Pedroca Narrando
Meu nome é João Pedro, mas quase ninguém me chama assim.
Em Santo Amaro, sou Pedroca.
Tenho vinte e dois anos e sou o braço direito do Leonardo.
Ou, como ele prefere dizer, o sub dele.
Conheço Leonardo há anos. Crescemos praticamente juntos, passamos por muita coisa lado a lado e, quando ele começou a ganhar espaço dentro do morro, eu estava ali.
Hoje, se alguém precisa falar com ele e não consegue, fala comigo.
Se ele precisa de alguma coisa, eu resolvo.
Se acontece alguma merda no morro, provavelmente eu já estou sabendo antes mesmo de chegar até ele.
É assim que funciona entre nós.
Leonardo é mais fechado.
Eu já sou o contrário.
Gosto de conversar, gosto de provocar e, principalmente, gosto de tirar Leonardo do sério.
É uma das poucas diversões que tenho.
E, naquela manhã, eu ganho meu entretenimento antes mesmo das oito.
Porque eu estava exatamente ao lado dele quando Maya parou no meio da rua, olhou para o meu amigo com aqueles olhos enormes e simplesmente anunciou:
— Quando eu crescer, eu vou casar com você.
Eu juro que ainda não sei como Leonardo conseguiu ficar sério.
Eu quase caí no chão de tanto rir.
Nunca vi uma p***a dessas.
Uma menina de doze anos simplesmente decide quem vai ser o marido dela e comunica o escolhido como se estivesse avisando que vai passar na padaria depois da escola.
E o pior?
Ela fala com uma convicção que chega a ser engraçada.
Não é brincadeira.
Na cabeça dela, está decidido.
Leonardo é o homem da vida dela.
Fim.
Desde que conheço Maya, ela é assim.
Espontânea.
Sem filtro.
Fala o que pensa e não parece ter vergonha de absolutamente nada.
Mas aquela história com Leonardo é diferente.
Porque não é a primeira vez.
Ela vive olhando para ele.
Vive procurando saber onde ele está.
E, se tiver uma oportunidade de falar com ele, aproveita.
Eu já vi.
Só que hoje foi a primeira vez que ela simplesmente anunciou para o mundo inteiro que vai casar com ele.
E, por algum motivo, aquilo fica na minha cabeça.
Talvez porque sempre ouvi dizer que o sentimento de uma criança é o mais genuíno que existe.
Criança não calcula.
Não pensa no que vai ganhar.
Não pensa no que os outros vão achar.
Ela simplesmente sente.
E talvez seja isso que me faça pensar uma coisa que nem deveria estar pensando.
Dez anos.
Daqui a dez anos, Maya terá vinte e dois.
Leonardo terá trinta.
A diferença que hoje parece enorme já não vai parecer tão absurda.
Os dois serão adultos.
Balanço a cabeça.
— Que p***a eu estou pensando?
Leonardo olha para mim.
— O que foi?
— Nada.
Ele estreita os olhos.
— Você está com uma cara estranha.
— Eu estava pensando na Moana.
— Pedroca...
— Calma, c*****o. Não estou falando de agora.
Ele continua me encarando.
— Então está falando de quê?
Dou de ombros.
— Daqui a dez anos.
Ele solta uma risada desacreditada.
— Você é maluco.
— Talvez.
Olho para a rua por onde Maya acabou de desaparecer.
— Só acho que ela não esquece.
Leonardo balança a cabeça.
— Ela é uma criança.
— Eu sei.
— Isso vai passar.
Olho para ele.
— Talvez.
Não discuto.
Porque, no fundo, também não sei.
Só sei que, depois de ver a maneira como aquela menina olha para Leonardo, alguma coisa me diz que essa história ainda vai render.
E eu conheço Leonardo.
Se tem uma coisa que eu aprendi nesses anos todos é que ele odeia perder o controle das situações.
Só que ele ainda não sabe que existe uma menina de doze anos capaz de fazer exatamente isso sem sequer tentar.