Sete

1454 Words
O problema de um beijo inesperado? É que ele não some no dia seguinte. Ele fica. Na memória. No corpo. No silêncio. — Bom dia. — Bom dia. Silêncio. Pesado. Estranho. Muito estranho. Luna estava sentada. Imóvel. Fingindo trabalhar. Falhando miseravelmente. Enrico estava em pé. Fingindo normalidade. Falhando também. — Dormiu bem? — ele perguntou. — Não. — Eu também não. — Ótimo. — Ótimo. Silêncio. — A gente precisa falar sobre isso — Luna disse. — Não precisamos. — Precisamos sim. — Foi só um beijo. Silêncio. Ela levantou a cabeça devagar. — “Só”? — Foi necessário. — NECESSÁRIO?! — Para convencer. — Você me beijou daquele jeito pra convencer?! — Funcionou. — Isso não é o ponto! Silêncio. Ele passou a mão no rosto. — Então qual é o ponto? Pausa. Ela abriu a boca. Mas não respondeu. Porque sabia. E não queria dizer. — Exatamente — ele murmurou. Do outro lado do escritório… Bruna já estava com café, energia e fofoca. — Eu quero detalhes. — Você não vai ter. — Eu vi ao vivo! — Então já sabe. — Eu quero versão estendida. Matteo apareceu. Com cara de quem não dormiu também. — Isso está afetando o ambiente. — Isso está melhorando o ambiente — Bruna corrigiu. — Isso está criando tensão. — Isso é romance. — Isso é distração. — Isso é entretenimento. Silêncio. Luna apareceu. — Isso é um pesadelo. Bruna sorriu. — Bom dia pra você também. — Eu beijei meu chefe. — Parabéns. — Eu odiei. — Mentira. — Eu odiei. — Mentira. — Cala a boca. Na sala… Enrico estava tentando trabalhar. Mas o problema não era o trabalho. Era ela. Sempre ela. A porta abriu. — Temos outro problema — Matteo entrou. — Claro que temos. — A entrevista viralizou. Silêncio. — Quanto? — Muito. — Defina. — Todo mundo viu. Mais silêncio. — Ótimo. — E pior. — Sempre pior. — Estão chamando vocês de “casal do momento”. Enrico fechou os olhos por um segundo. — Perfeito. — E querem mais aparições. Silêncio. — Mais? — Muito mais. Minutos depois… — NÃO. — SIM. — NÃO. — SIM. — EU NÃO VOU BEIJAR VOCÊ DE NOVO EM PÚBLICO! — Ninguém pediu beijo. — Ainda. — Controle-se. — VOCÊ SE CONTROLA! Silêncio. — Isso está saindo do controle — ela disse. — Já saiu. — Então para. — Não posso. — Pode sim. — Não agora. Pausa. Ela respirou fundo. — Então a gente finge que nada aconteceu. — Já estamos fazendo isso. — E tá funcionando? Silêncio. Ele não respondeu. Ela sorriu. — Exatamente. Mais tarde… Corredor. Movimento. E clima estranho. Sempre. — Então… — Luna começou — a gente vai ignorar aquilo? — Sim. — Totalmente? — Sim. — Como profissionais? — Exatamente. Silêncio. — E se acontecer de novo? Pausa. Ele olhou pra ela. Longo. Direto. Perigoso. — Não vai acontecer. Ela deu um passo mais perto. — Você tem certeza? Silêncio. — Tenho. — Mentira. — Não é. — É sim. — Não— — É. Silêncio. Eles estavam próximos. De novo. Sempre assim. — Você não sabe mentir — ela murmurou. — E você não sabe parar. — Eu não quero parar. Pausa. Erro. Ela percebeu. Ele também. Tarde demais. — BRUNA! A voz dela quebrou o momento. Auto sabotagem. Clássico. Bruna apareceu. — OI! — Me salva. — Não. — Por favor. — Nunca. Matteo apareceu atrás. — Eu sinto que interrompi algo. — Sempre interrompe — Enrico disse. — Eu não faço de propósito. — Ela faz — Luna apontou pra Bruna. — Eu faço mesmo. Depois… Silêncio. De novo. Sempre. Mas diferente. Mais pesado. Mais real. — Isso não é só atuação — Luna disse, baixo. — Eu sei. — Isso é um problema. — Eu sei. — E a gente não tá fazendo nada pra resolver. — Eu sei. Silêncio. Ela olhou pra ele. De verdade. — Então faz alguma coisa. Pausa. Longo. Difícil. Ele chegou mais perto. Devagar. — Isso seria fazer alguma coisa. Ela não recuou. Mas também não avançou. — E isso só piora. — Eu sei. Silêncio. — Então para. — Você quer que eu pare? Pausa. Ela hesitou. De novo. Sempre. — Eu… Mas não terminou. Porque no fundo… ela não queria. E esse era o problema. Eles sabiam. Sentiam. Negavam. Mas não paravam. E quanto mais tentavam