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979 Words
Leonardo Narrando Eu estou encostado na minha moto, de braços cruzados, observando o movimento de Santo Amaro começar. Ainda é cedo, mas o morro já está acordado. Gente descendo para trabalhar, criança correndo para a escola, comércio abrindo, moto subindo e descendo as vielas. Eu conheço praticamente todo mundo por aqui e, mesmo quando não conheço, sei reconhecer quem é de fora. É assim que funciona. Aqui, eu preciso estar atento o tempo inteiro. — Você vai ficar aí com essa cara fechada até quando? — Pedroca pergunta ao meu lado. Olho para ele. — Que cara? Ele aponta para o meu rosto. — Essa aí. De quem quer matar alguém antes das oito da manhã. — Essa é minha cara normal. — Exatamente. Reviro os olhos e volto a olhar para a rua. Pedroca começa a falar alguma coisa sobre o movimento da noite anterior, mas eu paro de prestar atenção quando escuto uma voz que conheço muito bem. — LÉO! Fecho os olhos por um segundo. Não. Não pode ser. Olho para o outro lado da rua e encontro Maya. Doze anos. Uniforme escolar, mochila nas costas e os cabelos cacheados presos de qualquer jeito. Ela está andando ao lado da mãe, mas parece esquecer completamente que está indo para a escola no momento em que me vê. Ela abre aquele sorriso enorme. — Bom dia! Levanto a mão. — Bom dia, Maya. Ela vem na minha direção. A mãe continua andando por alguns passos até perceber que a filha ficou para trás. — Maya! — Já vou, mãe! Ela para na minha frente. — Você vai ficar aqui hoje? — Vou. — Até de tarde? — Provavelmente. Ela sorri. — Que bom. Franzo a testa. — Por quê? — Porque eu gosto quando você fica. Pedroca solta uma risada atrás de mim. Olho para ele de lado. — Não começa. Maya olha para Pedroca. — O que foi? — Nada, não — ele responde, segurando o sorriso. Ela volta a olhar para mim. — Você está bonito hoje. Eu fico alguns segundos sem saber o que responder. — Obrigado. — De nada. Ela continua parada. — Você não vai para a escola? — pergunto. — Vou. — Então vai. — Já vou. Ela não vai. Continua me olhando. Eu olho para a mãe dela, que está parada alguns metros à frente, claramente esperando pela filha. — Maya. — Oi? — Sua mãe está esperando. Ela olha para trás. Depois olha para mim novamente. — Eu sei. — Então vai. Ela finalmente se vira. Dou um suspiro aliviado. Até ela parar de novo. — Léo? — O quê? Ela coloca a mochila melhor no ombro. — Quando eu crescer... Já sei que vem alguma coisa. — O quê? Ela sorri. — Eu vou casar com você. Eu simplesmente fico olhando para ela. Acho que até esqueço de respirar. Pedroca fica em silêncio por dois segundos. Depois começa a rir. Maya olha para ele, sem entender. — Que foi? Eu finalmente encontro a voz. — O quê? Ela repete, completamente séria: — Eu vou casar com você. A mãe dela leva a mão à cabeça. — MENINAAAAAAA! Maya se vira. — Que foi, mãe? — Você está maluca? — Não. — Então por que você está falando que vai casar com o Leonardo? Ela me aponta. — Porque eu vou. Eu olho para Pedroca. Pedroca olha para mim. Depois começa a rir ainda mais. — Para de rir — falo. — Eu não consigo. A mãe de Maya vem até nós e segura a filha pelo braço. — Você tem doze anos! — Eu sei. — Ele é adulto! Maya olha para mim. Depois olha para a mãe. — Quando eu crescer, eu também vou ser adulta. Eu aperto os lábios para não rir. A mãe dela percebe. — Não ri, Leonardo! — Eu não estou rindo. — Está sim! Maya aponta para mim. — Eu sabia. — Sabia o quê? — Que você gosta de mim. Eu quase engasgo. — Maya, pelo amor de Deus... Pedroca vira de costas. Esse desgraçado está rindo. — Eu nunca disse isso. — Mas você sorriu. — Eu sorri porque você é engraçada. Ela pensa por alguns segundos. — Então você gosta de mim. — Não foi isso que eu falei. — Mas vai gostar. A mãe dela fecha os olhos. — Eu vou enlouquecer. Eu passo a mão pela nuca. Não sei lidar com isso. Não sei mesmo. Maya é uma criança. E eu não tenho absolutamente nenhuma intenção de alimentar essa ideia. — Maya, você precisa ir para a escola. — Eu sei. — Então vai. Ela começa a andar com a mãe. Antes de virar a esquina, porém, olha para trás. — Tchau, Urso! — Tchau. — Eu vou casar com você! A mãe dela puxa a menina pelo braço. — MAYA! Ela começa a rir enquanto corre. Eu fico olhando até as duas desaparecerem. Pedroca aparece novamente ao meu lado. — Então... — Não. — Eu nem falei nada. — Mas eu sei o que você vai falar. — Ela é apaixonada por você. — Ela tem doze anos. — Eu sei. — É uma criança. — Eu sei, Leonardo. Olho sério para ele. — Então para de graça. Ele levanta as mãos. — Tá bom. Ficamos alguns segundos em silêncio. Até ele começar a rir novamente. — O que foi agora? — Nada. — Pedroca. — Só estou imaginando você entrando na igreja. — Vai tomar no cu. Ele gargalha. Eu balanço a cabeça e volto a olhar para a rua. Maya é assim. Uma criança. Inocente. Falante. Sem filtro nenhum. E eu tenho certeza de que isso vai passar. Um dia ela vai crescer, conhecer alguém da idade dela e esquecer essa história de casamento. É o normal. Pelo menos é o que eu penso.
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