Pantera narrando
Mano… meu nome ninguém fala alto no Morro do Cruzeiro. Aqui, se sussurra Pantera como quem chama sombra. Eu nasci nesse chão rachado, criado entre tiro, sirene e promessa quebrada. Aprendi cedo que, pra sobreviver, a gente corre antes de aprender a andar e morde antes de apanhar. Eu não era pra ser o chefe de p***a nenhuma. Só queria ser mais um moleque invisível, desses que carregam sacola no mercado e somem quando a viatura sobe. Mas o morro escolheu por mim.
Meu pai? Nem lembro da cara. Minha mãe… fez o que pôde, mas quando a fome aperta, irmão, a rua vira colo melhor que o de muita gente. Comecei pequeno, vaporzinho, levando pó de uma boca pra outra, achando que era rei só por ter cinco reais no bolso e um celular velho que nem chip pegava.
Mas eu tinha algo que ninguém ensinou: frieza.
Quando os cara vinham pra cima, eu não tremia. Quando dava r**m, eu pensava rápido. Quando n**o caía, eu segurava a onda. Aos quatorze eu já tava no fogo cruzado, aos dezesseis virei braço direito do chefão da época. Aos dezoito… bom, aos dezoito eu enterrei ele.
E a facção me olhou. E quando a facção olha, meu irmão, você cresce ou vira pó. Ganhei o nome Pantera depois de um assalto que deu tão errado que até o jornal falou. Eu fui o único a sair sem arranhão, rápido, silencioso, preciso.
— Esse moleque é pantera. Some e aparece quando quer.
Ficou. E hoje ninguém ousa chamar de outro jeito.
Ser chefe não é glamour, não. É carregar o morro nas costas. É decidir quem vai viver e quem vai virar memória. É dormir sabendo que, se fechar o olho por dois segundos a mais, tem o****o pronto pra pegar seu lugar. Eu tenho cicatriz até em lugar que eu esqueci que tinha pele. Cada uma conta uma guerra que eu ganhei, ou quase perdi. Cada uma me lembra que, aqui em cima, respeito é mais valioso que ar.
Eu já amei? Não. Amor enfraquece, desacelera o gatilho, faz a gente pensar demais. Ou pelo menos eu achava isso… até aquela garota descer no tiroteio como se a morte não fosse nada.
Ayla.
O nome dela é fino demais pra esse morro podre, e talvez seja por isso que ficou preso na minha cabeça. Eu tava sangrando, zonzo, e juro que vi um anjo de jaleco chegando no meio do caos. Um anjo irritado, tremendo, mas corajosa pra c*****o. Eu lembro do cabelo dela grudando no rosto, do jeito que ela xingou o vapor porque ele quase me deixou cair. Lembro dos olhos, grandes, assustados, mas firmes.
E eu pensei uma coisa que não devia:
— Fodeu. Ela viu demais.
Mas depois… Depois, a única coisa que eu consegui pensar foi:
— Fodeu. Se essa menina me encostar outra vez, eu não vou querer que ela pare.
O morro tremeu aquela noite. E vai tremer de novo. Mas agora… agora não é só por causa do crime, das guerras, das traições. É por causa dela. E do que ela desperta em mim. E eu não tô pronto pra isso. Só que o destino é um desgraçado, e eu já tô dentro demais pra voltar atrás. Eu lembro do cheiro de pólvora ainda queimando no ar quando os moleque me carregaram.
Braço jogado por cima do ombro deles, sangue descendo quente pela minha barriga, visão embaçando igual TV velha. Mas eu não podia cair. Chefe que cai vira alvo, tá ligado?
Aí, no meio desse inferno todo, brotou ela.
Ayla. A menina parecia perdida, mas tinha coragem demais naquele peito. E coragem aqui no Cruzeiro é moeda rara. Quando vi o jeito que ela falava comigo, eu até esqueci que tava com a p***a do buraco aberto no meu lado. Ela não abaixava a cabeça. Não tremia diante de mim. E isso… mano, isso me deu uma sensação estranha. Tipo um choque, mas por dentro.
Eu, acostumado a ver homem grandão baixar a voz perto de mim, de repente encarado por uma menina de jaleco sujo de sangue, meu sangue, mandando eu ficar quieto. Dizendo que eu ia morrer se não cooperasse.
A forma como ela falava comigo…nParecia que não tava diante do dono do morro. Parecia que tava diante de um paciente. De alguém que ela queria salvar, não temer. E isso mexeu comigo de um jeito que eu não curti. Porque, pra ser sincero… ninguém quer salvar um cara como eu. No máximo querem usar, temer, respeitar ou derrubar. Mas salvar? Isso é novo. E eu não gosto do que é novo demais.
Enquanto os moleque me levavam pra cima, pro barraco seguro, eu ficava lembrando do olhar dela.
Escuro, fundo, atento. Não era olhar de medinho, não.
Era olhar de quem tenta entender. De quem vê mais do que devia.
E isso é perigoso. Pra ela. E pra mim. Eu sei como essa p***a funciona:
— Quem chega perto demais de mim, ou vira inimigo… ou vira fantasma.
E quando ela encostou a mão na minha pele quente, tentando estancar o sangue, eu senti um negócio que eu não senti nem na primeira vez que peguei numa pistola.
Medo.
Não de morrer, dessa p***a eu já fiz as pazes faz tempo. Mas medo dela me enxergar demais. Medo dela descobrir quem eu era antes de virar Pantera.
Porque o moleque que eu fui… esse sim dá vergonha. Enquanto isso, o morro tava fervendo. Traição rolando solta, polícia rondando, rival tramando. E eu ali, meio desmaiado, meio acordado, mas com a cabeça nela. Mano… eu devia tá pensando em quem me vendeu, quem me acertou, quem ia pagar por aquilo. Mas tudo que minha mente puxava era o cheiro dela, o toque leve, a respiração rápida dizendo pra eu aguentar.
Que merda. Eu não podia me dar esse luxo. Mas o destino é filho da p**a, e quando encrespa, encrespa bonito. E eu já sabia: Aquilo ali… aquela menina tremendo mas firme… Ia virar meu problema. Do tipo que não tem tiro que resolva. Do tipo que mexe com a alma, e alma é a única coisa que bandido não devia ter.