Capítulo III — Hayley

2152 Words
Hayley Castle estava sozinha, sentada num banco e envolta por um cobertor, mesmo sendo verão, e um incêndio terminava de ser apagado a poucos metros de onde estava. Os bombeiros haviam dito que ela deveria permanecer até que os seus pais viessem buscá-la, mas ela sabia que eles não viriam. Contudo, ela não tinha mais para onde ir, por isso ficou ali, observando o internato onde estudava virar cinzas. A paramédica, que fez os seus primeiros socorros, disse que o incêndio fora causado por uma explosão na cozinha, mas Hayley sabia que as coisas não transcorreram dessa forma. Hayley causara a explosão, e sequer estava na cozinha quando acontecera. Isso seria difícil de explicar para as autoridades, no entanto. Quando ela tentou mostrar como fez acontecer, a paramédica somente a olhou com pena e aconselhou que procurasse um neurologista ao chegar ao hospital. Podia estar com traumatismo ("Eu não bati a minha cabeça!" Ela continuava a dizer) ou simplesmente estava em estado de choque. — O que está fazendo aqui, garota? — Um policial aproximou-se com uma lanterna apontada para o rosto de Hayley. — Ninguém morreu, não é? — inquiriu Hayley rapidamente, ignorando a pergunta do policial. — Por favor, me diz que ninguém morreu. As lágrimas lavavam a fuligem das bochechas da garota e o policial soltou um suspiro. Ele desligou a lanterna e abriu um sorriso cansado. — Todos os seus amigos estão vivos, garota — ele respondeu. — Era o que queria saber, certo? Pode ir para casa agora. Hayley não considerava ninguém naquele internato seu amigo, mas ficou aliviada em saber que o seu acidente não fora fatal para nenhuma pessoa — bem, a não ser para o dono da escola, que teria com certeza um infarto ao saber o que acontecera. Ela agradeceu o policial pela informação, mas ele continuou lá parado, com as sobrancelhas erguidas esperando uma explicação mais profunda do por que Hayley continuava a ver as cinzas da sua antiga escola. — Os meus pais estão na Rússia — ela disse baixinho. — Eles não vão sair de lá tão cedo. — E não tem nenhum parente ou, sei lá, uma babá? — perguntou o policial, impressionado. Ela negou com a cabeça. Seu pai era um milionário no ramo de tecnologia que viajava o mundo inteiro em busca de produtos inovadores para a empresa. A residência oficial da família no momento era em Melbourne, na Austrália. Sua mãe geralmente ficava em casa cuidando de jantares beneficentes e forçando-a a vestir roupas desconfortáveis para ficar apresentável para os ricos empresários que tinham filhos. Hayley não gostava nem um pouco de ser a garota propaganda de seu pai nos negócios, mas não era como se ela tivesse algum direito de se defender. Sua peripécia mais radical fora queimar sem querer um vestido que usara durante uma confraternização em Paris, depois que os seus pais anunciaram que mudariam para a Austrália. Ainda assim, nenhum dos dois se importou em dizer algo para ela, perguntar se a filha estava bem ou algo do tipo. Antes da viagem para a Rússia, a sua mãe avisara para não fazer nenhuma gracinha, nenhuma desgraça que poderia manchar a reputação de seu pai ou da empresa. Um calafrio percorreu o corpo de Hayley só de pensar no que a sua mãe iria falar quando chegasse, se ela já não tivesse sido contatada antes e estivesse ligando para sua casa procurando por Hayley naquele exato momento. — Bem, se você quiser uma carona para casa, eu posso arranjar para que uma viatura leve você... — disse o policial. Ele já estava com a mão no rádio para chamar reforços, mas Hayley sacudiu a cabeça veementemente. — T-tudo bem, então. Qualquer coisa, estaremos do outro lado da propriedade. Garota, cuide-se, ok? Hayley acenou enquanto o policial caminhava para seu posto. Ela deixou o seu braço cair perto do corpo, sentindo-se mais calma. Ainda precisava encarar seus pais e sua fúria ao saber que a filha delinquente aprontara mais uma vez. Outra história envolvendo fogo, outros advogados e outras vítimas. Porém, para Hayley, era a mesma coisa de novo e de novo. Quando tinha três anos, ela acidentalmente ateara fogo nas sobrancelhas da melhor amiga enquanto