos. — Nada? — Nada. — A gente quase— — Não aconteceu. — Enrico— — Não. Silêncio. Ela cruzou os braços. — Você é muito bom em fingir. — Eu sou profissional. — Ah, claro. Isso é profissionalismo agora? — É controle. — É negação. Silêncio. Ele não respondeu. Porque sabia. Ela estava certa. Do outro lado do escritório… Bruna já tava com café na mão. E um sorriso suspeito. — Eu quero detalhes. — Você não vai ter. — Eu mereço. — Você não merece nada. — Eu salvei vocês de um beijo impulsivo. — Você destruiu um momento. — Eu melhorei o drama. Luna revirou os olhos. — Eu odeio você. — Mas me ama. — Infelizmente. Matteo apareceu. Cansado. Confuso. — Eu não dormi bem. Bruna sorriu. — Pensando em mim? — Pensando em vocês. — Pior ainda. — Eu não entendo esse ambiente. — Nem a gente — Luna respondeu. — Vocês quase se beijaram — Matteo disse direto. Silêncio. Luna congelou. — Quem te contou? Ele apontou pra Bruna. — Traição. — Informação — Bruna corrigiu. Luna olhou pra Matteo. — E daí? — E daí que isso complica o plano. — Qual plano? — O plano de fingir. Silêncio. Ela abriu a boca. Fechou. — A gente não… — ela começou. — Não aconteceu — Matteo completou. Ela suspirou. — Exatamente. Bruna levantou a mão. — Discordo. — Ninguém perguntou — Luna respondeu. Na sala… Enrico estava tentando trabalhar. Tentando. Porque a cada cinco minutos… ele lembrava. O olhar. A distância. O quase. — Isso é irrelevante — ele murmurou. Era o que ele fazia. Organizava. Controlava. Eliminava distrações. Mas Luna Andrade… não era uma distração fácil de eliminar. A porta abriu. Claro que abriu. — Temos um problema — Matteo entrou. — Mais um? — Sempre mais um. — Fale. — A imprensa quer uma declaração oficial. Silêncio. Enrico ficou sério. — Já? — Já. — Rápido demais. — Muito. Pausa. — Eles querem fotos. Silêncio. — Fotos… — Enrico repetiu. — Como casal. Mais silêncio. Mais problema. — Ótimo — ele disse — vamos dar o que eles querem. Minutos depois… — Não. — Sim. — Não. — Sim. — NÃO. — SIM. Silêncio. — Eu não vou posar pra foto fingindo que sou apaixonada — Luna disse. — Você já faz isso naturalmente. — Isso é mentira. — É convincente. — Eu não quero. — Você precisa. — Eu não preciso de nada. — Precisa manter seu emprego. Silêncio. Ela estreitou os olhos. — Chantagem de novo? — Realidade. Pausa. Ela suspirou. — Eu odeio você. — Eu sei. — Isso vai ser horrível. — Vai ser rápido. — Você promete? — Não. — Ótimo. Mais tarde… Fotógrafos. Câmeras. Luzes. E caos interno. — Mais perto! — alguém gritou. Luna travou. — Eu já tô perto demais. — Mais natural! — outro gritou. — Eu não sou natural! — ela respondeu. Enrico segurou a cintura dela. Firme. Calma. — Respira. Ela olhou pra ele. — Eu vou te matar depois disso. — Anotado. — Olha pra ele! — o fotógrafo pediu. Ela olhou. E foi um erro. Porque ele já tava olhando. Sério. Intenso. Real demais. — Sorriam! Ela tentou. Falhou. Ele se aproximou mais. — Confia em mim — ele murmurou. Pausa. Ela hesitou. Mas então… ela relaxou. Um pouco. Só um pouco. E sorriu. De verdade. Clique. — Perfeito! — o fotógrafo gritou. Mais cliques. Mais fotos. Mais proximidade. Até que— — Um pouco mais íntimo! Silêncio. Perigoso. — Não — Luna disse. — Sim — Enrico respondeu baixo. — Nem pensar. — Só por um segundo. — Você tá abusando. — Estou resolvendo. Silêncio. Ela respirou fundo. — Se isso der errado… — Já deu. Pausa. Ele aproximou o rosto. De novo. Muito perto. Quase. Quase igual ontem. Mas dessa vez… com plateia. — Agora! — o fotógrafo gritou. E naquele segundo… ele encostou a testa na dela. Não beijou. Mas ficou. Perto. Íntimo. Perigoso. Clique. Clique. Clique. Silêncio. E dessa vez… ninguém interrompeu. Depois… Luna se afastou rápido. — Isso não vai se repetir. — Não vai. Silêncio. — A gente precisa parar. — Concordo. Pausa. Eles se olharam. E ignoraram completamente o fato de que… não queriam parar. Do outro lado… Bruna estava surtando. — EU VI! Matteo suspirou. — Eu também. — Eles vão se apaixonar. — Eles já estão. Silêncio. Bruna sorriu. — Isso vai ser lindo. Matteo murmurou: — Isso vai ser um desastre. E pela primeira vez… os dois estavam certos. — Eu vou morrer. — Você não vai morrer. — Eu vou sim. — Não vai. — Eu vou— — LUNA. — Tá bom, não vou… mas vou passar