Capítulo V — Danny

2973 Words
Danny acordou com uma dor de cabeça h******l. Ele sentou e olhou ao redor, mas não reconhecia o lugar onde estava. A última coisa que lembrava era de ter banhado e… Ele olhou aterrorizado para o seu corpo, esperando se ver nu, mas felizmente alguém o vestira. Não pareciam as roupas que ele usava no dia a dia, mas era melhor que estar nu num local desconhecido. — Meu Deus! — exclamou alguém ao seu lado, o que fez o garoto dar um pulo, assustado. Era uma menina ruiva, que tinha os cabelos cheios de fuligem. Sua roupa parecia um uniforme, mas Danny duvidava que uma escola fosse aceitar que os seus alunos usassem roupas sujas daquele jeito. — Onde eu estou? O que está acontecendo? Ela notou que Danny a observava e avançou para cima dele. Ele arregalou os olhos e engatinhou para trás ao ver que as mãos da menina estavam pegando fogo. No entanto, ela não pareceu notar estar em chamas e continuou a ir na direção do garoto, aparentando estar mais apavorada que ele próprio. — Se isso é devido ao incêndio, posso dizer a você que não fui eu! — A garota olhou para as mãos em chamas e as sacudiu até que o fogo se extinguisse. — Bem, fui eu, sim, mas... Danny abriu a boca e fechou, tentando achar palavras que explicassem o que sentia naquele momento, mas seu conhecimento em português falhou-lhe miseravelmente. Aquela menina tinha poderes, assim como ele - eram opostos, na verdade. Ela começara um incêndio em algum lugar e estava sentindo-se culpada em relação ao que acontecera. E se ela tivesse matado alguém? Era bem claro que ela não tinha controle de seus poderes. — Ei! Não tire conclusões precipitadas! — a garota exclamou, impaciente, ao ver a expressão de Danny. Ela estreitou os olhos e socou o ombro dele com força. — Você literalmente me viu pegando fogo e não disse nada?! Está bem por acaso? O garoto meneou a cabeça afirmativamente, se afastando mais um pouco da menina. A mão dela ainda estava quente quando ela o tocara e agora o braço de Danny estava vermelho vivo. A sua pele ardia e ele soltou um gemido de dor. A expressão da garota transformou-se ao ver o que fizera no ombro de Danny e começou a pedir desculpas de forma apoplética. — Está tudo bem, é sério! — ele reafirmou, tentando manter as mãos dela longe do seu corpo. — Não é nada. — Como assim não é nada?! — gritou ela. — Cara, eu machuquei você! Eu sinto muito, mesmo, não era minha intenção e eu... Ele viu um pouco de fumaça saindo das calças da garota e entendeu algo: quanto maior o nível de stress dela, maiores as chances de um incêndio. Danny precisava acalmá-la, mas como fazer uma bola de fogo humana em potencial se sentir mais tranquila? Ele lera sobre ataques de ansiedade em uma revista um tempo antes e os sintomas da garota assemelhavam ao que estava descrito. — Ok, garota, preste atenção em mim — disse Danny com a voz calma. Os olhos da menina rapidamente fitaram os seus. — Respire fundo, ok? Estou bem. Quero que saiba disso. Estou bem. Não aconteceu nada. Não está nem doendo. — A garota revirou os olhos. Ele sorriu amplamente, ignorando a queimadura. — É sério. Vai ficar tudo bem. Nós só precisamos achar um jeito de sair daqui e então, sei lá, vamos tomar um milk-shake. — São seis da manhã — a menina replicou. Mesmo assim, sorria e Danny nunca vira um sorriso tão lindo quanto aquele. — Nenhum australiano é de tomar milk-shake às seis da manhã. Danny queria comentar que era, na verdade, cinco da tarde, porém isso poderia causar outro ataque de pânico nela. De qualquer forma, fusos-horários não eram importantes. O que queria era sair daquele templo e arranjar roupas novas — depois, é claro, de saber como e, porque ele fora parar ali. — Certo. — Ele anuiu a cabeça e tocou de leve no braço da menina. Dessa vez, nenhuma queimadura veio. — Eu me esqueço disso, não sou australiano. — O seu sotaque é mesmo diferente, agora que você falou — ela admitiu. — O meu nome é Hayley e, hm, eu também não sou australiana. Sou canadense. Antes que Danny pudesse responder, dois adolescentes entraram no local aos gritos. Eram um garoto e uma garota, o primeiro relativamente mais baixo que a segunda, porém o que mais aparentava estar