Um jantar perturbador

2263 Words
Capítulo 2 Um jantar perturbador Tomei um banho apressadamente, com o pensamento fixo no que aconteceria naquele jantar. Maldita hora que aceitei ir até aquela festa com Barbara. Agora teria que enfrentar aquela situação com o dom Maximus sentado à minha mesa de jantar. Vesti algo agradável porém mais bonito que o normal, mesmo sem sentir. Acredito que ele mexeu mesmo com minha cabeça a ponto de querer estar mais bonita que o habitual para um jantar de negócios do meu marido. Porém antes de ir, enviei uma mensagem a Barbara a xingando muito. Disse que o dominador da festa era conhecido do meu marido e estava no meu sofá. Desci as escadas da minha casa, de saltos altos, o que fazia um barulho irritante no chão de mármore. Ambos olharam para mim. O tal Mateus abriu levemente a boca ao me ver e Carlos sorriu com uma expressão amável. Entretanto era perceptível que ambos não demonstravam a mesma emoção ao me ver. Carlos estava acostumado comigo, por assim dizer, eu não tinha mais brilho para ele. O dominador ou amigo, em contrapartida parecia bastante animado ao me ver, cerrando os olhos e mostrando um sorriso um pouco mais fechado. Eu conhecia aquele tipo de sorriso. Era o sorriso de um típico cafajeste. O meu marido também tinha aquele sorriso, mas não era tão bonito nele. Ou eu estava acostumada ou ele não tinha o mesmo s*x appeal daquele homem. Talvez eu ainda estivesse imbuída das sensações que senti na festa, porém eu as estava sentindo novamente, só que na minha casa. E não me pareceu que seu s*x appeal fosse algo de ocasião ou provocado pelas sensações que eu senti. Ele era realmente muito sexy. — Então, — Respirei fundo — Podemos jantar. — Claro, vá pedir um vinho a cozinheira. O tom de Carlos António era sempre imperativo, “faça isso, faça o que mando”. Levantei-me e fui até a cozinha, muito incomodada de ele me tratar daquele jeito na frente daquele homem. Cheguei a cozinha como se pudesse cuspir abelhas sobre todos, mas tinha plena consciência de que nenhum funcionário da casa tinha culpa dos meus problemas. — Por favor, minha querida Ana, leve o melhor vinho que temos para a mesa? A cozinheira me olhou com carinho. — Claro, dona Margareth. — Obrigada. Acariciei o ombro da moça e tive que ir para a mesa de jantar, mas a vontade era ficar ali escondida pelo resto da minha vida. Estava em pânico. E se ele mencionasse alguma coisa? Se fosse um louco que pudesse contar tudo? Eu não sabia quem era ele. Ao retornar, já os vi sentados à mesa. Meu marido estava ocupando a cabeceira e o primo ao seu lado. Escolhi a cadeira do lado oposto, a que me colocava de frente para Mateus. Não havia muita escolha, se eu me sentasse mais afastada, Carlos perguntaria o motivo e eu não tinha uma boa resposta para dar. Nossos olhares se encontraram por alguns instantes e ele demonstrou confiança. Tentei relaxar um pouco assim que senti que minhas mãos estavam presas às laterais da cadeira. Relaxei meus músculos aos poucos. Quando Ana trouxe o vinho, fui a primeira a pedir. Ela me serviu e serviu a Carlos e em seguida seu convidado. — Então, como vão as coisas, Mateus? A direção da empresa? Alguma expectativa? — Carlos foi direto ao ponto do motivo de seu convite. Ergui os olhos para ele aguardando a resposta esperada. Em seguida segurei a taça de vinho e virei em grandes goles todo o líquido rascante branco do vinho italiano. Os dois ficaram me olhando. Quando terminei, levei os dedos aos lábios e sequei o canto dos mesmos mostrando um largo sorriso sem graça. Só então percebi que tinha virado o vinho de uma vez só e que aquilo causou espanto nos dois. — Está quente, não é? — Nem tanto. — Respondeu Mateus — Dia difícil? - O sorriso era canalha. —Imagina, meus dias nunca são difíceis, são... prazerosos. — Fechei os olhos ao responder de forma bem debochada. — Claro que não são difíceis, Mateus, agora a minha esposa e as amigas montaram um clube onde vão fazer roupas de crochê para dar as crianças no inverno. Não é uma ideia i****a? Mateus franziu as sobrancelhas me olhando. Em seguida olhou o chefe com uma tremenda expressão confusa. — Na verdade acho louvável, toda e qualquer ajuda deve ser bem vinda para essas famílias. Carlos cortou