vergonha. Bruna ajeitou o cabelo dela com força. — Você não vai passar vergonha. Você vai causar. — Isso não ajuda! — Ajuda sim. Confiança, postura e menos gíria. — Eu não sei viver sem gíria. — Hoje você aprende. — Hoje eu surto. — Também. Luna respirou fundo. — Tá. Eu consigo. Eu sou uma mulher adulta. Eu consigo fingir elegância. Pausa. — Eu não consigo. — Consegue sim — Bruna empurrou ela — vai lá, noiva fake. A casa dos Bianchi era absurda. Luxo não era suficiente pra descrever. Era… intimidador. — Isso aqui não é uma casa, é um filme — Luna sussurrou. — Comporte-se — Enrico disse, ao lado dela. — Eu tô comportada. — Ainda não começou. — Confia em mim. — Esse é exatamente o problema. Ele abriu a porta. E o julgamento começou. A mesa estava posta. Perfeita. Fria. Formal. E todos já estavam lá. A mãe dele. O pai. Outros familiares. E… olhares. Muitos olhares. — Luna — Enrico disse — minha família. Ela sorriu. Do jeito mais controlado que conseguiu. — Boa noite. Silêncio. A mãe dele observou. — Vejo que você decidiu continuar com isso. — Decidi. — Interessante. — Eu sou interessante — Luna respondeu. Enrico fechou os olhos por um segundo. — Por favor — ele murmurou. — Eu tô sendo educada! — Seja mais. — Mais que isso eu viro outra pessoa. Eles sentaram. Clima pesado. — Então, Luna — o pai dele falou — o que você faz? — Eu trabalho com seu filho. — Como? — Sobrevivendo. Silêncio. Alguém tossiu. Enrico interveio: — Ela é minha secretária. — E noiva — Luna completou. Mais silêncio. A mãe arqueou a sobrancelha. — Bastante… conveniente. — Bastante real — Luna respondeu. Enrico apertou levemente a mão dela embaixo da mesa. Um aviso. Ela ignorou. Claro que ignorou. Durante o jantar… — Como vocês se conheceram? — alguém perguntou. Silêncio. Perigoso. Enrico abriu a boca— — Foi amor à primeira briga — Luna disse. Todos pararam. — Briga? — a mãe perguntou. — Sim. Eu joguei café nele. Silêncio absoluto. Enrico a encarou. — Você não precisava— — Precisava sim, dá contexto. — Isso não ajuda. — Ajuda o enredo. — Isso não é um enredo. — Agora é. Silêncio. O pai dele começou a rir. Baixo. — Finalmente algo interessante nessa casa. A mãe não achou graça. — Isso não é comportamento adequado. — Eu sei — Luna respondeu — mas é sincero. Silêncio. E pela primeira vez… não era totalmente negativo. Minutos depois… A tensão aumentou. — E você pretende se adaptar ao estilo de vida da nossa família? — a mãe perguntou. Luna inclinou a cabeça. — Eu posso tentar. — Tentar não é suficiente. — Eu sei. — Então? Pausa. Luna respirou fundo. E respondeu: — Eu não vou mudar quem eu sou. Silêncio. Pesado. Direto. — Mas eu posso aprender a não causar desastre… o tempo todo. Pausa. — Só às vezes. O pai dele riu de novo. — Eu gosto dela. Enrico olhou pra Luna. Surpreso. Ela deu um sorrisinho de canto. — Eu também gosto de mim. Mais tarde… Varanda de novo. Sempre a varanda. Sempre o perigo. — Você quase destruiu tudo — Enrico disse. — Eu salvei tudo. — Você contou a história do café. — Eu humanizei a situação. — Você criou mais perguntas. — Eu dei personalidade. Silêncio. Ele a encarou. — Você não tem medo. — Tenho. — Não parece. — Eu só não deixo aparecer. Pausa. — Eles são difíceis. — Eu percebi. — E você enfrentou todos. — Eu enfrento você todo dia. Silêncio. Ele quase sorriu. — Isso é verdade. Ela se aproximou um pouco. — E aí? Passei no teste? Ele olhou pra ela. Longo. Sincero. — Mais do que eu esperava. Pausa. — Isso foi um elogio de novo? — Não se acostume. — Tarde demais. Do outro lado… Bruna cochichava com Matteo. — Ela tá arrasando. — Ela está… sobrevivendo. — É o estilo dela. — Eu ainda não entendo. — Nem ela. Matteo suspirou. — Isso vai complicar. Bruna sorriu. — Já complicou. Na varanda… Silêncio. De novo. Mas agora… mais leve. Mais próximo. — Obrigado — Enrico disse. Ela piscou. — Você acabou de me agradecer? — Não se acostume. Ela sorriu. — Tarde demais. Silêncio. Olhar. Proximidade. De novo. — Isso ainda é falso — ela murmurou. — É. — Então não esquece. — Eu não esqueço. Pausa. Eles se encararam. E, pela primeira vez… parecia que estavam mentindo. Porque o problema não era mais convencer a família. Era convencer a si mesmos.
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