Benjamim Lancellotti
A porta fechou.
Com um estalo seco.
Mas o som...
O som ecoou dentro de mim como um disparo no meio do peito.
Como se ela tivesse atirado com os olhos.
E a bala tivesse o nome dela cravado na ponta.
Um tiro mudo.
Uma sentença.
O fim.
Ela não gritou.
Não implorou.
Não hesitou.
Ela só me matou com os olhos antes de enterrar o resto com aquele movimento simples.
Fechar a p***a da porta.
Fechar a p***a da nossa história.
Fechar tudo.
...
Fico ali por segundos.
Ou minutos.
Ou vidas.
Não sei.
Só sei que alguma coisa que ainda me mantinha de pé...
quebrou.
Não consigo respirar.
Não consigo pensar.
Deslizo as costas pela parede fria até o chão.
Meus olhos não piscam.
Minha boca não abre.
Minha alma não reage.
É como se o próprio inferno tivesse sentado no meu colo e dito: "Aguenta agora, filho da puta."
Minhas mãos tremem.
Minha cabeça lateja.
E tudo que ainda me restava... acabou de me deixar.
Victoria.
Minha missão.
Minha obsessão.
Minha maldição.
Minha mulher.
A única coisa real no meio de tanta mentira.
A única p***a de verdade no meio da podridão.
E eu destruí.
Me arrasto até o corredor como um zumbi sangrando de dentro pra fora.
Meus passos não fazem sentido.
Meu corpo age no automático.
Mas meu peito...
...meu peito implodiu.
Quero gritar. Quebrar. Morrer.
Ou matar.
Não sei. Só sei que... perdi ela.
E então...
O celular vibra.
A tela brilha como um aviso do inferno.
Nem preciso ver o nome na tela pra sentir o cheiro de merda vindo do outro lado da linha.
CHEFE - FBI
Atendo.
— Finalmente — a voz dele vem seca, impaciente. — Já passou da hora de acabar com essa p***a. Amanhã é o jantar com o russo. Luigi estará lá. No hotel mais caro de Roma. O plano é simples. Um tiro. Um corpo. Um fim.
— ... — silêncio.
Porque o ódio tá subindo.
Subindo como fumaça densa.
Como lava antes da erupção.
— Tá me ouvindo, agente?
Engulo em seco.
Não porque tô com medo.
Mas porque meu maxilar tá travado demais pra responder.
A raiva começa a borbulhar no fundo da garganta.
Mas ainda não falo.
Porque sei que vem mais.
— E Victoria também vai estar lá. Perfeita. Alvo limpo. Inacreditável o quão fácil ela se colocou na linha de fogo. Como você mesmo disse, ela é impulsiva, mimada. Tola. Vai ser útil. Muito útil.
— Não — minha voz sai baixa.
Grave.
Perigosa.
— O que disse?
— Eu disse NÃO. — repito, agora com a voz embebida em veneno. —A Victoria não vai fazer parte dessa merda.
— O QUÊ?! — ele explode. — VOCÊ TÁ MALUCO?!
ELA É A CHAVE, BENJAMIM! O CARTÃO DE ACESSO PRO INFERNO DO LUIGI!
A MÃE DOS SEGREDOS!
O IMÃ QUE ATRAI O VELHO DESGRAÇADO!
— Ela tá grávida — rosno, sentindo a garganta queimar com cada palavra.
— ... o quê?
— Você ouviu, p***a.
GRÁVIDA.
De um filho meu.
Silêncio.
Mas não é um silêncio tranquilo.
É o tipo de silêncio que precede a tempestade.
— Você fodeu tudo.
— ...
— Você se apaixonou pela maldita missão, não foi?
— Eu me apaixonei por ela — cuspo. — E isso mudou tudo.
— VOCÊ É UM AGENTE, LANCELLOTTI!
E ELA ERA UM TRABALHO.
Um par de pernas, uma boca doce e uma casa cheia de câmeras!
Você tinha que f***r, extrair e esquecer!
Não GRAVIDAR ESSA p***a!
— Cala essa boca — rosno, o ódio subindo como gasolina. — Ou eu juro que vou até ai, e te quebro até sobrar só os dentes.
— Isso aí que você tá sentindo? Isso é fraqueza.
Essa criança não significa nada.
Ela é apenas um erro de percurso.
— Eu vou matar você — murmuro. — Se tocar nela... se disser mais uma vez que meu filho é um erro, eu mato você com as minhas próprias mãos.
— Ah, então é assim? Vai se voltar contra a agência?
Por causa de uma b****a que te fez esquecer quem você é?
— Eu não esqueci. Eu finalmente lembrei.
— Se ela morrer amanhã... vai ser só mais um número na estatística, Benjamim. Um detalhe sem importância. Você entende?
A missão não pode falhar.
A ligação cai.