o sorriso e ficou sério, contrariado por ter sido desaprovado na minha frente. Aquele era um de seus hobbies favoritos: tentar me fazer parecer i****a aos olhos dos outros e desprestigiar minhas mais nobres atitudes. No começo eu apenas ficava magoada e chorava por algumas horas. Nos últimos anos, eu apenas ignorava, me vingando. Não sabia porque ainda havia algum traço de amor por aquele homem em mim. Ao ver a diferença entre os dois, aquilo me animou para rebater suas opiniões. — Com certeza, já que podemos fazer tanto e temos tempo, por que não ajudar quem realmente precisa? — Eu acho uma atitude muito bonita, Margareth, parabéns! — Respondeu Mateus — Muito obrigada. — Eu acho que não devemos inspirar preguiçosos, — Continuou Carlos a ser ele mesmo — Essa gente acostuma com esmola e não quer mais trabalhar. Cuidado na empresa, tem gente que faz corpo mole. Demita. Mateus olhou para mim e nossos olhares se encontraram. Acredito que ele se sentiu envergonhado por Carlos exatamente igual a mim. Meu marido tinha mudado tanto! Era um ser patético. Quanto a mim, senti a síndrome da impostora se manifestar fortemente, afinal nós não escolhemos fazer realmente roupas para os necessitados e sim comprá-las. E não iamos nos reunir pelo crochê e sim para diversão. Um sentimento de culpa brotou em mim. — Bem, os assuntos pessoais da minha esposa não interessam nessa reunião, precisamos falar da empresa... — Com certeza, Carlos, mas eu preciso usar o banheiro antes do jantar, será que Margareth pode me mostrar onde fica? Arregalei os olhos e em seguida pisquei várias vezes. Ele era louco? Facilmente podia achar o banheiro naquela casa. — Claro, Meg leve ele lá. Meu Deus, eu não queria, eu não podia. Levantei-me da cadeira ao mesmo tempo que Mateus e segui na frente. Ele me seguiu. Passamos por um corredor mergulhado na penumbra, que se acendeu com nosso movimento. Quando estávamos longe da sala de jantar, Mateus segurou meu pulso. Estanquei meu passo e virei meu corpo para ele, em pânico. — O que está fazendo? — Não gosta de ser submissa, não é? — Ele se aproximou tanto de meu rosto que pude sentir seu hálito de vinho branco. — É a submissa desse homem execrável e gosta disso por dinheiro. — Pelos meus filhos, solta meu pulso. — Balela, Moça, você gosta desse pulha. Olha como ele te trata e eu que sou o dominador. - Estalou a língua nos dentes com desdém. Olhei dentro de seus olhos. Aquelas palavras eram muito verdadeiras. O pouco de sentimento que ainda existia em mim, estava se desvanecendo com os maus-tratos machistas do meu marido nos últimos anos. Mas eu sempre imaginava que ele poderia mudar. Sempre esperava que olharia para mim com amor novamente. Mateus viu em meus olhos a desesperança quando estes se encheram d´agua. — Eu preciso voltar a mesa. — Respondi baixando a cabeça. -Um dominador te trataria melhor do que seu marido. Você é mulher demais para perder seus anos nesse casamento fodido. — Ele soltou meu pulso e entrou no banheiro. Aqueles minutos foram tão intensos que eu pareci ter prendido a respiração até o momento de Mateus se afastar. Levei a mão até meu peito e tentei enxugar as lágrimas sem encostar em meus olhos para não borrar a maquiagem. Olhei para o teto para fazer secar os olhos. Deixei aquele corredor e voltei a mesa. Sentei-me quando Ana trouxe os pratos. — O que é? — Perguntou Carlos. —Cordeiro assado no vinho com batatas e salada verde, senhor. — Respondeu Ana. — Perfeito. As crianças já estão dormindo? — Ele me olhou. — Quando cheguei já estavam, a Beth teve que ir mais cedo? — Sim. Uma pena, queria que Mateus conhecesse meus filhos. É bom estreitar laços. O silêncio reinou pois eu não quis responder. Logo Mateus apareceu e se sentou em seu lugar. — Isso tem um cheiro muito bom, cordeiro? — Sim, nossa cozinheira é ótima. — Respondeu Carlos. Ana nos serviu e se retirou. Assim que ela saiu, senti um pé acariciar minhas pernas por baixo da mesa. Um pé com meia foi o que senti. Olhei para Mateus. Ele olhava para Carlos enquanto dava um gole em seu vinho como se nada estivesse acontecendo. — Pode deixar que vou tomar conta das suas coisas, chefe. — Respondeu ele — Vou cuidar como se fossem minhas. Levantei de repente, depois de ouvir