Na manhã seguinte…
O escritório estava normal.
Calmo.
Organizado.
Sem caos.
Sem tensão.
Sem nada suspeito.
Mentira.
— Bom dia — Luna disse, entrando.
— Bom dia — Enrico respondeu.
Silêncio.
Pesado.
Estranho.
Desconfortável.
Ela foi até a mesa.
Sentou.
Abriu o notebook.
Fechou.
Abriu de novo.
Fechou.
— Você vai quebrar isso — ele comentou.
— Eu sei.
Silêncio.
— Você está estranha.
— Eu não estou estranha.
— Está sim.
— Não estou.
— Está.
— Não—
— Está.
Silêncio.
Ela respirou fundo.
— Tá. Talvez um pouco.
— Por quê?
Ela olhou pra ele.
— Você sabe por quê.
Silêncio.
Ele desviou o olhar primeiro.
— Não aconteceu nada.
Ela arregalou os olhos.
— Nada?
— Nada.
— A gente quase—
— Não aconteceu.
— Enrico—
— Não.
Silêncio.
Ela cruzou os braços.
— Você é muito bom em fingir.
— Eu sou profissional.
— Ah, claro. Isso é profissionalismo agora?
— É controle.
— É negação.
Silêncio.
Ele não respondeu.
Porque sabia.
Ela estava certa.
Do outro lado do escritório…
Bruna já tava com café na mão.
E um sorriso suspeito.
— Eu quero detalhes.
— Você não vai ter.
— Eu mereço.
— Você não merece nada.
— Eu salvei vocês de um beijo impulsivo.
— Você destruiu um momento.
— Eu melhorei o drama.
Luna revirou os olhos.
— Eu odeio você.
— Mas me ama.
— Infelizmente.
Matteo apareceu.
Cansado.
Confuso.
— Eu não dormi bem.
Bruna sorriu.
— Pensando em mim?
— Pensando em vocês.
— Pior ainda.
— Eu não entendo esse ambiente.
— Nem a gente — Luna respondeu.
— Vocês quase se beijaram — Matteo disse direto.
Silêncio.
Luna congelou.
— Quem te contou?
Ele apontou pra Bruna.
— Traição.
— Informação — Bruna corrigiu.
Luna olhou pra Matteo.
— E daí?
— E daí que isso complica o plano.
— Qual plano?
— O plano de fingir.
Silêncio.
Ela abriu a boca.
Fechou.
— A gente não… — ela começou.
— Não aconteceu — Matteo completou.
Ela suspirou.
— Exatamente.
Bruna levantou a mão.
— Discordo.
— Ninguém perguntou — Luna respondeu.
Na sala…
Enrico estava tentando trabalhar.
Tentando.
Porque a cada cinco minutos…
ele lembrava.
O olhar.
A distância.
O quase.
— Isso é irrelevante — ele murmurou.
Era o que ele fazia.
Organizava.
Controlava.
Eliminava distrações.
Mas Luna Andrade…
não era uma distração fácil de eliminar.
A porta abriu.
Claro que abriu.
— Temos um problema — Matteo entrou.
— Mais um?
— Sempre mais um.
— Fale.
— A imprensa quer uma declaração oficial.
Silêncio.
Enrico ficou sério.
— Já?
— Já.
— Rápido demais.
— Muito.
Pausa.
— Eles querem fotos.
Silêncio.
— Fotos… — Enrico repetiu.
— Como casal.
Mais silêncio.
Mais problema.
— Ótimo — ele disse — vamos dar o que eles querem.
Minutos depois…
— Não.
— Sim.
— Não.
— Sim.
— NÃO.
— SIM.
Silêncio.
— Eu não vou posar pra foto fingindo que sou apaixonada — Luna disse.
— Você já faz isso naturalmente.
— Isso é mentira.
— É convincente.
— Eu não quero.
— Você precisa.
— Eu não preciso de nada.
— Precisa manter seu emprego.
Silêncio.
Ela estreitou os olhos.
— Chantagem de novo?
— Realidade.
Pausa.
Ela suspirou.
— Eu odeio você.
— Eu sei.