brincavam sozinhas. Aos sete, foi a mochila de um coleguinha da primeira série. Hayley não se lembrava dos seus acidentes, pois os seus pais sempre encobriam tudo. Para a sorte dos dois, o fogo não esteve presente em sua vida por oito anos até o incidente de Paris, que fez a garota se lembrar dos outros dois e exigir respostas que nenhum de seus pais possuía. Ela causara aquele incêndio em um ato completamente impensado, e até infantil de sua parte. Ela odiava o internato e odiava o fato de seus pais só terem colocado ela lá porque era lésbica. Ela odiava cada garota daquele lugar, o modo que elas pensavam, e cada vez que se perguntava se seus pais a conheciam bem, Hayley se recordava que eles escolheram aquele lugar para ela, para criar nojo de garotas e voltasse a ser heterossexual como se fosse uma escolha. Fora mais um dia de bullying e tortura dentro de um vaso sanitário. Hayley estava espumando de raiva quando chegou ao quarto, sem notar que um rastro de fogo a perseguia pelos corredores, arrastando uma onda de pavor por onde passava. Aquele prédio tinha no mínimo duzentos anos e a madeira estava frágil há muito tempo. Bastou uma fagulha para que ele fosse abaixo. O pânico foi geral. Ninguém suspeitou de Hayley, mas a culpa a consumia por dentro. Ela tentou salvar algumas pessoas (garotas que odiava com todas as suas forças, mas que não podia deixar morrer porque o bom senso sempre fala mais alto) até que não conseguiu suportar o calor. Hayley sucumbiu à porta do colégio e acordou horas mais tarde dentro de uma ambulância. Suas mãos fumegavam e do banco onde sentava saía fumaça. Hayley não prestava atenção no que estava fazendo, recordando as más lembranças do dia e quase fez o banquinho pegar fogo. Ela levantou-se, assustada, olhando para suas mãos em completa perplexidade. Elas estavam em chamas. Labaredas saíam de seus dedos e das palmas, dançando contra o vento de verão australiano. Hayley engoliu em seco. Nunca vira fogo de verdade em seu corpo, ela só sabia ser a razão dos problemas que tivera nos últimos anos. Ela fez alguns movimentos com as mãos e contemplou, aterrorizada, as flamas percorrerem os seus braços em sincronia. O fogo não lhe queimava, mas estava puxando o oxigênio para si. Hayley se viu obrigada ficar quieta e tentou focar seus pensamentos para acabar com as chamas. Em questão de segundos, o fogo extinguiu-se da mesma maneira que se iniciou: rapidamente e indolor. Hayley sorriu feliz, algo que não fazia em muito tempo. Enquanto rodava para lá e para cá, o fogo caiu na grama e no banquinho. Seu sorriso sumiu ao ver que o policial que estivera com ela minutos antes a observava de longe e agora chamava os bombeiros para apagarem outro foco do incêndio. — Hora de ir — murmurou Hayley, pegando a única coisa que conseguira salvar do incêndio: sua mochila com duas peças de roupa e um pequeno pedaço de queijo (ela estava pronta para fugir dali antes de estragar tudo), e atravessou a rua, sem rumo certo. *** Passava das cinco horas da manhã e já amanhecera. Hayley vagava a esmo pelas ruas de Melbourne, ouvindo o estômago roncar e sentindo que o cansaço ia-lhe derrubar em poucos minutos se não sentasse e comesse algo. O pedaço de queijo, enrolado em papel alumínio, parecia tentador, mas Hayley sabia que ele não saciaria sua fome. Ela sorriu ao encontrar uma lanchonete que servia café da manhã e já estava aberta. Hayley não andava muito na cidade, a não ser o mesmo caminho que tomava para ir para casa ao internato nos fins de semana. Visto que não tinha amigas, sair de casa não era uma de suas especialidades — e, quando saía, era sempre com os pais. Tinha que admitir que chegar ao centro de Melbourne sozinha era um feito e tanto. Hayley entrou no local, procurando algum dinheiro nos seus bolsos. O Sr. Castle sempre dizia que ela deveria levar certa quantia para todos os lugares que fosse, pois a probabilidade de um acidente acontecer era grande (se ela estivesse envolvida, essas chances aumentavam ridiculamente). Esse era o único conselho de seu pai que Hayley levava a sério. — Um cappuccino, por favor — pediu Hayley assim que sentou no balcão, puxando