O problema de um beijo inesperado?
É que ele não some no dia seguinte.
Ele fica.
Na memória.
No corpo.
No silêncio.
— Bom dia.
— Bom dia.
Silêncio.
Pesado.
Estranho.
Muito estranho.
Luna estava sentada.
Imóvel.
Fingindo trabalhar.
Falhando miseravelmente.
Enrico estava em pé.
Fingindo normalidade.
Falhando também.
— Dormiu bem? — ele perguntou.
— Não.
— Eu também não.
— Ótimo.
— Ótimo.
Silêncio.
— A gente precisa falar sobre isso — Luna disse.
— Não precisamos.
— Precisamos sim.
— Foi só um beijo.
Silêncio.
Ela levantou a cabeça devagar.
— “Só”?
— Foi necessário.
— NECESSÁRIO?!
— Para convencer.
— Você me beijou daquele jeito pra convencer?!
— Funcionou.
— Isso não é o ponto!
Silêncio.
Ele passou a mão no rosto.
— Então qual é o ponto?
Pausa.
Ela abriu a boca.
Mas não respondeu.
Porque sabia.
E não queria dizer.
— Exatamente — ele murmurou.
Do outro lado do escritório…
Bruna já estava com café, energia e fofoca.
— Eu quero detalhes.
— Você não vai ter.
— Eu vi ao vivo!
— Então já sabe.
— Eu quero versão estendida.
Matteo apareceu.
Com cara de quem não dormiu também.
— Isso está afetando o ambiente.
— Isso está melhorando o ambiente — Bruna corrigiu.
— Isso está criando tensão.
— Isso é romance.
— Isso é distração.
— Isso é entretenimento.
Silêncio.
Luna apareceu.
— Isso é um pesadelo.
Bruna sorriu.
— Bom dia pra você também.
— Eu beijei meu chefe.
— Parabéns.
— Eu odiei.
— Mentira.
— Eu odiei.
— Mentira.
— Cala a boca.
Na sala…
Enrico estava tentando trabalhar.
Mas o problema não era o trabalho.
Era ela.
Sempre ela.
A porta abriu.
— Temos outro problema — Matteo entrou.
— Claro que temos.
— A entrevista viralizou.
Silêncio.
— Quanto?
— Muito.
— Defina.
— Todo mundo viu.
Mais silêncio.
— Ótimo.
— E pior.
— Sempre pior.
— Estão chamando vocês de “casal do momento”.
Enrico fechou os olhos por um segundo.
— Perfeito.
— E querem mais aparições.
Silêncio.
— Mais?
— Muito mais.
Minutos depois…
— NÃO.
— SIM.
— NÃO.
— SIM.
— EU NÃO VOU BEIJAR VOCÊ DE NOVO EM PÚBLICO!
— Ninguém pediu beijo.
— Ainda.
— Controle-se.
— VOCÊ SE CONTROLA!
Silêncio.
— Isso está saindo do controle — ela disse.
— Já saiu.
— Então para.
— Não posso.
— Pode sim.
— Não agora.
Pausa.
Ela respirou fundo.
— Então a gente finge que nada aconteceu.
— Já estamos fazendo isso.
— E tá funcionando?
Silêncio.
Ele não respondeu.
Ela sorriu.
— Exatamente.
Mais tarde…
Corredor.
Movimento.
E clima estranho.
Sempre.
— Então… — Luna começou — a gente vai ignorar aquilo?
— Sim.
— Totalmente?
— Sim.
— Como profissionais?
— Exatamente.
Silêncio.
— E se acontecer de novo?
Pausa.
Ele olhou pra ela.
Longo.
Direto.
Perigoso.
— Não vai acontecer.
Ela deu um passo mais perto.
— Você tem certeza?
Silêncio.
— Tenho.
— Mentira.
— Não é.
— É sim.
— Não—
— É.
Silêncio.
Eles estavam próximos.
De novo.
Sempre assim.
— Você não sabe mentir — ela murmurou.
— E você não sabe parar.
— Eu não quero parar.
Pausa.
Erro.
Ela percebeu.
Ele também.
Tarde demais.
— BRUNA!
A voz dela quebrou o momento.
Auto sabotagem.
Clássico.
Bruna apareceu.
— OI!
— Me salva.
— Não.
— Por favor.
— Nunca.
Matteo apareceu atrás.
— Eu sinto que interrompi algo.
— Sempre interrompe — Enrico disse.
— Eu não faço de propósito.
— Ela faz — Luna apontou pra Bruna.
— Eu faço mesmo.
Depois…
Silêncio.
De novo.
Sempre.
Mas diferente.
Mais pesado.
Mais real.
— Isso não é só atuação — Luna disse, baixo.
— Eu sei.
— Isso é um problema.
— Eu sei.
— E a gente não tá fazendo nada pra resolver.
— Eu sei.
Silêncio.
Ela olhou pra ele.
De verdade.
— Então faz alguma coisa.
Pausa.
Longo.
Difícil.
Ele chegou mais perto.
Devagar.
— Isso seria fazer alguma coisa.
Ela não recuou.
Mas também não avançou.
— E isso só piora.
— Eu sei.
Silêncio.
— Então para.
— Você quer que eu pare?
Pausa.
Ela hesitou.
De novo.
Sempre.
— Eu…
Mas não terminou.
Porque no fundo…
ela não queria.
E esse era o problema.
Eles sabiam.
Sentiam.
Negavam.
Mas não paravam.
