Nove

1472 Words
Se alguém perguntasse para Matteo Ricci como estava sua vida… Ele responderia: — Confusa. Muito confusa. — PARA DE ANDAR PRA LÁ E PRA CÁ! Bruna estava jogada no sofá da sala de descanso, com um café na mão e zero preocupação com a vida. — Eu estou pensando — Matteo respondeu. — Você tá criando um buraco no chão. — Eu preciso organizar meus pensamentos. — Boa sorte. Ele parou. Olhou pra ela. — Você não ajuda. — Eu ajudo emocionalmente. — Você não ajuda em nada. — Ajudo no entretenimento. Silêncio. Ele suspirou. — Isso não é entretenimento. — Pra mim é. Do outro lado do escritório… Luna estava trabalhando. Ou tentando. Enrico também. Ou fingindo. E os dois? Evitando contato. Profissionalmente. Dolorosamente. — Eles estão estranhos — Bruna comentou. — Eles brigaram — Matteo disse. — Eles sempre brigam. — Mas agora está diferente. — Agora é sentimento. Silêncio. — Isso é r**m. — Isso é ótimo. — Isso é complicado. — Isso é novela. — Volta aqui! — Matteo disse quando Bruna levantou. — Não. — Eu preciso falar com você. — Então fala andando. — Eu não consigo pensar com você andando. — Problema seu. Silêncio. Ele respirou fundo. — Bruna. Ela parou. Virou. — O quê? Pausa. Ele hesitou. Muito. — Você… — travou — você sempre é assim? Ela franziu a testa. — Assim como? — Caótica. — Sim. — Sempre? — Sim. — Isso não cansa? Silêncio. Ela deu de ombros. — Não. — Como? — Eu não penso muito. — Eu penso demais. — Eu percebi. Pausa. Ele olhou pra ela. De verdade. — Você me deixa confuso. Ela sorriu. — Eu faço isso com todo mundo. — Mas comigo é pior. — Porque você tenta entender. Silêncio. — E eu não deveria? Ela chegou mais perto. Devagar. Perigosa do jeito dela. — Não. — Por quê? — Porque eu não faço sentido. Silêncio. Ele respirou fundo. — Eu gosto de coisas que fazem sentido. — Então você não devia gostar de mim. Pausa. Erro. Ele travou. — Eu não disse que gosto. Ela arqueou a sobrancelha. — Mas pareceu. — Não pareceu. — Pareceu sim. — Não— — Pareceu. Silêncio. Ele desviou o olhar. Primeira vez. — Isso é um problema — ele murmurou. Ela sorriu. — Eu sou um problema. — Eu sei. — E você gosta. — Eu não disse isso. — Mas pensa. Silêncio. Ele não negou. Erro. Do outro lado… Luna observava. — Olha eles. — Eu estou vendo — Enrico respondeu. — Eles estão piores que a gente. — Isso é impossível. — Nada é impossível. Silêncio. Eles se olharam. Por um segundo. E desviaram. De novo. — Você fala rápido demais — Matteo disse. — Você pensa lento demais — Bruna respondeu. — Eu não penso lento. — Pensa sim. — Eu analiso. — Você complica. — Você simplifica demais. — Porque é mais fácil. Silêncio. — E se der errado? — ele perguntou. Ela deu de ombros. — Deu. — E você só… aceita? — Sim. — Como? Ela deu um sorriso pequeno. Diferente. Mais sincero. — Porque eu prefiro viver errado do que não viver. Silêncio. Aquilo bateu. Forte. Ele não estava preparado. — Você é… — ele começou. — Doida? — Sim. — Eu sei. — E ainda assim… Pausa. Ele travou. — Ainda assim o quê? Ele respirou fundo. Tomou coragem. Quase. — Ainda assim eu… — MATTEO! A voz de Enrico cortou o momento. Perfeito timing. Péssimo timing. Matteo fechou os olhos por um segundo. — O quê? — respondeu. — Precisamos de você. — Claro que precisam — Bruna murmurou. Ele olhou pra ela. — A gente continua depois. Ela sorriu. — Se você tiver coragem. Desafio. Claro. Ele respondeu: — Eu tenho. Mentira. Ou talvez não. Enquanto ele se afastava… Bruna cruzou os braços. Sorriso de quem já ganhou o jogo. — Italiano tá lascado. Do outro lado… Luna soltou um suspiro. — Pelo menos alguém tá avançando. — Isso não é avanço — Enrico disse. — É mais do que a gente. Silêncio. Pesado. Ele olhou pra ela. — Isso não é uma competição. Ela deu um meio sorriso. — Podia ser. — Não é. — Uma pena. Pausa. — A gente podia estar ganhando. Silêncio. Ele não respondeu. Porque sabia. Eles estavam perdendo. E enquanto um casal começava a se render… o outro continuava preso. Entre orgulho, medo e