Pantera narrando
Acordei no barraco com a cabeça pesada, aquele gosto de ferro na boca e o lado latejando mais que batida de funk em caixa de som estourada. Ayla já tinha saído, deixaram um pano limpo, uns curativo improvisado e o cheiro dela perdido no ar.
Mas eu não tava tranquilo.
Eu conheço esse morro. Se sentir cheiro de fragilidade, ele morde. E Ayla… Ayla não nasceu pra esse tipo de selva. Magrin entrou no barraco sem bater, como sempre. Magrin é meu braço direito desde moleque.
Magrelo, mas ligeiro, daqueles que escutam conversa por detrás de parede. Já salvou minha pele mais vezes do que eu conto.
— Chefe… — ele chamou, meio receoso — O mano já tá rodando aí atrás de quem encostou em você ontem.
— Esquece essa p***a agora. — minha voz saiu rouca, mas firme. — Tem outra parada mais urgente.
Ele arregalou o olho. Se tem uma coisa que ninguém espera é me ver priorizando outra coisa que não seja guerra.
— Segue a menina.
— Qual menina, Pantera? — ele perguntou baixinho, como se até o ar precisasse respeitar.
— A enfermeirinha, p***a. A Ayla. A que me tirou do chão ontem. — Magrin abriu um sorriso torto, daqueles que já vêm com zoação embutida.
— Ihhh, chefe… pegou visão nela, foi?
— Cala a boca, Magrin. — rosnei, mas sem força pra fingir raiva — Não é isso, não. — É… talvez fosse, mas isso não era assunto pra ninguém. Nem pra mim.
— É o seguinte: — continuei — tu vai ficar de olho nela. De longe. Sem encostar, sem assustar. Só vigia.
Magrin cruzou os braços, curioso.
— Proteção, então?
— Isso. Aqui no Cruzeiro, n**o fala demais, olha demais, encosta demais. Essa menina não tem noção do perigo que corre só por ter me visto daquele jeito.
Ele coçou o queixo, processando.
— Mas ela sabe quem tu é, chefe?
— Acho que não. Mas se souber, vai descobrir que isso é bem mais problema pra ela do que pra mim.
— Respirei fundo, sentindo o corte arder.
— E outra, Magrin… — olhei direto nos olhos dele — Se alguém chegar perto dela com intenção errada, eu quero saber antes mesmo da sombra do cara aparecer. Entendeu?
— Entendi.
Ele balançou a cabeça, sério agora. Quando Magrin fica sério, é porque entendeu o peso.
— E, chefe… — ele hesitou na porta — A menina te viu fraco. Tu nunca deixa ninguém te ver assim.
Fiquei quieto por um instante. Isso me atingiu mais do que devia.
— Ela não viu fraqueza, não, Magrin. — respondi baixo — Ela viu eu vivo. E só tô vivo porque ela meteu a mão onde ninguém teria coragem.
Ele fez um hum, respeitoso, e saiu.
Quando fiquei sozinho, encostei a cabeça na parede, tentando respirar fundo. Eu sou Pantera. Chefe. Predador desse morro. Mas alguma coisa naquele toque suave daquela menina tava me rondando a mente igual fantasma que não quer ir embora.
E eu sabia: Deixar ela solta, sem proteção… era pedir pra perder a única pessoa que não desviou os olhos de mim.
E eu não perco nada meu. Nunca.
Depois que Magrin saiu, eu tentei levantar, mas a dor veio igual uma lâmina quente rasgando por dentro.
Merda. O tiro tinha pegado feio mesmo. Ayla fez o possível com o que tinha no momento, mas eu ainda precisava de cuidado, e não era cuidado médico que me preocupava, era o resto.
O morro tava falando. Eu sentia. O ar do Cruzeiro sempre muda antes da treta grande. Fica pesado, carregado, como se tivesse aviso invisível no meio da fumaça. E aí, no meio disso tudo, eu tava com a cabeça presa naquela menina.
— Bora, p***a… reage. — eu falei pra mim mesmo, tentando puxar força do fundo da alma.
Passei a mão pelo curativo improvisado. O pano tava quente, mas firme. Ela tinha mão leve, mas firmeza de quem já viu coisa r**m demais pra idade. E isso também não me saiu da mente. Ayla não tinha nascido pra esse tipo de guerra. Mas tinha encarado tiro, sangue, grito… e mesmo assim, meteu a mão no meu ferimento como se tivesse sido treinada pra salvar bandido desde pequena.
Que mulher é essa?
Antes que eu pudesse me perder de novo nesses pensamentos perigosos, Magrin voltou. Nem bateu.
Ele nunca bate.
— Chefe, o movimento tá estranho lá na parte baixa. — ele avisou, já fechando a porta atrás de si. — Tá rolando boato de que alguém tá vendendo tua localização.
— Óbvio. — retruquei — Quando o rei sangra, os rato comem.
Ele deu aquele risinho curto.
— E a enfermeirinha? — perguntou, com intenção clara de me cutucar.
— Não começa, Magrin.
— Não tô começando, só perguntando. Já botei dois dos nossos seguindo a distância. Ela nem percebeu.
Concordei devagar. Isso me deu um alívio que eu não devia sentir.
— Mas chefe… — ele encostou na parede, olhando pra mim de lado — por que tu tá tão preocupado com ela? Uma mina dessas não tem nada a ver com nosso corre.
Engoli seco. Não porque eu ia contar. Mas porque eu mesmo não sabia explicar.
— Porque ela viu demais. — respondi, seco. — E porque eu não quero que nada caia nela. Se alguém achar que ela tem ligação comigo, vira alvo.
Magrin concordou com a cabeça, mas com aquele sorriso de canto que me irrita.
— Entendi… não quer alvo nela. Mas também não quer ela longe, né?
— Tu fala demais. — rosnei.
Ele riu. Daquele jeito debochado.
— Só tô dizendo, chefe… cê já ficou assim antes? — ele apontou pra minha cara. — Com esse ar aí… estranho?
— Estranho é tu ficar analisando minha expressão. Some daqui, Magrin. Vai trabalhar.
Ele saiu gargalhando, mas quando atravessou a porta, a risada morreu. Magrin sabia quando o assunto ficava sério. E esse tava sério pra c*****o.
Fiquei sozinho de novo, olhando pro teto baixo do barraco. Tinha guerra chegando, rato vendendo informação. Tinha policial subindo, e rival tentando me derrubar. Mas no meio dessa p***a toda, tinha ela.
Ayla.
A única pessoa nesse morro inteiro que não me olhou com medo ou com poder nos olhos. E isso… isso era problema. Quanto mais alguém é luz, mais o Cruzeiro tenta apagar. E eu não ia deixar isso acontecer. Nem que eu tivesse que derrubar meia cidade pra impedir.