E quanto mais tentavam ignorar…
mais real ficava.
Do outro lado…
Bruna sorriu.
— Eles tão ferrados.
Matteo concordou.
— Muito.
Porque agora…
não era mais só química.
Era sentimento crescendo…
no pior momento possível.
A noite estava silenciosa.
Calma demais.
Perigosa demais.
Luna não conseguia dormir.
De novo.
— Isso tá ridículo — ela murmurou, andando pelo apartamento.
Pegou água.
Sentou.
Levantou.
Suspirou.
— Eu não vou pensar nisso.
Pensou.
— Eu não vou lembrar.
Lembrou.
— Eu odeio isso.
Batida na porta.
Ela congelou.
— Quem é?
— Sou eu.
Silêncio.
Claro que era ele.
— O que você quer?
— Falar.
— Amanhã.
— Agora.
Silêncio.
Ela abriu a porta.
E lá estava Enrico.
Sem terno.
Sem postura perfeita.
Sem controle total.
Mais… humano.
E isso era pior.
— Você invadiu minha noite — ela disse.
— Você invadiu meus pensamentos.
Pausa.
Ela não esperava isso.
— Isso não ajuda.
— Eu sei.
Silêncio.
— Entra.
Ele entrou.
Devagar.
Observando.
Como sempre.
Mas diferente.
— A gente precisa resolver isso — ele disse.
— Resolver o quê?
— Isso.
— Define “isso”.
Ele chegou mais perto.
— O que tá acontecendo entre a gente.
Silêncio.
Ela riu.
De nervoso.
— Nada tá acontecendo.
— Luna—
— É sério. Nada.
— Você não acredita nisso.
— Você acredita?
Pausa.
Ele não respondeu.
Porque não dava.
— A gente quebrou todas as regras — ela disse.
— Eu sei.
— E continua quebrando.
— Eu sei.
— E ninguém tá fazendo nada.
— Eu estou aqui.
Silêncio.
Ela travou.
— Isso não é resolver.
— É um começo.
— Isso é piorar.
— Provavelmente.
Ela cruzou os braços.
Tentando se proteger.
— Então por que você veio?
Pausa.
Longo.
Difícil.
— Porque eu não consigo ignorar.
Silêncio.
Direto.
Sincero.
Sem defesa.
— Ignorar o quê?
Ele chegou mais perto.
Muito perto.
— Você.
Silêncio.
Ela sentiu.
De verdade.
E isso assustou.
— Isso é uma péssima ideia — ela murmurou.
— Eu sei.
— Isso vai dar errado.
— Eu sei.
— Então para.
— Você quer que eu pare?
Pausa.
Ela hesitou.
De novo.
Sempre.
— Eu…
Ele levantou a mão.
Devagar.
Encostou no rosto dela.
Leve.
Cuidado.
Perigoso.
— Diz pra eu parar — ele disse, baixo.
Ela fechou os olhos por um segundo.
Erro.
— Eu não consigo.
Silêncio.
Respiração presa.
Olhar preso.
Nada mais importava.
Ele se inclinou.
Devagar.
Sem pressa.
Sem plateia.
Sem desculpa.
Real.
Muito real.
Ela não recuou.
Nem um centímetro.
E dessa vez…
não tinha contrato.
Não tinha regra.
Não tinha nada pra impedir.
Quase.
Quase—
— AAAAH EU NÃO AGUENTO MAIS!
A porta abriu com tudo.
Os dois se afastaram na mesma hora.
Rápido demais.
Bruna entrou surtando.
— EU PRECISO DE CAFÉ E—
Parou.
Olhou.
Analisou.
Sorriu.
— …eu interrompi?
Silêncio.
Mortal.
— Não — Luna respondeu rápido demais.
— Sim — Enrico disse.
Bruna colocou a mão na boca.
— EU SABIA!
— O que você tá fazendo aqui?! — Luna perguntou.
— Crise existencial.
— ÀS DUAS DA MANHÃ?!
— Horário perfeito.
Matteo apareceu atrás dela.
Cansado.
Derrotado.
— Eu tentei impedir.
— Você não tentou nada — Bruna respondeu.
— Eu tentei emocionalmente.
Silêncio.
Constrangedor.
Pesado.
Perfeito pra destruir qualquer momento.
— Eu vou embora — Enrico disse.
— Boa ideia — Luna respondeu.
— A gente continua depois.
— Não continua.
— Continua.
Silêncio.
Ele saiu.
Mas antes…
olhou pra ela.
De um jeito que dizia tudo.
E nada.
Quando a porta fechou…
Bruna virou lentamente.
— EU CHEGUEI NA MELHOR PARTE.
— EU TE ODEIO.
— MAS ME AMA.
— NÃO AGORA.
— VOCÊ IA BEIJAR ELE!
— NÃO IA.
— IA SIM.
— CALA A BOCA.
Matteo só murmurou:
— Isso está ficando sério.
Luna sentou no sofá.
Passou a mão no rosto.
— Isso não pode acontecer.
Bruna sentou do lado.
— Já tá acontecendo.
— Isso vai dar errado.
— Vai.
— Muito errado.
— Com certeza.
Silêncio.
— E você tá feliz?
Bruna sorriu.
— Muito.
— Eu odeio você.
— Eu sei.
E naquele momento…
Luna percebeu algo pior que o caos.
Pior que o contrato.
Pior que o beijo.
Ela não queria que ele tivesse parado.
E esse…
era o verdadeiro problema.