furioso. A menina era bonita, talvez da idade de Danny, com a pele cor de caramelo e cabelos que balançavam harmoniosamente contra o vento calmo. O garoto baixinho, por outro lado, era branquíssimo com cabelos negros que se destacavam no ambiente. Nenhum dos dois notou Danny e Hayley até estarem no meio do salão, já cansados de gritar um com o outro. Danny não soube dizer sobre o que os dois discutiam, mas ouviu algo sobre correntes de ar e paredes tremendo. Hayley se levantou e ajudou Danny a fazer o mesmo. Ela pigarreou timidamente e por fim os dois perceberam a presença de outros seres humanos na sala. — Quem são vocês? — perguntaram ao mesmo tempo. Então, perceberam que haviam falado em uníssono e cruzaram os braços, irritados. Danny revirou os olhos. Ele avançou um passo e estendeu a mão à garota. Ela olhou-o, julgando-o de cima a baixo, mas retribuiu o aperto de mão. Hayley, que estava atrás de Danny, acenou timidamente para os dois. — Meu nome é Danny — ele se apresentou. — Essa é a Hayley. A gente se teletransportou para cá por que não tínhamos nada para fazer com nossas vidas. A piada pareceu quebrar o clima r**m entre os dois jovens. O garoto deu um sorriso amarelo, que Danny considerou um sucesso devido à expressão m*l-humorada dele, enquanto a menina riu abertamente. Até Hayley esboçou um sorriso. A manga da camisa de seu uniforme soltou faíscas. — Ashley Mitchell, prazer — disse a garota quando conseguiu parar de rir. — Tony — disse o garoto a contragosto. Um silêncio constrangedor seguiu-se. Danny quis que algum deles falasse o que estava acontecendo, mas os outros três pareciam tão atônitos quanto ele. Tony enfiou as mãos nos bolsos da calça e balançou nos próprios pés, parecendo tão nervoso quanto provavelmente estaria em uma prova de Artes. O garoto era inteligente, percebia isso só de olhar para sua expressão entediada ao fitá-los. — Ei! — exclamou Hayley de repente, assustando todos. Ela se virou para Danny e perguntou: — Você disse que não era australiano. De onde você é? — Do Brasil — ele respondeu, dando de ombros. O humor de Tony mudou completamente ao ouvir a resposta de Danny. Ele se virou para o garoto, surpreso. A brisa que circulava o salão se tornou uma rajada em questão de segundos. Porém, num piscar de olhos o vento ficou calmo novamente. Danny e Hayley se entreolharam, preocupados. Ele sabia dos seus poderes e dos de Hayley.... Será que Tony ou Ashley também controlavam algum elemento? Será que era por isso que eles todos estavam ali? — Você mora no Rio? — indagou Tony. Danny anuiu e o brilho no olhar de Tony aumentou. — Uma das usinas que foi atacada é no Rio, não é? Acho que se chama... — Angra dos Reis — completou Danny. Lembrou-se de Eric, o espadarte que avisara sobre a água contaminada do litoral carioca. Danny se perguntou se os peixes daquela faixa litorânea estariam bem. Será que poderiam fugir a nado rapidamente? — Está tudo uma loucura. O governo não sabe o que faz; ninguém quer tomar providência em relação às moradias destruídas lá perto. Para variar, o Brasil está se afundando em sua própria m***a. Ashley arqueou as sobrancelhas, surpresa. Danny não queria ter soado de tal maneira, tão irritado com o próprio país, mas ele não podia evitar. Ninguém com bom senso gostaria de viver no Brasil - talvez pelo mar e pelas ondas, mas ainda assim não eram bons motivos para continuar ignorando a ineficiência do governo brasileiro. Tony assentiu, pensativo. Ele andava em círculos pelo salão, gesticulando e por vezes murmurando algo para si mesmo. Era quase hilário vê-lo assim, não fosse a situação desesperadora em que se encontravam. Ashley se apresentou de novo para Hayley, agora dizendo que vinha de Los Angeles e as duas entraram em uma conversa que Danny não conseguiu prestar atenção, observando Tony atentamente. — Acho que sei por que estamos aqui — Tony anunciou dez minutos mais tarde. Seu tom de voz deixava claro que nenhuma coisa boa estava por vir. — Eu sei que vocês têm poderes inexplicáveis. Eu também tenho. E o urânio roubado das usinas pode ter algo a ver com esse salão e nós surgindo aqui do nada. — Como? — perguntou Ashley. Ninguém tentou contestar Tony sobre