Tatiane Narrando ( Mãe da Maya)
Eu seguro a mão da minha filha enquanto caminhamos em direção à escola.
Ou tento segurar.
Porque Maya parece ter energia para correr o morro inteiro antes das oito da manhã.
— Anda direito, menina.
— Eu estou andando direito, mãe.
Olho para os pés dela.
— Você está pulando.
Ela dá de ombros.
— É quase a mesma coisa.
Eu balanço a cabeça, tentando não rir.
Essa é a minha filha.
Maya.
Ou melhor, Moana.
Foi assim que as crianças começaram a chamá-la quando ela era pequena. Diziam que ela parecia com a personagem e, sinceramente, eu não consigo nem discordar.
Os cabelos cacheados, o jeito agitado, a curiosidade, a coragem de falar o que pensa...
Ela realmente parece.
E o apelido acabou pegando.
Hoje, se eu gritar “Maya” no meio do morro, talvez metade das pessoas nem saiba de quem estou falando.
Mas se eu gritar “Moana”, minha filha aparece.
Moana sempre foi uma criança espevitada, levada e com uma autenticidade que até hoje eu não consigo explicar.
Ela é completamente diferente de mim.
Eu sou tímida.
Daquelas pessoas que têm boca e não falam.
Sou muito na minha. Gosto de ficar quieta, observar, cuidar da minha vida e não chamar atenção.
Minha filha não.
Minha filha fala com Deus e o mundo.
Ela conversa com qualquer pessoa como se conhecesse há anos.
Às vezes, estou andando com ela pelo morro e alguém que eu nunca vi na vida grita:
— Moana!
E ela responde:
— Oi!
Como se fossem velhos amigos.
Eu fico olhando sem entender.
Até hoje existem pessoas aqui dentro que conhecem minha filha e eu sequer sei o nome.
Ela simplesmente tem esse jeito.
Essa facilidade de chegar nos outros.
Essa coragem que eu nunca tive.
Só que existe uma coisa sobre Moana que, até hoje, eu não consigo explicar.
Leonardo.
Eu suspiro só de pensar.
Minha filha é apaixonada por ele.
E não é de hoje.
Já faz um tempo que ela decidiu que Leonardo é o homem com quem vai se casar.
Eu já conversei com ela diversas vezes.
Já expliquei que ela é uma criança.
Que Leonardo é adulto.
Que esse tipo de sentimento pode acontecer quando somos pequenos, mas que isso não significa que vai durar para sempre.
Ela escuta.
Balança a cabeça.
Concorda comigo.
E, cinco minutos depois, está falando novamente que vai casar com ele.
No começo, eu achei engraçado.
Toda criança tem suas paixões.
Mas Maya levou isso tão a sério que comecei a me preocupar.
Não porque eu ache que exista alguma coisa errada com ela.
Muito pelo contrário.
Eu sei que minha filha é uma criança.
Sei que o que ela sente é inocente.
Mas as pessoas nem sempre enxergam as coisas da mesma maneira.
E é justamente isso que me preocupa.
Eu já conversei com uma psicóloga sobre o assunto.
Levei Maya até ela porque queria entender se aquilo era apenas uma fase ou se havia alguma coisa que eu não estava percebendo.
A psicóloga conversou com ela.
Conversou comigo.
E explicou que aquilo era um amor platônico infantil.
Uma paixão.
Uma fantasia.
Algo completamente comum nessa idade e que, provavelmente, passaria conforme Maya crescesse.
E estamos aí até hoje.
Eu sinceramente não sei quando essa menina pretende desistir.
Porque, na cabeça dela, não existe dúvida.
Leonardo é o futuro marido.
Fim.
— Mãe?
Olho para ela.
— Oi?
— Você está pensando nele?
Eu paro de andar por um segundo.
— Em quem?
Ela me olha como se eu tivesse acabado de fazer a pergunta mais i****a do mundo.
— No Léo.
Respiro fundo.
— Maya...
Ela começa a rir.
— Eu sabia!
— Você não sabe de nada.
— Sabe que eu vou casar com ele.
— Você não vai casar com ele.
— Vou.
— Maya, pelo amor de Deus.
Ela ri novamente.
É exatamente disso que estou falando.
Eu converso.
Explico.
Oriento.
Mas, às vezes, existem coisas que simplesmente fogem do meu controle.
Porque quando eu percebo...
Ela já falou.
Já contou para alguém.
Já declarou para o próprio Leonardo que vai se casar com ele.
E hoje mesmo fez isso novamente.
Na frente de todo mundo.
Eu ainda sinto meu rosto esquentar quando lembro.
— Quando eu crescer, eu vou casar com você.
Eu quase quis desaparecer.
Leonardo ficou completamente sem reação.
E, para piorar, Pedroca estava ali.
Aquele homem quase morreu de tanto rir.
— Mãe?
— O quê?
— Você está brava comigo?
Olho para minha filha.
Ela realmente parece preocupada.
Eu aperto sua mão.
— Não estou brava com você, meu amor.
— Então por que você ficou daquele jeito?
— Porque eu quero que você entenda uma coisa.
— O quê?
— Você pode gostar de quem quiser. Pode achar alguém bonito, pode ter uma paixonite, pode até dizer que vai casar com alguém...
Ela sorri.
— Eu vou casar com o Léo.
— Maya.
Ela ri.
— Tá bom, mãe.
Continuo andando.
— Mas você precisa entender que algumas coisas podem ser m*l interpretadas pelas pessoas.
Ela fica quieta.
— Você ainda é uma criança — continuo. — E Leonardo é adulto. Então tenha cuidado com o que você fala.
Ela olha para mim por alguns segundos.
— Mas eu não estou fazendo nada errado.
Meu coração aperta.
Porque ela tem razão.
Ela realmente não está.
— Eu sei, filha.
Passo a mão pelos cabelos dela.
— Eu sei.
E talvez esse seja o maior problema.
Porque não existe maldade nela.
Só existe uma menina de doze anos que acredita, com toda a certeza do mundo, que um dia vai se casar com o homem que acha mais bonito, forte e incrível que já conheceu.
E, enquanto ela acredita nisso...
Eu só posso torcer para que o tempo faça o trabalho que eu não consigo fazer.
Fazer minha filha crescer.
E esquecer.