Guilherme Sampaio
Tentei ligar novamente para Daniella, mas a chamada insistia em cair na caixa postal. O silêncio da noite parecia zombar da minha inquietação.
Cheguei em casa e o vazio era absoluto. Imaginei que ela estivesse dormindo, exausta. No fundo, eu sabia que tinha sido um sacana.
Deixá-la sair sozinha daquele jantar, após ser humilhada daquela forma pela Lívia, foi um erro moral. Não a defendi.
Parei diante da porta do quarto dela. A vontade era bater, entrar e resolver a situação, mas o bom senso me segurou. Se ela estivesse dormindo, merecia o descanso.
Além disso, o cheiro do perfume de Lívia ainda estava impregnado em mim, um lembrete físico da minha própria confusão.
Acordei às sete com o despertador. Era hora de agir. No banho, as lembranças da noite anterior vieram com força total: o beijo com Lívia. O gosto era familiar, mas o sentimento era de perigo.
Eu precisava manter distância; ela ainda sabia como desestabilizar meu autocontrole.
Saí do banho e escolhi vesti uma camisa de algodão egípcio branco sob medida e um terno de corte italiano, em um tom cinza-chumbo profundo, moldava-se perfeitamente aos meus ombros largos, conferindo aquela aura de autoridade inquestionável que um CEO deve ter.
Calcei os sapatos de couro legítimo, e finalizei com um relógio de pulso que custava mais do que a maioria dos carros na rua. Eu parecia o homem que tinha o mundo aos seus pés, mas por dentro, a ansiedade começava a corroer minha fachada.
Segui para a cozinha, esperando encontrar Daniella, mas apenas Rosa, minha diarista, estava lá preparando o café.
— Onde está a Daniella, Rosa? — perguntei, tentando soar casual. — Não a vi hoje, senhor Guilherme. Achei que estivesse descansando.
Tomei meu café em silêncio e fui para o escritório que tinha em casa. Tentei trabalhar, mas os números nos relatórios não faziam sentido. Às dez da manhã, perdi a paciência. Fui até o quarto dela e bati. Uma, duas vezes. Nada.
— Daniella, venha tomar café. Precisamos conversar.
O silêncio foi a única resposta. Abri a porta de supetão e o choque me atingiu: o quarto estava intacto. A cama, perfeitamente arrumada, indicava que ninguém havia deitado ali. Ela não dormiu em casa. Onde aquela garota se meteu?
— Para o muquifo dela — concluí, sentindo a raiva borbulhar.
Peguei as chaves e saí. Se ela achava que o fiasco de ontem anulava nosso contrato, estava muito enganada. Enquanto dirigia, as palavras de Lívia sobre o peso dela ecoaram. Lívia foi c***l, mas não errou sobre minhas preferências habituais... ou errou?
Olhei para o lado oposto e pensei nas curvas de Daniella. Ela não estava acima do peso; ela tinha carne nos lugares certos, uma firmeza que, só de imaginar, fazia meu p*u reagir de forma inoportuna.
Já perto da rua onde ela morava, parei em um sinal. O trânsito de São Paulo estava um caos, mas meu foco foi desviado para o acostamento. Um carro parado.
Um homem abraçando uma mulher que chorava como se o mundo estivesse acabando. Ele acariciava o cabelo dela com uma i********e que me fez ver vermelho.
Eu conhecia aquele cabelo. Quando ela se afastou um pouco, meu coração disparou de ódio. Era ela. Minha mulher, no braço de outro.
Cego pela ira, abandonei meu carro no meio da faixa e caminhei a passos largos. Bati com força no vidro do passageiro, sentindo a vibração do impacto no meu punho. Eu queria quebrar aquele vidro. Queria tirar aquele sujeito de perto dela.
Daniella me olhou com os olhos esbugalhados, o pavor estampado no rosto banhado de lágrimas. Ela ajeitou o cabelo, limpou o rosto e abriu a janela, a voz embargada.
— Guilherme? O que você está fazendo aqui?
— O que eu estou fazendo aqui? — esbravejei, minha voz saindo como um trovão.
— Eu que pergunto: que p***a de cena é essa? — Apontei para o sujeito ao lado dela. Ele era jovem, bonito demais para o meu gosto, e tinha um ar protetor que me dava nojo.
— Eu...
— Desce desse carro. Agora! — interrompi, sem dar espaço para desculpas. As buzinas atrás de nós criavam uma sinfonia de estresse, mas eu não saia dali sem ela.
Ela deu um salto com o meu grito. Quando tentei abrir a porta, o tal homem segurou o braço dela.
— Ela só vai descer se quiser — ele disse, a voz firme, sustentando meu olhar com uma audácia que me deu vontade de socá-lo.
— Dani, você só vai se se sentir segura. Se quiser, eu fico aqui.
— Não se preocupe, Telles — ela respondeu, tentando se acalmar. Telles. O nome do babaca é Telles. — Vai ficar tudo bem. Eu te dou notícias depois.
Ela desceu do carro e me encarou. Mesmo com os olhos vermelhos e o corpo trêmulo, ela mantinha o queixo erguido. Atrevida.
— Não deixe de me avisar, está bem? — ele se dirige e a ele e faz esse pedido.
— Eu aviso, Dani...
— O nome dela é Daniella! — gritei, quase perdendo o controle.
— Vamos, senhor Sampaio — ela disse, usando um tom formal que me irritou ainda mais. — Estou à sua disposição.
— Não se refira a mim assim. Eu sou seu marido! — agarrei o braço dela, puxando-a em direção ao meu carro enquanto os motoristas ao redor nos xingavam até a décima geração.
Ela puxou o braço com força, libertando-se. — Ah, agora você se lembra que é meu marido? Ontem você teve uma amnésia conveniente e esqueceu disso!
Ela caminhou na frente, possessa. — Onde está a droga do seu carro? Vamos embora logo!
Ela estava tão furiosa quanto eu. Por um segundo, me perguntei se ela desconfiava do que houve com Lívia, ou se era apenas o rancor pelo abandono no jantar.
— Vamos para o meu apartamento — ordenei, abrindo a porta para ela. Ela entrou sem olhar para o painel luxuoso ou para o conforto do couro, como se estivesse entrando em um táxi qualquer.
— Preciso passar na minha casa antes. Tenho coisas para pegar.
— Você não tem nada para pegar naquele muquifo ridículo, Daniella.
— Aquele muquifo ridículo é a minha casa, comprada com o meu esforço! — ela disparou, a voz cortante como uma lâmina. — Se não quiser sujar seus sapatos italianos ou suas roupas de grife, deixe que eu vou sozinha.
O rancor nas palavras dela era palpável. Senti que tinha tocado em uma ferida profunda. Resolvi ceder, engolindo o orgulho momentaneamente. Aquela conversa estava apenas começando.