um cardápio para si e olhando as suas opções. A atendente arqueou a sobrancelha, mas nada disse. Hayley então notou o seu reflexo num espelho na sua frente e fez uma careta. O cabelo ruivo estava praticamente preto de fuligem, assim como o seu rosto. O desenho das lágrimas que deixara cair enquanto ainda estava sentada em frente ao colégio traçava um caminho pelas suas bochechas de uma forma bizarra. Seu uniforme estava sujo e destruído em vários lugares. — Você deveria ir lavar o rosto — sugeriu a moça que lhe atendera assim que chegou com o seu pedido. Então apontou para uma porta à direita no fim da lanchonete. — Pode ir, eu vigio o seu café. — Posso pedir o que quero comer primeiro? — ela retrucou friamente. A manga do seu suéter começou esfumaçar e Hayley sentiu o rosto corar ao tentar apagar o início de outro incêndio. A garota a observava atentamente e não se abalou diante da resposta de Hayley. — À vontade — ela murmurou, indo atender outro cliente que chegara e fitava Hayley com olhos curiosos. Cinco minutos mais tarde, a atendente voltou a ficar na frente de Hayley, batendo impacientemente com um lápis num bloquinho de papel. Seus olhos gritavam para Hayley que ela não dava a mínima para o que acontecera, que ela só queria pegar o pedido dela e terminar o seu turno. — Tudo bem, dê-me um sanduíche com muito bacon e ovos, por favor. — Ela furiosamente enfatizou as últimas palavras. — E algumas torradas e geleia. — Com ou sem Vegemite? — indagou a garota, anotando rapidamente o que Hayley falara. Hayley fez uma careta de nojo e isso respondeu à pergunta da atendente, que deu um sorriso e murmurou "Americanos!" enquanto entrava na cozinha. Ela bem que queria retrucar e dizer que, na verdade era canadense, mas mudou de ideia. Não importava o que a atendente pensava dela, logo Hayley estaria em casa e, provavelmente, assim que seus pais chegassem da Rússia, de mudança. Ela tomou um pouco do seu cappuccino, focando a sua atenção no jornal matutino local que passava na televisão. O assunto, obviamente, era o incêndio no internato e o bombeiro que estava sendo entrevistado afirmava seguramente que o fogo começara na cozinha. Hayley se perguntou se eles pensavam ser algo intencional ou só um acidente de trabalho. Não haveria nada queimado ou explodido na cozinha para comprovar nada. Tudo acontecera nos corredores e, ela sentiu um calafrio percorrer sua espinha, por conta das suas mãos. — Eu estou tão perdida — Hayley sussurrou para si, deitando a cabeça no balcão dramaticamente. Ela podia não gostar do internato ou das garotas nele, mas a Austrália era um país lindo e sentiria falta de morar ali. Se pudesse pelo menos ter uma conversa racional com seus pais, se ela pudesse se emancipar e ir morar sozinha... — As suas torradas e o seu sanduíche, garota-fuligem — a garota que atendera Hayley disse de mau-humor e cutucou seu braço. — Treze dólares por tudo. Hayley levantou a cabeça e buscou a carteira dentro do seu casaco. Tirou o dinheiro de lá e contou minuciosamente, sentindo os olhos da garota fixados nela. Hayley estava começando a gostar dela. Se Hayley não estivesse tão suja e desarrumada, talvez tivesse uma chance. — Obrigada e volte sempre — a atendente falou com um sorriso escárnio ao pegar o dinheiro de Hayley. — Limpa, de preferência. Hayley grunhiu e deu uma mordida no seu sanduíche, voltando a prestar atenção no noticiário. A diretora do internato era a entrevistada da vez. Aquela mulher era especialmente má e desprezível com todas as garotas não nativas da Austrália e, é claro, Hayley era seu saco de pancada sempre que podia. Por outro lado, na entrevista, ela estava em lágrimas e jurava pegar quem destruíra o que fora seu lar pelos últimos trinta anos. Em algum lugar ali perto, o sino de uma igreja badalou seis vezes. Hayley, que estava ocupada comendo o seu café, não percebeu que o sol estava brilhando no céu e que eram seis horas da manhã. Hayley sequer teve tempo de dar uma mordida na torrada com geleia antes da luz branca bater contra o seu corpo e ela cair desacordada em cima do prato.
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