Victoria Savoia
Benjamim me desceu com calma — quase como se sentisse prazer em me manter apertada entre os braços dele.
Ele não precisava ser tão forte. Eu estava bem, afinal. Só estava testando limites, provocando como sempre. Não pretendia realmente me jogar. Mas, mesmo assim, ele me segurou firme. Os braços dele me mantinham firme, pressionada contra aquele peitoral tenso. O perfume dele — algo entre couro, café forte e colônia amadeirada — entrava pelas minhas narinas como um aviso: perigoso, masculino, e inegavelmente gostoso.
Ele não precisava ser tão forte.
Mas era.
Ele me colocou no chão com uma delicadeza quase c***l.
Seus olhos cravados nos meus.
— Escuta bem — ele murmurou, a voz baixa, grave, como uma lâmina atravessando o silêncio.
— Da próxima vez que você tentar fugir assim, eu não vou segurar.
O olhar dele era um aviso. Um prenúncio de algo maior, mais intenso, mais perigoso.
Endireitei a postura, mesmo sentindo o calor daquele olhar queimando minha pele.
— Eu não pedi que me segurasse, — retruquei, a voz calma, firme. Uma armadura de controle.
Mas por dentro, uma parte de mim continuava presa nele.
Não era pela força. Era pela energia.
Pelo domínio silencioso.
Pelo absurdo de ele conseguir ser tão inabalável enquanto todos à minha volta sempre ruíam.
Ele apenas me olhou.
Não disse mais nada.
Como se a presença dele fosse suficiente pra calar minha boca.
Mas o que ele ainda não sabia...
É que a minha boca não se calava tão fácil.
Me afastei, o salto ecoando pelo chão de mármore da entrada principal da mansão. Cada passo meu era uma declaração: não sou sua prisioneira. Mesmo que, no fundo... eu já estivesse na armadilha.
Caminhei até o portão, onde Chiara me aguardava no carro— SUV preta, vidros escuros, ar-condicionado no talo e som de pop eletrônico vazando pelos alto-falantes.
E, claro, ele veio logo atrás.
Benjamim Lancelloti.
Meu segurança.
Minha sombra de terno e desprezo.
Parei, me virei de forma brusca, o cabelo chicoteando no ar como uma arma de vaidade.
— Não tá vendo? Vou com a minha amiga. — apontei irritada pro carro com os vidros escuros estacionado à frente.
Ele continuou impassível, sequer piscou.
— Eu vou com você. Sou seu segurança, princesa. Ou esqueceu do seu colar de coleira nova?
Travei o maxilar. O sangue ferveu. E se existisse um deus do sarcasmo, eu o teria invocado ali.
— Não esqueci, seu i****a.
Cruzei os braços, me inclinando levemente, carregada de veneno.
— Mas então vai no banco de trás. Junto com a minha amiga. Aproveita e socializa, já que vai me seguir como um fantasma de terno. Vai ver até ganha um número de telefone.
Ele não respondeu.
Nem uma palavra.
Nem um olhar de reprovação.
Apenas existiu ali, silencioso, sólido, sufocante.
E foi isso.
Foi esse silêncio que me engoliu por dentro.
Me virei sem esperar resposta e entrei no carro com o coração acelerado de raiva — e alguma outra coisa que eu preferia não nomear. Porém pelo menos por enquanto, ele não conseguiria me controlar tanto
Mas lá no fundo... eu sabia.
Ele ficaria comigo.
Não havia mais pra onde fugir.
O maldito controle dele já estava me envolvendo como uma corrente invisível, e tudo culpa do meu pai, que acha que corro perigo.
O shopping era o mesmo de sempre. Gente de menos com algo verdadeiro no olhar.
Corredores amplos com piso polido demais, ar-condicionado que gelava até a alma. Claridade demais e vitrines decoradas com manequins que tentavam parecer humanos.
Mas, pra mim, tudo parecia plástico.
Na realidade hoje, o lugar parecia menor. Fechado. Como se as paredes estivessem mais próximas.
Como se tudo tentasse me apertar até explodir.
Meu corpo se movia no automático.
Tentava aproveitar a saída. Fingir normalidade.
Mas a sombra atrás de mim tornava tudo mais pesado.
Benjamim.
Sempre ali.
Sempre próximo.
Como um eco que respira.
Como uma arma silenciosa prestes a disparar.
Viemos todos no mesmo carro — eu, Chiara e ele.