seus poderes, o que provou a teoria de Danny verdadeira. A ventania fora causada ou por Tony ou por Ashley. Eles dominavam um elemento cada. Ninguém comemorou, ninguém quis ver como os poderes do colega ao lado funcionavam. Não houve nenhum "Somos super-heróis adolescentes e merecemos um pouco de paz ou arrasar com o próximo quarto de hotel que nós entrarmos". Eles sabiam que, quem quer que tivesse os reunidos ali, queria a sua ajuda e que a tarefa não seria nada fácil. — Não sei - admitiu Tony. — Há uma teoria para nossos poderes, mas eu sempre pensei que alguém me explicaria e não que eu tivesse que explicá-los aos outros três. Ashley rolou os olhos e avançou para Tony. No mesmo momento, o chão tremeu impetuosamente. Danny agarrou a mão de Hayley e olhou para os lados, desesperado em busca de um lugar para esconder-se. Ele nunca tinha estado em um terremoto, mas vira muitos filmes sobre o assunto. Se fosse um tremor forte, e dependendo da construção, o teto poderia desabar em cima deles. — Diga algo que valha a pena eu não socar sua cara inteligente! — Ashley exclamou furiosa, puxando Tony pela gravata de seu uniforme escolar. O garoto engoliu em seco, embora parecesse bem calmo. Embaixo de seus pés, tudo ainda tremia. — Você me cansa, garoto! Tony jogou Ashley para longe dele com uma lufada de vento poderosa. Os olhos de Danny arregalaram quando o garoto puxou o ar do salão e uniu em sua mão como uma bola de basquete. A boca de Ashley estava entreaberta, olhando para Tony, apavorada. Hayley largou o braço de Danny; ele sequer percebeu que a garota estava começando a entrar em chamas. O terremoto ainda acontecia, mas nada caía em cima deles. Danny se viu embaixo de um lustre de vidro que sacolejava violentamente, mas não ameaçava cair. Ótimo, ele pensou desgostoso. Não havia uma única gota de água para que pudesse se defender da loucura que acontecia ao seu redor. Danny se sentiu um inútil. Não podia proteger Hayley, que agora tentava apagar o fogo em seu braço e muito menos tinha voz para apartar a briga entre Tony e Ashley. Não era isso o que ele tinha em mente ao perceber que estava em um time de superpoderosos. — BASTA! — Um rugido gutural chegou aos ouvidos dos quatro que fez o garoto pular assustado. O terremoto cessou instantaneamente. As bolas de ar que Tony segurava se espalharam pela sala. Hayley apagou o último vestígio de fogo em sua roupa e olhou em volta, procurando o dono da voz. Danny se virou para o portal de onde Tony e Ashley tinham entrado e se deparou com um homem de quase 2 metros de altura, caminhando para o centro da sala como se controlasse o local. Ele tinha a pele morena, bronzeada de sol como a de Danny, com cabelos brancos longos presos em um r**o de cavalo. O homem usava um terno branco, e uma gravata vermelha-sangue. Com certeza ele sabia se impor numa sala com adolescentes poderosos brigando entre si. O queixo de Tony caiu à medida que o homem se aproximava dele. — Não acredito que não posso deixar vocês por cinco minutos sozinhos — o homem disse, parecendo decepcionado. — Pensei que fossem melhores do que isso. Danny não entendeu por que ele estava os comparando — ou com quem o homem os estava comparando, na verdade —, mas permaneceu quieto. Hayley e Ashley também estavam atônitas demais para falarem algo, então Tony deu um passo à frente, pigarreou e disse: — Lamentamos muito pelo ocorrido, senhor. Estamos apenas... tentando lidar com o que está acontecendo. O homem arqueou as sobrancelhas de maneira incrédula. Danny quis rir da expressão que se seguiu no rosto de Tony, mas Hayley o cutucou nas costelas, e ele inteligentemente transformou sua risada em um acesso de tosse. Imaginou que, se risse do garoto, não teria como se defender dos ventos que iria jogar para cima dele. Ainda não tinha visto ou sentido nenhuma molécula de água no local. — Penso que sim — concordou o homem, caminhando em círculos. — Eu creio que saibam por que estão aqui, ou se não, já têm uma ideia. Danny negou com a cabeça, assim como Hayley e Ashley. Tony não disse ou fez nenhum movimento para confirmar o que o homem havia dito. O garoto parecia em choque. A testa franzida, os olhos pensativos, os