algo muito mais perigoso: Sentimento de verdade. E esse? Esse ninguém sabia lidar. O silêncio daquela manhã não era normal. Não era confortável. Não era leve. Era… suspeito. — Eu não gosto disso — Luna murmurou, olhando o celular. — Do quê? — Bruna perguntou. — Do silêncio. — Então espera cinco minutos. — Por quê? — Porque a sua vida nunca fica calma. Pausa. O celular vibrou. E então… mais um. E outro. E outro. — …ah não — Luna disse. — O quê? Ela abriu a tela. Leu. Travou. — …ferrou. — O QUE?! — FERROU MUITO. Bruna puxou o celular da mão dela. Leu. E abriu um sorriso absurdo. — EU SABIA! — ISSO NÃO É HORA DE “EU SABIA”! Matteo apareceu. — O que aconteceu? Bruna virou o celular pra ele. — BOOM. Ele leu. E ficou sério. — Isso é um problema. — ISSO É UM DESASTRE — Luna corrigiu. Do outro lado… A porta da sala do CEO abriu com força. — ENRICO! Ele já estava de pé. Já sabia. Claro que sabia. — Eu vi. — A gente precisa resolver isso. — Agora. — Já estamos atrasados. Silêncio. Pesado. Real. Na tela do celular… “Noivado de Enrico Bianchi é falso? Fontes revelam acordo financeiro com secretária.” Fotos. Vídeos. Análises. E pior— Detalhes. Detalhes demais. — Quem fez isso? — Luna perguntou. — Alguém próximo — Matteo respondeu. — Ótimo. Traição interna. Amo. — Não é hora de ironia — Enrico disse. — Eu uso ironia pra não surtar! Silêncio. — Isso não pode sair do controle — ele continuou. — Já saiu — Luna respondeu. Pausa. E ela estava certa. — E agora? — Bruna perguntou. — Agora a gente n**a — Matteo disse. — Isso não vai funcionar. — Tem que funcionar. — Não vai. Silêncio. Todos olharam pra Enrico. Decisão. Peso. Consequência. — Vamos manter a versão — ele disse. — Mesmo com isso tudo? — Luna perguntou. — Especialmente por causa disso. Silêncio. Ela riu. Sem humor. — Você tá falando sério? — Muito. — Então você quer que eu continue fingindo… enquanto todo mundo tá dizendo que é mentira? — Sim. — Você enlouqueceu. — Eu estou protegendo a empresa. Silêncio. Ela travou. — Claro… a empresa. Pausa. — Sempre a empresa. Ele percebeu. Mas não respondeu. — Isso não é só sobre negócios — Luna disse. — Agora é. — Não, não é! — Precisa ser. — Pra você! Silêncio. Ela deu um passo pra trás. — E eu? Pausa. Ele hesitou. Erro. — Você está envolvida. — NÃO FOI ISSO QUE EU PERGUNTEI! Silêncio. Pesado. Doloroso. — Você só pensa no controle — ela disse. — E você só pensa no caos. — Pelo menos eu sinto alguma coisa! Silêncio. Direto. Cortante. Matteo interveio: — Precisamos agir agora. — Concordo — Enrico disse. — Claro que concorda — Luna respondeu — você sempre foge pro trabalho. — Eu não estou fugindo. — Tá sim. — Eu estou resolvendo. — Você está evitando. Silêncio. — Então o que você quer? — ele perguntou. — Eu quero que você admita! — Admitir o quê? — Que isso não é só contrato! Silêncio. Longo. Pesado. Ele não respondeu. De novo. E isso… já era resposta suficiente. Ela assentiu devagar. — Entendi. Pausa. — A gente continua então. Ele franziu a testa. — Continua? — O teatro. — É necessário. — Eu sei. Silêncio. Ela sorriu. Mas não era o sorriso de antes. — Vamos dar um show. Mais tarde… Imprensa. Microfones. Câmeras. E pressão absurda. — Senhor Bianchi! O noivado é falso? — Senhorita Andrade, você foi paga? — Isso é um escândalo? Caos. Total. Enrico segurou a mão dela. Firme. Como sempre. Mas dessa vez… ela não apertou de volta. — Nosso relacionamento é real — ele disse. Frio. Controlado. Perfeito. Mentiroso. Luna olhou pra ele. E então… sorriu. Para as câmeras. — Completamente real. Mentira. Mas convincente. Do outro lado… Bruna cruzou os braços. — Isso tá doendo. — Muito — Matteo respondeu. — Mas eles continuam. — Porque não sabem parar. Na frente das câmeras… Eles pareciam perfeitos. Fortes. Unidos. Intocáveis. Mas por dentro? Estavam quebrando. Porque agora… não era mais só fingir. Era mentir sobre algo que já não era totalmente mentira. E isso… era muito pior.
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