Episódio 25:A Maldade Tem Forma

1796 Words
Victoria Saboia Acordei com o travesseiro encharcado. Não sei se era suor, lágrimas ou os restos de uma madrugada que não devia ter acontecido. Lá fora, o sol já invadia os vitrais da mansão com a ousadia de quem não conhece limites. Seus feixes dourados atravessavam os cacos da nossa decadência como uma ironia c***l — luz demais para um lugar onde só há trevas. Me espreguicei devagar. O corpo doía. A alma doía mais. Cada músculo parecia gritar a lembrança da noite anterior. Do toque dele. Da culpa que se alojou entre minhas pernas como uma sentença silenciosa. Benjamim havia ido embora antes do amanhecer. Mas deixou rastros. O cheiro dele ainda estava impregnado nos lençóis. O gosto dele ainda manchava minha língua. Tomei banho como quem tenta se exorcizar. Lavei o pescoço com força, esfregando como se fosse possível arrancar a marca dos lábios dele. Mas não saiu. Porque não era pele o que doía. Era por dentro. Desci pra comer alguma coisa. Ainda de pijama. Ainda despenteada. Ainda suja da noite passada, por dentro e por fora. Foi quando vi. A cena. A p***a da cena que vai assombrar cada centímetro do que ainda me resta de sanidade pro resto da vida. Meu pai estava na cozinha com Benjamim. Conversavam em tons baixos. Sérios. Gelados. Inatingíveis. Uma maleta de alumínio foi entregue pelas mãos dele. As mesmas mãos que me tocaram com tanta precisão poucas horas antes. Agora envoltas em algo muito mais obscuro. Meu pai abriu a maleta com a lentidão sádica de quem tem controle absoluto do mundo. E então vi. Um braço. Sim, um braço humano, decepado. Músculos esfolados. Ossos expostos. A mão ainda tensionada, como se estivesse tentando agarrar a vida que escapava. Um grito rasgou meu peito. Cru, primitivo, animal. Fui engolida por ele antes que percebesse que era meu. Os dois se viraram. Benjamim... Tinha nos olhos algo que eu nunca tinha visto: arrependimento. Já meu pai... Fechou a maleta com um estalo metálico. Frio. c***l. Definitivo. — Princesa... — ele se aproximou, sem pressa. — Me desculpe... — Pai... — recuei um passo, com os olhos embaçados. O chão parecia girar. — Era um braço... de uma pessoa! As lágrimas vieram sem pedir licença queimando minha pele. — Querida... não precisa se assustar. É falso... de cinema. — ele disse, com aquela voz de teatro. Uma mentira perfeitamente ensaiada. — Não era... — sussurrei, sem fôlego. — Por que, pai? Por que você tem que matar? Ele me encarou. Não havia ódio no olhar dele. Mas também não havia remorso. Apenas aquela frieza que só um monstro de terno sabe exibir. — Porque é necessário. Palavras ditas como se fossem um mandamento divino. Como se o sangue fosse o preço natural do poder. Simples assim. Saí correndo. Meus pés nus deslizavam no mármore gelado, mas não parei. Fui até o jardim dos fundos — o único lugar onde ainda posso fingir que o mundo não é feito de cadáveres e segredos. Me ajoelhei na grama. E gritei. — EU ODEIO ESSA VIDA! EU ODEIO ESSA MALDIÇÃO! As lágrimas desciam em silêncio, mas dentro de mim era um furacão. Foi então que ouvi os passos. Me virei. Benjamim. Ele estava ali. O lobo que me salvava das sombras que ele mesmo ajudava a construir. — O que você quer?! — disparei. Ele não disse nada. Apenas caminhou até mim... e me abraçou. Sem pedir permissão. Sem palavras. Sem defesas. E eu cedi. Porque estava quebrada demais pra resistir. Ele me envolveu como se meu corpo fosse uma confissão. Beijou meus cabelos com a ternura de quem sabe que destruiu algo que amava e me deixou chorar. E eu chorei. Chorei tudo o que nunca pude chorar aqui dentro. — Eu não aguento mais tanta morte... — murmurei contra o peito dele. — Vic... aquelas pessoas não são inocentes. — murmurou contra meu cabelo. — Ainda assim... — sussurrei. — Não justifica. É uma vida. Ele se afastou só o suficiente para limpar minhas lágrimas com os dedos. E então me beijou. Mas não como antes. Não com desejo. Não com fome. Com... ternura. Com carinho. Com amor. Ou algo muito, muito parecido com isso. — Quer sair? Respirar um pouco? — perguntou, com aquela voz rouca de quem também precisa fugir. — Sair? — repeti, com a voz embargada, confusa. Ele deu um meio sorriso. Torturado. Lindo. — É. Vamos sair. Fugir. Por um dia... ou por algumas horas. Você escolhe. Meus olhos se encheram de uma esperança que eu não lembrava mais que existia. — A praia... — foi a única coisa que consegui dizer. — Quero ver o mar. — Praia? — ele arqueou uma sobrancelha. — Vamos fazer um piquenique... Foi a primeira coisa que veio à cabeça. Ridícula, talvez. Mas ele não riu. Apenas me olhou como se eu fosse a mulher mais preciosa do mundo. E assentiu. — Então vamos. Vou te levar pro lugar mais longe desse inferno. (***) Tomei um banho rápido, mas hoje não fui água, fui fogo. Queria que cada gota lavasse não só o corpo, mas a história que vive nele. Queria que, ao sair, eu fosse outra. Ou, pelo menos, parecesse. Vesti um vestido branco de alça fina, tão leve que parecia feito de vento. Ele deixava minhas costas nuas e minha pele exposta como um convite ao pecado. Não usei sutiã. Hoje, não