bc

O Herdeiro do Morro e a Faxineira

book_age18+
31
FOLLOW
1K
READ
HE
friends to lovers
blue collar
like
intro-logo
Blurb

Desde muito jovem, Sofia aprendeu que a vida nunca lhe daria nada de graça. Trabalhando como faxineira em várias casas da comunidade, ela luta diariamente para colocar comida na mesa e cuidar da família. Humilhada por quem acredita ser melhor do que ela, Sofia carrega suas dores em silêncio, sem imaginar que seu destino está prestes a mudar.Caio é o herdeiro do morro. Filho do traficante mais poderoso da região, foi criado para assumir o comando e manter o respeito conquistado pelo pai. Frio, temido e acostumado a conseguir tudo o que quer, ele jamais imaginou que uma simples faxineira seria capaz de despertar sentimentos que nunca conheceu. Tudo muda quando Caio encontra Sofia chorando após sofrer uma c***l humilhação. A tristeza estampada em seus olhos mexe com algo dentro dele que nenhuma arma, dinheiro ou poder conseguiu alcançar. Pela primeira vez, o futuro dono do morro sente vontade de proteger alguém. Enquanto o amor cresce entre eles, inimigos surgem de todos os lados. Entre disputas pelo poder, segredos perigosos e preconceitos que tentam separá-los, Sofia e Caio precisarão decidir se estão dispostos a arriscar tudo por um sentimento proibido.

