Cassio
Os quatro meses até novembro voaram, uma fileira interminável de noites sem dormir, birras chorosas e dias de trabalho difíceis.
Na manhã da minha despedida de solteiro, agachei-me na frente de Daniele. Ele estava olhando para o iPad, assistindo a uma série que gostava. Seu cabelo estava despenteado na frente e emaranhado nas costas, mas ele se recusou a deixar Sybil pentear. Não tive paciência para segurá-lo enquanto ela fazia isso. Nós teríamos que cortá-lo assim que o casamento terminasse. — Daniele, eu preciso falar com você.
Ele não olhou para cima. Eu peguei o iPad, mas ele se virou. — Me dê isto.
Seus pequenos ombros se curvaram. Foi sua única reação. Peguei o dispositivo e o afastei. — Logo alguém virá morar conosco. Ela será sua nova mãe. Ela cuidará de você e Simona.
O rosto de Daniele enrugou, e ele se atirou em mim, batendo nas minhas pernas com seus pequenos punhos. — Basta, — eu grunhi, agarrando seus braços.
Minha raiva desapareceu vendo lágrimas escorrendo pelo seu rosto. — Daniele.
Eu tentei abraçá-lo contra o meu peito, mas ele se afastou. Eventualmente, o soltei. Nos dias após a morte de Gaia, Daniele procurou minha proximidade; agora voltou a me ignorar. Eu não tinha certeza do que Gaia havia lhe dito antes de sua morte, mas estava claro que isso fez Daniele se ressentir de mim.
Coloquei o iPad na frente dele e me endireitei. Sem outra palavra, saí e subi para o quarto de Simona. A babá saiu apressada. Em alguns dias, eu finalmente seria capaz de me livrar das babás, e Giulia cuidaria de Simona. Inclinei-me sobre o berço. Simona olhou para mim e abriu um sorriso desdentado. Deslizei minhas mãos gentilmente sob seu corpo minúsculo e a levantei em meus braços. Apoiando-a no meu peito, acariciei sua cabeça loira escura. Daniele e ela herdaram a cor do cabelo e dos olhos da mãe. Pressionando um beijo na testa de Simona, lembrei-me da primeira vez que o fiz dois dias depois que ela nasceu. Gaia se recusou a me ter presente enquanto dava à luz a nossa filha e só me permitiu chegar perto dela no segundo dia. A raiva ressurgiu como sempre fazia quando me lembrava do passado. Simona balbuciou, e beijei sua testa novamente. Ela chorava quando alguém que não fosse minha irmã, mãe ou eu a segurávamos. Eu só esperava que ela se acostumasse rapidamente à presença de Giulia.
Eu a coloquei de volta, mesmo que seus gritos rasgassem meu coração. Eu precisava me preparar para uma reunião com Luca e depois para minha despedida de solteiro.
Uma hora antes do início oficial da minha despedida de solteiro, que Faro havia organizado, me encontrei com Luca no meu escritório. Ele e sua esposa Aria chegaram um dia antes para ver como estavam os negócios na Filadélfia. Ele não encontraria motivos para se preocupar. Deixei de dormir para garantir que tudo funcionasse perfeitamente na minha cidade. Luca e eu nos acomodamos nas poltronas do meu escritório. Fiquei surpreso que ele concordou em ir à minha despedida de solteiro. Desde seu casamento com Aria, ele se afastou um pouco.
— Minha tia foi com tudo no planejamento do casamento, — disse Luca, enquanto descansava na poltrona. — Ela pensou em tudo, desde pombas e esculturas de gelo a roupas de cama de seda.
Roupa de cama de seda branca. Roupa que eu deveria manchar com o sangue da minha jovem esposa na nossa noite de núpcias.
Tomei um gole do meu uísque e o abaixei. — Não haverá uma apresentação dos lençóis porque não vou dormir com Giulia.
Luca abaixou o copo lentamente, seus olhos cinzentos se estreitando. Ele sabia que não era por causa de Gaia, mesmo que eu não estivesse com outra mulher desde a morte dela. — É tradição. Já faz séculos.