Um trio desconfortável dentro da SUV preta, vidros escurecidos e tensão tão densa que dava pra cortar com um estilete.
Chiara, claro, falou o caminho todo.
Sobre sapatos. Sexo. Política. Sexo de novo.
Benjamim? Não disse uma única palavra, olhos fixos no nada — ou talvez em tudo. Eu? Pronta pra bater com a cara em qualquer parede só pra fugir daquele clima.
Estacionamos no subsolo.
A luz amarelada e o cheiro de gasolina misturado com perfume de luxo invadiram meus sentidos.
Quando descemos no estacionamento subterrâneo, ela me puxou pelo braço até a escada rolante. Ele veio logo atrás.
Chegando ao piso principal, Chiara lançou aquele olhar rápido e malicioso pra ele — e congelou no meio do passo.
— Vic... quem é esse homem? — sussurrou, com os olhos arregalados e um sorrisinho surgindo nos lábios.
— Tipo assim... por que você não me contou que o FBI mandou um deus grego pra te escoltar?
— É só... — suspirei, cansada — um amigo do meu pai.
Mentira.
Mas era mais fácil do que explicar o inferno silencioso que ele representava.
Chiara parou, ajeitou o cabelo com um gesto casual demais pra ser inocente e lançou o olhar diretamente pra ele, como quem avalia um carro importado que não pode pagar, mas quer sentar no volante.
Benjamim.
Parado.
Postura impecável.
Mãos nos bolsos. Camiseta preta moldando o peitoral. Jeans escuros. Botas gastas.
O cabelo levemente bagunçado. A barba sombria no maxilar.
A expressão de quem não tá nem aí pra nada.
E ainda assim... impossível de ignorar.
— Uau... ele é... incrível — ela murmurou, analisando cada centímetro dele.
Se virou pra mim, olhos brilhando. — Você tá me escondendo esse tesouro por quê?
Revirei os olhos, me fazendo de desinteressada. Mas por dentro? Que raiva.
Chiara não perdeu tempo.
Deu dois passos na direção dele como quem entra em uma vitrine pra brincar com fogo.
— Hmm... você é o tipo calado, né? Eu adoro isso.
Os que não falam geralmente... compensam de outras formas.
Ele não respondeu.
Nem uma reação. Nem um levantar de sobrancelha.
N-A-D-A.
Chiara mordeu o lábio, claramente mais excitada como se tivesse acabado de encontrar o novo brinquedo preferido.
E eu? Eu quis morder ela. Mas não por ele. Por mim.
Porque nem nos meus surtos mais controlados eu aceitava alguém ousando brincar com o que eu ainda não tinha... mas já sentia que era meu.
— Nossa... ele é um mistério ambulante.
Adorei.
Continuei observando.
E naquele instante, uma dúvida estúpida me atravessou como uma lâmina fina:
Ele era indiferente com todas?
Ou simplesmente não deixava ninguém se aproximar porque...
já tinha escolhido seu alvo?
Afastei o pensamento.
Era só meu ego tentando criar explicações.
Minha frustração por ser uma prisioneira de luxo. O que me fez sentir inveja da minha amiga. Ela era tudo o que eu gostaria de ser às vezes: livre, leve, descompromissada e sem um armário como sua sombra.
— Vamos dar uma volta, Vic? — Chiara sugeriu, puxando meu braço com animação.
Assenti, fingindo um sorriso.
Mas nada — absolutamente nada — tirava de mim a sensação daquela sombra grudada na minha pele.
A sombra com nome. Altura. Ombros largos.
E olhos que não piscavam.
O resto do dia foi um teatro.
Lojas. Provas de roupa. Espelho. Cafés com espuma de coração, conversa vazia, compras que eu não precisava.
E Benjamim?
Sempre lá.
Sempre atrás.
Sempre presente.
No fim da tarde, Chiara tentou mais uma investida.
Fez um elogio sobre o "jeito másculo e misterioso" dele, acompanhando com um toque no braço.
Ele apenas... olhou.
Frio.
Neutro.
Inacessível.
Ela riu, fingindo indiferença.
Mas eu vi.
Ninguém quebrava aquela parede.
Ninguém... talvez, exceto eu.
E quando ela foi embora, rindo, leve, e me deixou sozinha naquele mar de gente...
Eu soube.
Por mais que tentasse fugir.
Por mais que odiasse ser vigiada, controlada, seguida...
Não havia como escapar dele.
Não enquanto Benjamim Lancelloti respirasse o mesmo ar que eu.