havia regras. Nem grades. Nem sangue coagulado nas paredes da minha memória. Calcei uma rasteirinha dourada, deixei os cabelos soltos, ainda úmidos, escorrendo como fios de mar por sobre os ombros. Quando desci, Benjamim já me esperava. Encostado no carro como se fizesse parte dele. Jeans escuro, camiseta preta justa no peito largo, jaqueta pendurada no braço, óculos escuros escondendo o que queimava por trás. Um homem que parecia ter saído das sombras só pra me buscar. Um pecado sobre rodas. Entrei no carro, o coração trovejando sob o tecido fino. Ele me lançou um olhar demorado, daqueles que desnudam. E então ligou o motor. — Tem certeza que quer isso? — perguntou, a voz mais rouca que nunca, quase um aviso. — Nunca quis tanto algo na vida. Ele não respondeu. Apenas acelerou. O vento bagunçava meus cabelos pela janela aberta enquanto a estrada serpenteava à beira-mar como se fosse o fio da navalha entre o mundo e o esquecimento. O sol brilhava como se hoje o mundo tivesse se esquecido de que somos pecadores. Nenhum carro nos seguia. Nenhum capanga à vista. Nenhum código de conduta. Era só nós dois. Como se fôssemos dois sobreviventes fugindo do fim do mundo. Chegamos a uma praia isolada, mais linda da Itália. Intocada. Selvagem. A água era de um azul cristalino tão puro que doía. A areia, branca e quente como pele recém-beijada pelo sol. Ben estacionou sob um coqueiro. Desci com a cesta improvisada que preparei como quem sonha. Estendi a toalha vermelha, um grito de cor no meio do paraíso. Abri o vinho, espalhei os morangos, as uvas, os queijos, o bolo de limão. Ben ficou ali, me olhando, os braços cruzados, os olhos escuros demais pra um dia tão claro. — Vai ficar me encarando ou vai sentar? — provoquei, sorrindo. Ele se aproximou devagar. Másculo. Lento. Perigoso. Um animal em repouso, mas pronto para atacar. Quando chegou perto, me puxou pela cintura. O beijo foi uma explosão lenta. Quente. Carnal. Doce e desesperado. Minha boca abriu como se já soubesse o caminho. Minha língua procurou por abrigo. E encontrou o dele. — Eu devia te trazer aqui todo dia... — murmurou contra minha boca, com as mãos espalmadas nas minhas costas nuas. — Então começa agora. Bebemos vinho, rimos baixo. As frutas adoçavam nossos lábios entre beijos roubados. Deitamos na toalha, lado a lado, olhando o céu. Mas não demorou até o silêncio mudar. Eu me levantei. Meus pés afundando na areia fofa. — O que foi? — ele pergunta. — Nada... — respondo com um sorriso travesso. — Só tá calor. E então tirei o vestido. Simples assim. Deixei ele escorregar por minha pele, caindo como um sussurro até tocar o chão. Fiquei apenas com a calcinha de renda preta. Meus s***s livres, meus cabelos tocando as clavículas. Sinto o olhar dele colado em mim. Cruzo os braços abaixo dos s***s, arqueando o corpo de propósito. — Gosta do que vê? — Adoro... — respondeu, a voz grave trincando o ar. Dou dois passos pra trás. O mar atrás de mim, convidando. — Então vem. Ele se levantou sem hesitar. Tirou a camiseta num único movimento. O peito trincado, o abdômen marcado, a alma tatuada em cada músculo tenso. Desceu a calça devagar. Ficou só de cueca preta. A ereção já evidente. Sem pudores. Sem censura. Eu não desviei os olhos. Ele caminhou até mim. Me pegou pela cintura. Me beijou como se o mundo estivesse prestes a explodir. E nós corremos pro mar. A água era gelada. A pele ardia. A adrenalina queimava. Rimos. Nos molhávamos. Ele me ergueu nos braços. Eu me enrosquei como uma serpente faminta. As pernas ao redor da cintura dele, os braços no pescoço, o riso virando desejo em tempo real. Por alguns minutos, eu esqueço. Esqueço meu pai. Esqueço o sangue. Esqueço a morte. Só existe o mar. O sol. E Benjamim. Saímos molhados, salgados, vivos. Nos deitamos na toalha vermelha. Eu de bruços, ele por cima. Beijos nas minhas costas, lentos, quentes. A boca dele descendo até o elástico da calcinha. Os dedos dançando pelas laterais do meu corpo, despertando arrepios. Ele virou meu rosto. Me beijou. Com ternura e ferocidade ao mesmo tempo. — Me deixa te amar assim... devagar. Do jeito que você nunca teve. Do jeito que só eu vou saber fazer. Eu assenti, sem dizer uma palavra. Porque o corpo já gritava o sim. Ele deslizou a calcinha devagar, beijando cada centímetro que descobria. E ali, naquela areia molhada, sob o sol que queimava, Benjamim me fez sua. Entrou devagar, com reverência. E então se moveu dentro de mim com a precisão de quem conhece a dor, mas escolhe o prazer. Gemidos abafados, respiração entrecortada, mãos apertando forte. Beijos longos. Olhos nos olhos. Não era apenas sexo. Era confissão. Era redenção. Era a coisa mais suja e mais pura que já vivi. E quando o clímax chegou, não foi só o corpo que tremeu. Foi a alma. O coração. O passado inteiro. Eu gozei com o nome dele entre os lábios. E ele veio logo depois, mordendo meu ombro, enterrando a respiração no meu pescoço. Ali, na areia quente, entre o sal do mar e o gosto do vinho... Ele não foi só meu segurança, meu amante. Foi meu porto. Foi meu lar. Pela primeira vez.
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