— Conheço e honro nossas tradições, mas desta vez não haverá uma apresentação de lençóis. — Essas palavras poderiam muito bem significar minha queda. Não era minha escolha ignorar nossas tradições. Somente Luca poderia tomar essa decisão, e estava claro que ele não faria. Eu pensei em dormir com Giulia. Ela era bonita, mas não conseguia tirar a imagem de seus inocentes olhos arregalados da minha cabeça ou de quão jovem ela parecia em suas roupas ridículas sem um pingo de maquiagem. As mulheres do meu passado tinham a minha idade, mulheres adultas que aguentavam o que eu dava.
— No seu primeiro casamento, você não teve problemas em seguir nossa tradição. Não é algo que você pode fazer como achar melhor — disse Luca bruscamente.
— A última vez que me casei, a mulher tinha quase a minha idade. Tenho quase quatorze anos mais que minha futura esposa. Ela me chamou de “senhor” na primeira vez em que me viu. Ela é uma menina.
— Ela é maior de idade, Cassio. Hoje é o aniversário dela.
Eu assenti. — Você sabe que eu faço o que me pede. Sabe que domino a Filadélfia sem piedade, como você espera que eu faça, mas até eu tenho certas linhas que não estou disposto a cruzar e não vou me forçar sobre uma menina.
— Ela é maior de idade e ninguém disse que você precisa usar a força, — Luca repetiu e eu perdi a cabeça.
Bati o copo em cima da mesa. — Ela é, mas ainda me sinto como se a estivesse manipulando. Você não pode acreditar honestamente que ela virá voluntariamente para a minha cama. Talvez ela se submeta porque sabe que é sua única opção, mas não de boa vontade. Tenho uma filha, Luca, e não gostaria que ela estivesse com um homem treze anos mais velho.
Luca me olhou por um longo tempo, talvez pensando em colocar uma bala na minha cabeça. Ele não tolerava desafios. — Você vai apresentar os lençóis após sua noite de núpcias, Cassio. — Abri minha boca para recusar novamente. — Sem discussão. Como você cria lençóis ensanguentados é com você.
Eu me recostei, cauteloso. — O que você está sugerindo?
— Não estou sugerindo nada, — disse Luca. — Estou apenas lhe dizendo que quero ver lençóis ensanguentados, e eu e todos os outros os levaremos como prova da honra de sua esposa e de sua implacabilidade, como é esperado.
Talvez eu estivesse errado, mas tinha certeza de que Luca estava sugerindo que eu forjasse os lençóis ensanguentados. Tomei outro gole do meu uísque, me perguntando se Luca teve experiência forjando manchas de sangue. Eu estava na apresentação dos lençóis depois da noite de núpcias dele com Aria, mas mesmo que tentasse, não conseguia imaginar Luca poupando ninguém. Eu o tinha visto arrancando a língua de um homem por desrespeitar Aria e estava lá quando ele esmagou a garganta de seu tio. Talvez ele estivesse me testando. Talvez estivesse sugerindo algo assim para que pudesse ver se eu era fraco demais para dormir com minha esposa. Crescendo em nosso mundo, aprendi a ver os sinais de alerta. Se eu falhasse em um teste dado pelo meu Capo, o resultado final seria inevitável. Eu seria removido da minha posição da única maneira aceitável, pela morte. Embora eu não tivesse medo de morrer, detestava a ideia do que isso significaria para Daniele e Simona. Eles cruelmente perderam a mãe. Se eu também os abandonasse, causaria um trauma horrível aos meus filhos.
Mostrar qualquer tipo de fraqueza nessa situação seria fatal. Eu não arriscaria a saúde de meus filhos nem minha posição como Underboss.
Eu tomei um gole. — Farei o que você pede, Luca, como meu pai e eu sempre fizemos.
Luca inclinou a cabeça, mas a tensão permaneceu entre nós. Eu teria que ficar de olhos abertos até me provar novamente.