— Isso vai ser horrível.
— Vai ser rápido.
— Você promete?
— Não.
— Ótimo.
Mais tarde…
Fotógrafos.
Câmeras.
Luzes.
E caos interno.
— Mais perto! — alguém gritou.
Luna travou.
— Eu já tô perto demais.
— Mais natural! — outro gritou.
— Eu não sou natural! — ela respondeu.
Enrico segurou a cintura dela.
Firme.
Calma.
— Respira.
Ela olhou pra ele.
— Eu vou te matar depois disso.
— Anotado.
— Olha pra ele! — o fotógrafo pediu.
Ela olhou.
E foi um erro.
Porque ele já tava olhando.
Sério.
Intenso.
Real demais.
— Sorriam!
Ela tentou.
Falhou.
Ele se aproximou mais.
— Confia em mim — ele murmurou.
Pausa.
Ela hesitou.
Mas então…
ela relaxou.
Um pouco.
Só um pouco.
E sorriu.
De verdade.
Clique.
— Perfeito! — o fotógrafo gritou.
Mais cliques.
Mais fotos.
Mais proximidade.
Até que—
— Um pouco mais íntimo!
Silêncio.
Perigoso.
— Não — Luna disse.
— Sim — Enrico respondeu baixo.
— Nem pensar.
— Só por um segundo.
— Você tá abusando.
— Estou resolvendo.
Silêncio.
Ela respirou fundo.
— Se isso der errado…
— Já deu.
Pausa.
Ele aproximou o rosto.
De novo.
Muito perto.
Quase.
Quase igual ontem.
Mas dessa vez…
com plateia.
— Agora! — o fotógrafo gritou.
E naquele segundo…
ele encostou a testa na dela.
Não beijou.
Mas ficou.
Perto.
Íntimo.
Perigoso.
Clique.
Clique.
Clique.
Silêncio.
E dessa vez…
ninguém interrompeu.
Depois…
Luna se afastou rápido.
— Isso não vai se repetir.
— Não vai.
Silêncio.
— A gente precisa parar.
— Concordo.
Pausa.
Eles se olharam.
E ignoraram completamente o fato de que…
não queriam parar.
Do outro lado…
Bruna estava surtando.
— EU VI!
Matteo suspirou.
— Eu também.
— Eles vão se apaixonar.
— Eles já estão.
Silêncio.
Bruna sorriu.
— Isso vai ser lindo.
Matteo murmurou:
— Isso vai ser um desastre.
E pela primeira vez…
os dois estavam certos.
— Eu vou morrer.
— Você não vai morrer.
— Eu vou sim.
— Não vai.
— Eu vou—
— LUNA.
— Tá bom, não vou… mas vou passar vergonha.
Bruna ajeitou o cabelo dela com força.
— Você não vai passar vergonha. Você vai causar.
— Isso não ajuda!
— Ajuda sim. Confiança, postura e menos gíria.
— Eu não sei viver sem gíria.
— Hoje você aprende.
— Hoje eu surto.
— Também.
Luna respirou fundo.
— Tá. Eu consigo. Eu sou uma mulher adulta. Eu consigo fingir elegância.
Pausa.
— Eu não consigo.
— Consegue sim — Bruna empurrou ela — vai lá, noiva fake.
A casa dos Bianchi era absurda.
Luxo não era suficiente pra descrever.
Era… intimidador.
— Isso aqui não é uma casa, é um filme — Luna sussurrou.
— Comporte-se — Enrico disse, ao lado dela.
— Eu tô comportada.
— Ainda não começou.
— Confia em mim.
— Esse é exatamente o problema.
Ele abriu a porta.
E o julgamento começou.
A mesa estava posta.
Perfeita.
Fria.
Formal.
E todos já estavam lá.
A mãe dele.
O pai.
Outros familiares.
E… olhares.
Muitos olhares.
— Luna — Enrico disse — minha família.
Ela sorriu.
Do jeito mais controlado que conseguiu.
— Boa noite.
Silêncio.
A mãe dele observou.
— Vejo que você decidiu continuar com isso.
— Decidi.
— Interessante.
