Entendi nada o Jd trazendo dono da Vila pra cá, mas relevamos. Eu tinha arrumado o Pietro todinho que estava todo animado pra festinha. O mês inteiro, não paramos um segundo sequer. Correndo de um lado para o outro por aí, buscando o que combinei e tinha feito até trocas, andando até a estação de Camará e indo pra Deodoro buscar as coisas, fiz vários rolos e desenrolos, até no mercadão de Madureira tive que ir.
Minha avó estava falando que ia beber até cair, a velha é doida.
Tu acha que eu vou deixar? Deixo nada. Tá em condições não, já se foi o tempo.
- Luazinha - minha avó choraminga e rio - Uma cervejinha pra sua vó, só uma - reclama fazendo bico e a abraço por ser tão fofa - Pedi aquele moço cheio de tatuagens, e ele não quis me dar. Acredita que nem o neto que eu troquei as fraldas me ajudou? Você e Luan, são dois ingratos.
- É para o seu bem, velhinha - beijo sua cabeça - Vai fazer fofoca com a Neiva.
- Neiva do céu - minha avó grita chamando atenção e só gargalho dela que vai até a Neiva. Eu amo essa mulher. Entrei na cozinha pelas portas do fundo que fica ali no quintal de trás mesmo e vi Carol mexendo em alguma panela.
- Tá comendo antes, viada - chego dando susto nela - Ala, se tivesse fazendo coisa certa, não se assustava.
- Se ferrar, Lua - rir e monta um cachorro quente pra ela - Não aguentei, muita fome - faz bico e come.
- Cadê o Pietro?
- Com o Luan - responde e concordo.
- Ela só quer quem é do corre - Luan chega na cozinha cantando e dançando.
- Cadê o Pietro? - pergunto reparando que ele não está com a criança.
- Não tá contigo, Lua? - pergunta.
- Tá vendo o Pietro no meu braço, Luan? - falo indignada - Cadê meu sobrinho?
- Roda que nem pião o moleque, vai de braços abertos pra todo mundo - fala dando de ombros.
- Motivo pra se preocupar, i****a - bato nele e saio dali procurando pelo Pietro - Jd - o chamo que vem até a mim.
- Fala, Lua - me estende um pedaço de carne e abro a boca e ele coloca.
- Isso tá bom - ele concorda com a cabeça e sorrir - Viu o Pietro?
- Tá ali ô - aponta e sigo com o olhar. Vejo que o Pietro está com o...
— Tá ali ô — aponta e sigo com o olhar. Vejo que o Pietro está com o... Acho que é Fofão o vulgo dele, sei lá.
— Ele tá com o Fofão que está dando dinheiro pra ele?
— Que Fofão? — gargalha da minha cara — É Lobão, doidona.
— Tanto faz — dou de ombros — Eu não acredito — ando até ele e cruzo os braços bem na sua frente.
— Qual foi, mina? — ele pergunta cínico.
— Agora você deu pra colocar dinheiro na mão de uma criança? — pergunto debochada.
— Moleque entende já, po. Desde menorzinho já sabe o que é peixe — responde e fico surpresa com tanta palavra desconexa.
— Pietro só tem três anos.
— Pode dá dinheiro não?
— Tirando que ele vai rasgar como qualquer papel? Nenhum problema — finjo dá de ombros.
— Tua mãe é chatona, moleque — ele fala pro Pietro.
— Sou tia, i****a.
— Tu tem noção do que tá falando, né? — concordo — E com quem, né? — concordo outra vez — Gosta de desafiar. Pode pegar o menino, mordo não.
— Algum momento eu disse que iria fazer algo com ele? Não vou desconfiar porque chegou do nada...
— Eu sou bandido, você não entende isso?
— E que diferença faz? Não deixa de ser um ser humano. Tu tá trabalhando, é ilícito, mas é trabalho. Você não vai maltratar uma criança de três anos.
Ele fica quieto, me entrega o Pietro e sai dali. Entendi nada. Falei algo de errado?
— O que tu falou pra ele, Luana? — Jd chega todo nervoso e dou de ombros — Vou me fuder por ti, doidona — ele rir de nervoso.
— Não é nada demais, fica tranquilo. Fica com o Pietro ou dá na mão da Carolina, cuida da vó também, não deixa a veia beber.
— Tá ali pilhando pra eu dar uma cerveja pra ela — ele rir — Fica até falando que já cuidou de mim e agora sou ingrato. Me magoou, Lua.
— Tu é bandido, se manca — entrego o Pietro — Vou resolver, pra tu não ter o cu comido — pisco e saio da casa. O tal do Tufão está encostado em um carro enquanto fuma.
— Vai dividir ou sair correndo putinho? — pergunto e me encosto no carro junto com ele.
— Volta pra festa, mina.
— Ficou putinho, foi? — debocho e ele revira os olhos — Qual é, falei nada demais.
— Falou até demais da conta — me olha de soslaio.
— O que eu disse?
— Você disse um bagulho que ninguém nunca me falou, garota.
— Garota nada, tenho nome.
— Ninguém nunca me falou... — esperou eu completar.
— Luana.
— Entendi o Lua.
— Só não entendi o Bafão.
— Eu tô com bafo? — bota a mão na frente da boca e rio.
— Bafão, o teu vulgo, garoto — ele fica sério do nada.
— É Lobão, mina. De onde tu tirou Bafão?
— Termina tudo com ão — dou de ombros.