Daniella Sampaio
Acordei com o sol invadindo o quarto, denunciando que eu não estava mais no meu colchão fino em meu quarto. O lençol de mil fios parecia queimar minha pele. Lembrei de onde estava e o que havia acontecido na noite anterior.
Olhei para o lado da cama e não havia ninguém. Minhas últimas lembranças da noite foi ouvi-lo pedir para que eu gozasse. Lembro de sentir algo tão intenso que fez meu corpo tremer e logo caí num sono de exaustão.
Sentia falta da minha mãe. O vazio no peito era uma ferida aberta. Eu me senti sozinha e vulnerável.
— Ele tirou minha virgindade — murmurei enquanto ia até o banheiro lembrando da situação que agora parecia constrangedora.
Nunca havia ficado nua na frente de ninguém. Praticamente nunca namorei. O que vou fazer, meu Deus? Será que ele gostou de f********o comigo? Esse homem pode ter as mulheres mais lindas do mundo. Por que implicar em casar logo comigo?
O homem que se dizia meu pai me entregou nos braços de um estranho sem olhar para trás. Como vou conviver com esse homem lindo de morrer e todo mandão. E ainda por cima muito gostoso. Senti dores na minha i********e e lembrei do momento em que ele me penetrou.
Que loucura, meu Deus!
Ainda me sinto exausta. Olhando pela janela de vidro a cidade que eu só conhecia a periferia, agora estava ali, nos Jardins. Em meio ao luxo que sempre rejeitei. Sentindo o corpo os efeitos de uma noite de amor que nunca imaginei viver.
— Serão apenas dois anos, Daniella. Você é forte e sairá dessa com a mesma dignidade que entrou — falei para mim mesma.
Precisava repor minhas energias e ter forças para enfrentar o que vinha pela frente. Imagino que ele vai me ignorar e fingir que nada aconteceu. Vou fazer o mesmo. Não ter expectativas. Isso tem um prazo de validade e eu não vou cair nessa de me apaixonar.
Acordei com muita fome. O estômago doía, lembrando que eu não havia me alimentado direito desde o início desse caos.
Fui até a cozinha e dei de cara com ele. Guilherme vestia um terno que parecia custar um apartamento. Enquanto eu estava envolvida em um lençol. Minhas roupas não estavam ali e eu não quis vestir nenhuma daquelas peças caras que comprou pra mim.
Senti meu rosto arder com o olhar que ele me direcionou. Mai uma vez. Será que eu vou reagir assim sempre que esse homem estiver por perto? Ainda mais agora depois de tudo que aconteceu.
Ele exalava aquela arrogância trivial de quem é dono do mundo, enquanto eu m*l era dona do meu destino. E agora nem sei se mandava no meu corpo traidor.
Fiquei parada, em silêncio, sem saber se voltava para o quarto ou se avançava. Ele percebeu minha insegurança e, com um gesto seco, apontou para a mesa.
— Tome café. Você tem um dia longo — disse ele, a voz fria como o gelo que ele tinha no lugar do coração. E esse comportamento causou sérios danos no meu.
Ele vai ignorar o que houve. Ele vai fingir que nada aconteceu. É o que todos fazem.
— Vou sair. Mas você receberá aqui alguns cabeleireiros e consultores de beleza para prepará-la. Temos um evento hoje à noite. E, tome isso aqui.
Ele joga uma sacola que parece ser de uma farmácia.
— Não usei camisinha ontem e isso é uma pílula do dia seguinte. Pra evitar surpresas e contratempos.
É tudo o que ele tem a dizer sobre ontem? Que tenho que tomar uma bomba de hormônios para não correr o risco de engravidar dele e ser um “contratempo.”
— Eu não quero ir a lugar nenhum, senhor Guilherme. Por favor — pedi, sentindo o nó na garganta. Não vou chorar na frente desse babaca.
Ele se aproximou, a aura dominadora me fazendo querer recuar. Olhou para o meu colo que estava exposto. Havia faísca naqueles olhos e eu fiquei paralisada.
— Não me chame de senhor. Sou seu marido e isso não é usual entre um casal.
— Você não tem escolha. É o aniversário do meu pai, Leonardo Sampaio. Preciso ir e você irá comigo. Esse é um dos motivos do acordo com seu pai.
Permaneço parada diante dele, me sentindo o pior ser humano do mundo. Fiz amor com um estranho, foi minha primeira vez e tudo o ouço ao acordar são ordens do que devo fazer.
— Ninguém pode saber que nos casamos ontem. Para o mundo, estamos casados há dois anos e acabamos de voltar de Londres.
— Mas eu não sei nada sobre você! — questionei, indignada. — Como vou fingir isso?
Ele jogou um envelope pardo sobre a mesa de mármore. O som do papel deslizando foi seco.
— Aí dentro tem todas as informações sobre mim que você precisa. Decore cada detalhe.
— E você? Você não sabe nada sobre mim — retruquei, tentando manter um pingo de orgulho.
— Sei o suficiente sobre a mercadoria que adquiri, Daniella. Não preciso de um manual para saber como usá-la. Suas palavras frias não condiziam com o fogo que os seus olhos me dirigiam.
Me senti mais nua do que nunca. Eu era apenas uma mercadoria.
Senti o tapa invisível das suas palavras. Humilhada e objetificada, assisti ele sair sem olhar para trás. i*****l arrogante.
O resto do dia foi um borrão de mãos me tocando, produtos químicos e ordens sendo dadas por um batalhão de estranhos. Massagistas, manicures, maquiadores... Fui tratada como uma boneca de luxo e sendo vestida para agradar a um comprador c***l.
Enquanto eles trabalhavam, li o dossiê. Guilherme Sampaio: o tubarão financeiro, o homem que não conhece a palavra derrota.
Fiquei surpresa ao descobrir que ele também era advogado. Pelo menos tínhamos algo em comum, além do ódio mútuo. Ou do desejo. Me dar conta disso me dava arrepios na pele.
A transformação foi radical. Quando finalmente pude me olhar no espelho, eu não reconheci a mulher que me devolvia o olhar.
O vestido preto de seda abraçava minhas curvas, a maquiagem ressaltava meus traços e meu cabelo brilhava como nunca. Até me achei menos gorda.
Eu estava deslumbrante, mas por dentro, eu ainda era a garota que limpava chão e temia pelo futuro da mãe doente. Depois daquela noite, temia por mim e pelos sentimentos que esse me despertava.
Guilherme mandou uma limusine me buscar. O trajeto até o local do evento foi uma tortura de ansiedade e revolta. Ao descer do carro, vi Guilherme me esperando. Ele parou. O choque em seu rosto foi impossível de esconder.
Ele não pôde conter a expressão de surpresa. Eu estava linda — ao menos era para estar — deslumbrante, uma joia lapidada mesmo que tivesse sido à força.
Ele se aproximou e, num gesto que me pegou desprevenida, beijou minha testa e ofereceu o braço.
— Mantenha o queixo erguido — sussurrou ele. — O show vai começar.
Eu aceitei o braço dele por pura necessidade de equilíbrio. O flash dos fotógrafos começou a disparar como metralhadoras.
Eu sentia a tensão dele. Guilherme respirou fundo, parecia temer o reencontro coma família que me parecia não ver a muito tempo. E eu não fazia ideia do porquê e do quanto isso me dizia respeito.