chap-preview
Free preview
Lágrimas no pano de chão
Sofia narrando O cheiro de desinfetante já faz parte de mim. Eu respiro e sinto cloro, cera, sabão em pó. As mãos calejadas não lembram mais o que é tocar algo macio sem sentir dor. São seis horas da manhã quando eu passo a chave na casa da senhora Marlene. Ela é a mais fácil do dia. Uma cobertura no asfalto, três andares, mármore brilhando. Pelo menos ela me deixa um copo d'água e não fica em cima. Só quer o serviço pronto, sem conversa. — Faxineira, não esquece de lustrar o espelho do quarto. Ontem ficou marcado. Ela nem me chama pelo nome. — Sim, senhora. Sorrio. Sempre sorrio. Aprendi cedo que sorrir dói menos que revidar. Ajoelho no chão da sala e começo a passar o pano. Ajoelhada. Sempre de joelhos. Porque é assim que eles gostam de ver a gente: abaixo. Mais baixo que o tapete persa que custa mais que meu aluguel de três meses. O pano desliza devagar. Vou empurrando a poeira, os fios de cabelo, os restos de vida alheia que ninguém quer ver. Ninguém quer saber que a sujeira existe. Só querem que suma. E eu sou a mágica que faz desaparecer. Às nove, termino. — Ficou bom — ela diz, jogando o dinheiro em cima da mesa da cozinha. Uma nota dobrada, amassada. Nem olha na minha cara. — Tem mais casas hoje? — Tenho, sim, senhora. — Então vai. Não atrapalha. Pego a nota. Cinquenta reais. Cinco horas de trabalho. Dez reais por hora. Menos que o salgado que ela come no intervalo do clube. Não reclamo. Guardei o dinheiro no bolso da calça jeans surrada e desço os três andares de escada porque o elevador é só para moradores. Eu sei a regra. A segunda casa é pior. Dona Célia. Moradora antiga da comunidade, mas que conseguiu subir na vida. Casou com um empresário, mudou para o condomínio, e agora age como se nunca tivesse pisado na favela. — Ah, lá vem a menina — ela diz, me vendo chegar. O tom é doce, mas os olhos... os olhos são de crocodilo. Eu entro e já sinto o peso. A casa dela é grande, mas o que me espera hoje é pior que o normal. Ela está de m*l humor. O marido viajou, o filho tirou nota baixa na escola. Eu sou o saco de pancada mais conveniente. — Você viu o que fez na semana passada? Deixou a mancha no sofá branco. Tive que chamar uma empresa especializada. Mas não fui eu. Eu sei que não fui eu. A mancha já estava lá quando cheguei. — Senhora, me desculpe, mas eu... — Não me venha com desculpa. Você faxineira é tudo igual. Preguiçosa. Faz nas coxas. Acha que a gente não percebe. Engulo seco. — Vou limpar com mais cuidado hoje, dona Célia. — Cuidado? Cuidado era você ter vergonha na cara e fazer direito. Ela começa a andar pela casa, me seguindo enquanto eu passo pano. Cada vez que eu me abaixo, ela acha um motivo para reclamar. — Esse canto, Sofia. Tá vendo esse canto? Tem teia. Você é cega? Levanto rápido. O balde quase vira. — Vou pegar a vassoura, senhora. — É, vai. E depois passa pano de novo. Na raiva, porque no amor você não faz. Ela ri de mim. Eu não rio, só mordo a língua. São quase quatro horas da tarde quando termino. Ela me paga com um sorriso falso e ainda diz: — Dei um pouco mais porque você precisa. Deus ajuda quem cedo madruga, não é? Quarenta reais. Ela me pagou quarenta reais por sete horas. Guardo. Não reclamo. Preciso do dinheiro. Na saída, o portão range. O sol da tarde machuca os olhos. Subo o morro arrastando os pés, a sacola com os panos sujos batendo na perna. — Sofia! — escuto. É dona Lurdes, da venda. Velha boa, sempre me dá um desconto. — Oi, dona Lurdes. — Tá cansada, menina? Quer uma água? — Quero, sim. Ela me dá um copo. Bebo ali mesmo, na calçada. — Sua mãe passou aqui hoje. Tava procurando remédio. O Joãozinho tá com tosse de novo. O peito aperta. — Vou levar amanhã. Hoje não deu. Minto. Não deu porque o dinheiro não deu. Porque o dinheiro nunca dá. Chego em casa. Barraco de dois cômodos, piso de cimento queimado, fiação exposta. Minha mãe está na cozinha, mexendo uma panela vazia. — Não tem quase nada, filha — ela diz, sem virar o rosto. Meu irmão mais novo, João, está deitado no colchão no canto. Cinco anos. Febre. Olhos fundos. — Amanhã eu compro — falo. Mas eu não sei se vou conseguir. A conta de luz chegou. A água atrasou. Coloco o dinheiro na mesa. Minha mãe conta, morde o lábio. — Só cento e vinte? Trabalhou ontem e hoje? — Cento e vinte. Ela não pergunta o que aconteceu. Sabe que perguntar dói mais que saber. A noite cai. Subo para a laje. Pouca gente tem laje aqui, mas a gente construiu com tábua e fé. Lá de cima, vejo o asfalto brilhando lá embaixo. As casas grandes, as piscinas. Lá em cima, o morro. Lá embaixo, eles. Aqui, eu. Meu lugar é sempre esse: entre o chão que limpo e o céu que não posso tocar. Sento no cimento frio. O vento vem, traz o cheiro de mato, de esgoto, de vida dura. E aí... aí eu não aguento. As lágrimas vêm. Não aquelas lágrimas de novela, bonitas, escorrendo devagar. Não. São lágrimas feias. Sufocadas. Que queimam a garganta e saem como se fossem rasgar os olhos. Choro de verdade. Com o corpo tremendo, o nariz escorrendo, os ombros sacudindo. Por que a vida é tão pesada? Por que eu tenho que limpar o chão que eles pisam enquanto eles pisam em mim? Por que João está doente? Por que minha mãe chora no escuro quando pensa que ninguém vê? Enterro o rosto nos braços. O pano de chão que usei hoje ainda está na sacola. Molhado. Sujo. Cheirando a desinfetante e humilhação. As lágrimas escorrem e caem no pano. Lágrimas no pano de chão. Talvez seja isso que eu sou. Um pano. Algo que se usa, se torce, se joga no canto quando acaba o serviço. — Sofia! — minha mãe chama lá de baixo. — Vem comer, filha. É pouco, mas é quente. Limpo o rosto com as costas da mão. Levanto. Vou descer e comer o que tiver. Vou dormir e amanhã levantar de novo. Porque a vida não me deu outra escolha. Ajoelhada, de pano na mão, calada. Mas antes de descer, ainda olho para o céu. Alguma estrela aparece. Poucas. A luz da cidade lá embaixo apaga quase todas. — Um dia — sussurro para ninguém. — Um dia eu vou parar de limpar a sujeira dos outros. Desço as escadas. Lá fora, em algum lugar que eu ainda não sei, alguém está prestes a ver minhas lágrimas pela primeira vez. E tudo vai mudar.

editor-pick
Dreame-Editor's pick

bc

Unscentable

read
1.9M
bc

He's an Alpha: She doesn't Care

read
738.0K
bc

Claimed by the Biker Giant

read
1.6M
bc

Holiday Hockey Tale: The Icebreaker's Impasse

read
971.9K
bc

A Warrior's Second Chance

read
354.9K
bc

Not just, the Beta

read
346.2K
bc

The Broken Wolf

read
1.1M

Scan code to download app

download_iosApp Store
google icon
Google Play
Facebook