lábios fechados em uma fina linha.... Danny conhecia a expressão: Tony estava tentando descobrir de onde conhecia o homem. Ashley ergueu a mão timidamente. — Não sei o que está acontecendo, nem quem você é — ela disse quando o homem lhe deu a palavra. — Só sei que eu estava indo para um teste de televisão na minha cidade com um amigo meu e, do nada, estava aqui ao lado desse... — Cuidado com o que diz — avisou Tony, sério. O chão tremeu de leve. — Teste de televisão? Tipo, para um papel em uma série na TV? — Hayley interrompeu, confusa. — Onde você mora? — Los Angeles — respondeu Ashley como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ela olhou para Danny e indagou: — Você é do Brasil, certo? Onde vocês moram? — Berlim - disse Tony. — Melbourne, mas sou do Canadá — disse Hayley. — Parte francesa ou inglesa? — questionou Ashley. — Francesa. O homem de terno branco os observava com uma expressão divertida no rosto. Ashley parecia estar tão concentrada que Danny podia ver as engrenagens do cérebro dela trabalhando freneticamente. Tony colocou as mãos no bolso e os fitava tediosamente e mais parecia que ele já entendera tudo o que acontecia. Os únicos a continuarem completamente em branco eram Hayley e Danny. — Quem aqui fala inglês fluentemente? — perguntou Ashley, ignorando o homem inteiramente. Todos levantaram a mão. Danny achou a pergunta meio redundante. Não havia uma pessoa hoje em dia que não tinha um conhecimento básico de inglês. O que ele não havia aprendido na escola, a internet lhe havia ensinado. Mas, em nenhum momento desde que chegara ao templo, ele pensara ou falara em inglês com ninguém. — Suponho que ninguém aqui saiba português, certo? — Danny abaixou a mão, em dúvida. Apenas Tony concordou com ele. — Tive aulas de português quando era criança, mas era com um professor de Portugal — ele disse. — Não acho que entenderia um brasileiro se falássemos. Além disso, eu estava falando em alemão. Parece que seria e******o perguntar se qualquer um de vocês fala a minha língua. Danny engoliu em seco. Ele e Tony estavam falando uma língua diferente das garotas. Mas, de alguma forma insana, eles estavam se entendendo tão bem a ponto de começarem discussões entre si. O homem de terno branco parecia se divertir mais ainda enquanto a compreensão invadia o rosto dos garotos. — Vocês estão falando uma língua em comum — o homem falou. Voltara ao tom sério e capturara a atenção de todos. — Grego Arcaico. Tony quase engasgou. — Isso é impossível. Grego Antigo foi extinto dois mil anos atrás. Embora se tenha notícia de pergaminhos contendo a língua, ninguém sabe falá-la. O homem deu uma breve risada. — Você percebeu quem eu sou, não foi? — ele indagou claramente a Tony. — Se acreditou em tudo que aconteceu até agora, porque não pode acreditar que está falando Grego Antigo? — A loucura tem seus limites — respondeu Tony com frieza. O ar ao redor deles ficou ligeiramente mais gelado. Os olhares de Danny, Hayley e Ashley iam e voltavam entre Tony e o homem de terno branco. Estava implícito que nenhum deles deveria se intrometer na discussão que se seguia - principalmente por que eles não tinham ideia nenhuma do que acontecia entre os dois. — Quem é você? — Hayley foi direto ao assunto, chamuscando a camiseta do uniforme. — O que estamos fazendo aqui?! O homem de terno branco voltou seu olhar para a garota. Ela se encolheu apavorada e seu ombro pegou fogo inesperadamente. Ashley pulou para o lado e esbarrou sem querer em Tony, que a afastou com uma ventania irritada. Danny revirou os olhos e tentou acalmar Hayley. — TODO MUNDO, QUIETO! — exclamou o homem, aborrecido. Danny extinguiu a última chama que saía do corpo de Hayley e separou Tony de Ashley com um empurrão. Quando os três quiseram retaliar, ele fez um sinal de silêncio. Cansara-se de todo aquele drama. Ele queria saber dos poderes que tinha e como tudo se encaixava, porém parecia impossível com a discussão sem fim entre Tony e Ashley. — Meu nome é Aristóteles — o homem falou assim que todo mundo ficou em silêncio. — Os quatro estão aqui por causa dos poderes que possuem, e pelos roubos de urânio.
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