aquilo. Um fogo subiu por meu pescoço e o pânico tomou conta dos meus pensamentos. Ambos me olharam, curiosos. — O que foi? — Carlos me olhou assustado. — Nada, não estou me sentindo bem, me perdoe, Mateus. Nos vemos em uma outra hora. Eu só precisava sair dali. m*l conseguia respirar de tanta ansiedade. O que Mateus disse me abalou e eu sabia que ele tinha dito exatamente com esse propósito. Subi as escadas com pressa e fui para meu quarto. Sentei em minha cama, começando a me acalmar e respirar melhor. Eu estava muito encrencada. Liguei para Barbara. — Como é, amiga? Dom Maximus trabalha para seu marido?! - Ela riu. — É o que você ouviu. — Mas então ele se mudou, ele morava no Rio. — Isso eu não sei, mas se ele abrir a boca, eu estou fodida, amiga. — Eu posso te garantir que ele é de extrema confiança. Lembro de uma submissa dizer que ele viajava muito. Deve ser a trabalho e você está apavorada a toa. Todos em nosso meio falam bem dele. É um gentleman. — Sei. — Bem, eu só posso te garantir que qualquer sub em nosso clube daria um braço para pertencer a ele. Ele é muito disputado. Mordi a unha do polegar. — Muito? Por que? —Por que entende muito o b**m, segue a liturgia e é um excelente dominador. — Ou seja, gosta de bater? —Não é só de dor que vive o b**m, Meg. Uma sessão verdadeira seria muito bom para você entender isso. — Passo. — Certeza? — Absoluta. — Então porque ficou tão nervosa com ele? — Eu não fiquei, Barbara, eu fiquei com medo dele. Houve um silêncio de segundos do outro lado. — Estou indo para o jardim. Eu te conheço, Margareth, você não tem medo de ninguém, você ficou excitada com ele porque ainda por cima Dom Maximus acariciou sua perna por baixo da mesa! — Ela gargalhou — Eu queria muito ver a sua cara dando um pulo da mesa! — Não tem graça, tá. — Tem sim, preciso desligar, nos falamos amanhã, beijos. Ela desligou rapidamente o celular e eu não pude dizer mais nada. Decidi ir ao quarto dos meus filhos. Entrei sorrateiramente, olhei meus dois anjinhos dormindo pacificamente e me lembrei das roupas das crianças. Já não sabia mais se devia comprar ou realmente fazer. Estava me sentindo atroz e vil. Odiava esses sentimentos. No dia seguinte, deveria comprar as roupinhas e deixar na casa de Dominique. Eu ainda tinha sapatinhos dos meus bebês também para doar. O dia seguinte seria dia de fazer a faxina nos armários das crianças em busca de roupinhas antigas para doar. Fui para meu quarto, troquei de roupa e deitei para dormir. Mateus e sua boca tão próxima a minha no corredor de casa ficava voltando a minha memória. Não consegui dormir enquanto ele estava em casa. Fechei os olhos depois que ouvi Carlos entrar no quarto para tomar um banho. Quando ele se deitou, eu decidi pegar no sono. Senti duas pessoinhas pulando em cima de mim enquanto gritavam. Naquele momento lembrei que era domingo e que meus filhos não tinham aula. Segurei a carinha de Antonella, que me encarava com aqueles grandes e amendoados olhos castanhos e seus loiros cachinhos que adornavam seu redondo rostinho. — Minha princesa, está feliz que hoje não tem tia? — Não, mãeee, eu quero ir para a escola. Ela falou dengosa, com seu português de criança pequena, arrastando seu ursinho pela cama. Olhei para o lado, o pai não estava mais. — Que horas são? — Virei a cabeça para olhar o relógio de cabeceira — Oito horas e seu pai não está em casa? — Ele disse que ia para o jóquei, mãe. — Caio respondeu, jogando um jogo em seu celular. — E você não me dá um beijo não? Puxei meu filho para um beijo gostoso na bochecha. Ele continuou prestando atenção ao seu jogo, coisas de criança. Então me levantei e fui tomar meu café da manhã. Passei o dia com meus adoráveis filhos no shopping, almoçamos, fomos aos jogos e tivemos um dia maravilhoso que terminou na sorveteria. Adorava passar meu tempo com eles. Ultimamente começava a pensar em retomar minha carreira. Era formada em Direito mas precisava do registro na OAB. Para isso precisava estudar muito. Mas só dessa forma eu conseguiria autonomia suficiente dentro daquele casamento. As palavras de Maximus realmente tiveram efeito na minha cabeça. E eu só tinha visto aquele homem duas vezes na vida.
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