ignorar… mais real ficava. Do outro lado… Bruna sorriu. — Eles tão ferrados. Matteo concordou. — Muito. Porque agora… não era mais só química. Era sentimento crescendo… no pior momento possível. A noite estava silenciosa. Calma demais. Perigosa demais. Luna não conseguia dormir. De novo. — Isso tá ridículo — ela murmurou, andando pelo apartamento. Pegou água. Sentou. Levantou. Suspirou. — Eu não vou pensar nisso. Pensou. — Eu não vou lembrar. Lembrou. — Eu odeio isso. Batida na porta. Ela congelou. — Quem é? — Sou eu. Silêncio. Claro que era ele. — O que você quer? — Falar. — Amanhã. — Agora. Silêncio. Ela abriu a porta. E lá estava Enrico. Sem terno. Sem postura perfeita. Sem controle total. Mais… humano. E isso era pior. — Você invadiu minha noite — ela disse. — Você invadiu meus pensamentos. Pausa. Ela não esperava isso. — Isso não ajuda. — Eu sei. Silêncio. — Entra. Ele entrou. Devagar. Observando. Como sempre. Mas diferente. — A gente precisa resolver isso — ele disse. — Resolver o quê? — Isso. — Define “isso”. Ele chegou mais perto. — O que tá acontecendo entre a gente. Silêncio. Ela riu. De nervoso. — Nada tá acontecendo. — Luna— — É sério. Nada. — Você não acredita nisso. — Você acredita? Pausa. Ele não respondeu. Porque não dava. — A gente quebrou todas as regras — ela disse. — Eu sei. — E continua quebrando. — Eu sei. — E ninguém tá fazendo nada. — Eu estou aqui. Silêncio. Ela travou. — Isso não é resolver. — É um começo. — Isso é piorar. — Provavelmente. Ela cruzou os braços. Tentando se proteger. — Então por que você veio? Pausa. Longo. Difícil. — Porque eu não consigo ignorar. Silêncio. Direto. Sincero. Sem defesa. — Ignorar o quê? Ele chegou mais perto. Muito perto. — Você. Silêncio. Ela sentiu. De verdade. E isso assustou. — Isso é uma péssima ideia — ela murmurou. — Eu sei. — Isso vai dar errado. — Eu sei. — Então para. — Você quer que eu pare? Pausa. Ela hesitou. De novo. Sempre. — Eu… Ele levantou a mão. Devagar. Encostou no rosto dela. Leve. Cuidado. Perigoso. — Diz pra eu parar — ele disse, baixo. Ela fechou os olhos por um segundo. Erro. — Eu não consigo. Silêncio. Respiração presa. Olhar preso. Nada mais importava. Ele se inclinou. Devagar. Sem pressa. Sem plateia. Sem desculpa. Real. Muito real. Ela não recuou. Nem um centímetro. E dessa vez… não tinha contrato. Não tinha regra. Não tinha nada pra impedir. Quase. Quase— — AAAAH EU NÃO AGUENTO MAIS! A porta abriu com tudo. Os dois se afastaram na mesma hora. Rápido demais. Bruna entrou surtando. — EU PRECISO DE CAFÉ E— Parou. Olhou. Analisou. Sorriu. — …eu interrompi? Silêncio. Mortal. — Não — Luna respondeu rápido demais. — Sim — Enrico disse. Bruna colocou a mão na boca. — EU SABIA! — O que você tá fazendo aqui?! — Luna perguntou. — Crise existencial. — ÀS DUAS DA MANHÃ?! — Horário perfeito. Matteo apareceu atrás dela. Cansado. Derrotado. — Eu tentei impedir. — Você não tentou nada — Bruna respondeu. — Eu tentei emocionalmente. Silêncio. Constrangedor. Pesado. Perfeito pra destruir qualquer momento. — Eu vou embora — Enrico disse. — Boa ideia — Luna respondeu. — A gente continua depois. — Não continua. — Continua. Silêncio. Ele saiu. Mas antes… olhou pra ela. De um jeito que dizia tudo. E nada. Quando a porta fechou… Bruna virou lentamente. — EU CHEGUEI NA MELHOR PARTE. — EU TE ODEIO. — MAS ME AMA. — NÃO AGORA. — VOCÊ IA BEIJAR ELE! — NÃO IA. — IA SIM. — CALA A BOCA. Matteo só murmurou: — Isso está ficando sério. Luna sentou no sofá. Passou a mão no rosto. — Isso não pode acontecer. Bruna sentou do lado. — Já tá acontecendo. — Isso vai dar errado. — Vai. — Muito errado. — Com certeza. Silêncio. — E você tá feliz? Bruna sorriu. — Muito. — Eu odeio você. — Eu sei. E naquele momento… Luna percebeu algo pior que o caos. Pior que o contrato. Pior que o beijo. Ela não queria que ele tivesse parado. E esse… era o verdadeiro problema.
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