Daniella Paiva
O juiz de paz limpou a garganta, ignorando a tensão violenta que estalava entre mim e Guilherme como eletricidade pura.
— Estamos aqui para a celebração do matrimônio civil de Guilherme Sampaio e Daniella Paiva — começou ele, a voz monótona.
Cada palavra era um prego no meu caixão. Eu me sentia suja, pequena, uma transação comercial sendo finalizada entre dois homens cruéis.
Guilherme não tirava os olhos de mim. Era um olhar de posse, de quem já estava planejando como cobrar cada centavo investido no meu resgate.
— Guilherme Sampaio, é de sua livre e espontânea vontade aceitar Daniella Paiva como sua esposa? — o juiz perguntou.
— Sim — ele respondeu prontamente, a voz firme, carregada de uma arrogância que me fazia estremecer de raiva e medo.
Então, o juiz se voltou para mim. O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante. Eu podia ouvir a respiração ofegante do meu pai.
— Daniella Paiva, é de sua livre e espontânea vontade aceitar Guilherme Sampaio como seu esposo?
Minha garganta fechou. O "não" estava na ponta da língua, vibrando para ser gritado aos quatro ventos.
Olhei para Guilherme e vi um desafio em seu rosto. Ele sabia que me tinha nas mãos. Ele era o monstro que habitaria meus pesadelos dali em diante.
Eu sentia o cheiro dele, o calor que emanava de seu corpo grande e intimidador. Ele era a minha destruição e, ao mesmo tempo, minha única saída.
— Sim... — sussurrei, sentindo uma parte de mim morrer naquele exato momento.
— Então, pelo poder a mim conferido, eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Guilherme não esperou. Ele envolveu minha cintura com um braço de ferro e me puxou contra o seu peito duro, anulando qualquer distância.
O beijo não teve nada de romântico. Foi bruto, possessivo, uma invasão que reivindicava território. Seus lábios esmagaram os meus com uma crueza que me deixou sem ar.
Meu primeiro beijo. E eu sonhei que seria com alguém que eu amava.
Era um beijo de domínio. Ele estava marcando sua propriedade diante de testemunhas, mostrando a todos quem agora mandava na minha vida.
Quando ele me soltou, eu estava trêmula, o gosto de vinho caro e de perigo impregnado na minha boca. Sentia o meu rosto queimar. Não sei se por vergonha ou pelo efeito daquele beijo.
— Bem-vinda ao seu novo inferno, Sra. Sampaio — ele sussurrou no meu ouvido, sua mão descendo perigosamente pela minha lombar.
Olhei para a mesa onde o contrato repousava. Minha assinatura estava lá, em tinta preta, como uma mancha de sangue no papel branco.
Eu não era mais Daniella, a faxineira orgulhosa. Eu era a posse de um homem quebrado, que buscava redenção através da minha ruína.
A festa, se é que se podia chamar aquilo de celebração, era um teatro de horrores onde eu era a atração principal e a vítima sacrificada.
— Parece que chegamos numa boa hora — ouvi a voz da Lilian daquele jeito meloso e parecia temerosa. Ao lado dela, o Sérgio. Parecia orgulhoso segurando a sua mão e temeroso em reencontrar o meu pai.
— Onde você esteve, Lilian? — Meu pai perguntou seguindo até ela, preocupado e furioso ao mesmo tempo — Sergio, temos muito o que conversarmos.
— Calma, papai. Eu estava em um hotel esperando tudo isso passar pra voltar.
— Você quase estragou tudo, Lilian. Imaginou se não tivesse outro jeito de resolvermos nossa situação?
— Que bom que tudo se resolveu, pai. Me desculpa, mas não podia me casar assim, com um estranho.
— Porque você fez isso, filha? Se casar assim, sem avisar. Sequer pudemos fazer um casamento digno de uma Paiva — veio a Lucrécia com sua hipocrisia e futilidade.
A filha dela era a Paiva que merecia um casamento requintado. Eu era a Paiva que poderia ser vendida.
Rômulo Paiva sorria agora, abraçando Guilherme como se fossem melhores amigos, ignorando o fato de ter acabado de vender a própria filha.
— Agora que já foi tudo resolvido, vamos comemorar — meu pai encerra a discussão — sua irmã aceitou o contrato e resolveu nossas vidas. Podemos planejar um grande casamento pra vocês já ninguém da sociedade sabe o que aconteceu.
— Sua filha parece não ter noção do que perdeu. Casar-se comigo não seria nenhum sacrifício — disse o agora meu marido, parece não ter gostados e ter sido preterido.
Eu me afastei do grupo, sentindo o peso do vestido azul sobre minha pele. Ele parecia mais pesado agora, como uma armadura de chumbo.
Guilherme se aproximou, ignorando os outros. Ele me cercou contra uma pilastra de mármore, seu corpo bloqueando qualquer fuga.
— Vamos embora. Não suporto mais um minuto nesta casa de hipócritas — ele ordenou, pegando meu pulso com firmeza.
— Eu nem peguei minhas coisas... — tentei protestar, mas ele me cortou com um olhar gélido.
— Você não vai levar nada daquela vida miserável. Eu vou reconstruir você do zero, Daniella. Começando por tirar esse trapo de você.
O tom de sua voz prometia uma noite onde o contrato seria cobrado em pele e suor.
E eu, presa entre o martelo e a bigorna, só podia esperar pelo impacto que essa noite causaria em minha vida.