Ou talvez eu tenha esmagado o celular.
Meu corpo vibra.
Mas não é adrenalina.
É ódio puro.
Eles vão matar ela.
Eles vão matar meu filho.
E eu juro por tudo que é mais sujo nesse mundo:
Eu vou destruir cada um que encostar um dedo neles.
Porque agora não tem mais missão.
Não tem mais FBI.
Não tem mais regras.
Só tem um homem...
Um pai...
E um monstro cheio de munição.
E amanhã à noite... alguém vai morrer.
****
2h14 da madrugada.
O relógio brilha vermelho na escuridão.
Mas minha mente não brilha.
Ela queima.
Arde.
Apodrece por dentro com o gosto da merda que virou minha vida.
Não durmo.
Nem descanso.
Nem penso direito.
Só revivo — em loop — a imagem dela com a mão sobre o ventre.
Aquela p***a daquela mão.
Como se já estivesse protegendo...
Do quê?
De mim?
Me viro mais uma vez na cama, mas o lençol parece um campo de batalha.
Tem o cheiro dela.
Da última transa.
Da última vez que achei que ainda tinha algum pedaço de céu nas mãos antes de vomitar o inferno em cima dela.
Minha alma pulsa de raiva.
De culpa.
E agora de medo.
Medo por ela.
Medo pelo bebê que ela carrega.
Meu filho.
Me levanto.
O chão gelado arrepia os pés, mas o frio por dentro é pior.
Caminho até a janela.
Roma dorme. Elegante. Intocada. Inocente.
Mas eu, o maldito agente que ferrou tudo. O homem que se apaixonou pela vítima, tá acordado e prestes a trair a p***a do país pra salvar quem eu amo.
Amanhã.
Amanhã eles querem o fim.
A morte.
O tiro.
O sangue.
Mas se qualquer coisa acontecer com a Victoria...
Não vai acontecer.
Eu juro por Deus que não vai.
Respiro fundo, tentando pensar numa saída.
Um plano.
Um jeito de proteger ela, tirar Luigi do mapa e desaparecer com os dois.
Mas então...
Um som.
Sutil.
Arranhado.
Como metal contra vidro.
Viro o rosto e congelo.
Na lateral da mansão, sombras.
Movimentos.
Três vultos se arrastando como ratos sorrateiros.
Máscaras.
Armas.
Silêncio.
Mas eu reconheço o cheiro:
É o cheiro da morte.
Daquela que vem antes da execução.
Do tipo que não avisa. Só entra.
Filhos da p**a.
Deslizo até a parede.
A adrenalina invade o peito como uma faca entrando em carne viva.
Sem fazer barulho, pego a faca que escondo atrás da cômoda.
A ponta afiada brilha à luz tênue do corredor.
Me aproximo, silencioso.
Como um lobo em caça.
O primeiro filho da p**a está distraído, tentando arrombar a janela da cozinha.
Erro fatal.
Eu pulo nele.
A lâmina encosta na garganta.
Ele se debate.
Mas não por muito tempo.
CRACK.
Pescoço quebrado.
O corpo cai comigo.
Eu amorteço a queda com o próprio cadáver.
Silêncio.
Silêncio sujo.
A arma dele escorrega para minha mão como se me reconhecesse.
Os dois outros mascarados se viram.
Os olhos arregalam.
— MERDA! — um deles grita.
E o caos explode.
TIROS.
Um deles acerta meu braço de raspão.
A dor queima, mas é como um lembrete:
Você ainda tá vivo. Luta, c*****o.
Me escondo atrás da pilastra de mármore.
Conto a movimentação.
Dois passos.
Respiro.
Aponto.
BANG.
O primeiro cai com o peito aberto.
Sangue espirra no chão claro da mansão.
O segundo corre.
Covarde.
Mas eu não deixo covardes respirarem.
Vou atrás.
Pulando os degraus, quase escorregando no próprio sangue quente do amigo dele.
Pulo nas costas do maldito.
Caímos no chão.
A luta é corpo a corpo.
Cotovelo.
Soco.
Joelho.
Cabeçada.
Ele tenta me enforcar.
Mas eu sou a p***a do inferno, lembra?
— FALA! — grito, com os dedos pressionando sua traqueia dele até ouvir estalar. — QUEM MANDOU VOCÊ, FILHO DA p**a?
Ele cospe sangue.
— A garota... — murmura. — A filha do Luigi... ela é a chave... pra ganhar o império do velho maldito...
BANG.
Fim de conversa.
O corpo dele cai mole.
Me sento, ofegante.
O braço lateja.
A respiração arde.
Mas nada importa.
Eles vieram por ela.
Não por Luigi.
Não por poder.
Mas por ela.
Victoria.
Minha missão.
Meu erro.
Minha mulher.
E agora...
Meu motivo pra matar o mundo inteiro.