— Eu sou interessante — Luna respondeu.
Enrico fechou os olhos por um segundo.
— Por favor — ele murmurou.
— Eu tô sendo educada!
— Seja mais.
— Mais que isso eu viro outra pessoa.
Eles sentaram.
Clima pesado.
— Então, Luna — o pai dele falou — o que você faz?
— Eu trabalho com seu filho.
— Como?
— Sobrevivendo.
Silêncio.
Alguém tossiu.
Enrico interveio:
— Ela é minha secretária.
— E noiva — Luna completou.
Mais silêncio.
A mãe arqueou a sobrancelha.
— Bastante… conveniente.
— Bastante real — Luna respondeu.
Enrico apertou levemente a mão dela embaixo da mesa.
Um aviso.
Ela ignorou.
Claro que ignorou.
Durante o jantar…
— Como vocês se conheceram? — alguém perguntou.
Silêncio.
Perigoso.
Enrico abriu a boca—
— Foi amor à primeira briga — Luna disse.
Todos pararam.
— Briga? — a mãe perguntou.
— Sim. Eu joguei café nele.
Silêncio absoluto.
Enrico a encarou.
— Você não precisava—
— Precisava sim, dá contexto.
— Isso não ajuda.
— Ajuda o enredo.
— Isso não é um enredo.
— Agora é.
Silêncio.
O pai dele começou a rir.
Baixo.
— Finalmente algo interessante nessa casa.
A mãe não achou graça.
— Isso não é comportamento adequado.
— Eu sei — Luna respondeu — mas é sincero.
Silêncio.
E pela primeira vez…
não era totalmente negativo.
Minutos depois…
A tensão aumentou.
— E você pretende se adaptar ao estilo de vida da nossa família? — a mãe perguntou.
Luna inclinou a cabeça.
— Eu posso tentar.
— Tentar não é suficiente.
— Eu sei.
— Então?
Pausa.
Luna respirou fundo.
E respondeu:
— Eu não vou mudar quem eu sou.
Silêncio.
Pesado.
Direto.
— Mas eu posso aprender a não causar desastre… o tempo todo.
Pausa.
— Só às vezes.
O pai dele riu de novo.
— Eu gosto dela.
Enrico olhou pra Luna.
Surpreso.
Ela deu um sorrisinho de canto.
— Eu também gosto de mim.
Mais tarde…
Varanda de novo.
Sempre a varanda.
Sempre o perigo.
— Você quase destruiu tudo — Enrico disse.
— Eu salvei tudo.
— Você contou a história do café.
— Eu humanizei a situação.
— Você criou mais perguntas.
— Eu dei personalidade.
Silêncio.
Ele a encarou.
— Você não tem medo.
— Tenho.
— Não parece.
— Eu só não deixo aparecer.
Pausa.
— Eles são difíceis.
— Eu percebi.
— E você enfrentou todos.
— Eu enfrento você todo dia.
Silêncio.
Ele quase sorriu.
— Isso é verdade.
Ela se aproximou um pouco.
— E aí? Passei no teste?
Ele olhou pra ela.
Longo.
Sincero.
— Mais do que eu esperava.
Pausa.
— Isso foi um elogio de novo?
— Não se acostume.
— Tarde demais.
Do outro lado…
Bruna cochichava com Matteo.
— Ela tá arrasando.
— Ela está… sobrevivendo.
— É o estilo dela.
— Eu ainda não entendo.
— Nem ela.
Matteo suspirou.
— Isso vai complicar.
Bruna sorriu.
— Já complicou.
Na varanda…
Silêncio.
De novo.
Mas agora…
mais leve.
Mais próximo.
— Obrigado — Enrico disse.
Ela piscou.
— Você acabou de me agradecer?
— Não se acostume.
Ela sorriu.
— Tarde demais.
Silêncio.
Olhar.
Proximidade.
De novo.
— Isso ainda é falso — ela murmurou.
— É.
— Então não esquece.
— Eu não esqueço.
Pausa.
Eles se encararam.
E, pela primeira vez…
parecia que estavam mentindo.
Porque o problema não era mais convencer a família.
Era convencer a si mesmos.