Ayla narrando
Eu acordei com aquela sensação r**m no estômago.
Não era fome, nem cansaço do plantão, era outra coisa. Um aperto estranho, como se alguém tivesse puxando meu destino por um fio invisível. Desde o tiroteio, o Morro do Cruzeiro parecia diferente.
Os becos estavam mais silenciosos do que o normal, e silêncio no morro nunca significa paz. Significa que tem algo prestes a explodir.
Terminei de separar os curativos, soro fisiológico e os remédios que eu tinha conseguido pegar escondido no posto. Eu não devia estar fazendo isso. Se a supervisora descobre que eu tô desviando material… adeus estágio, adeus diploma. Mas se eu não fosse cuidar dele, quem iria? E eu não sei por que isso importava tanto pra mim. Só sei que importava.
Saí de casa escondendo tudo dentro da mochila e comecei a subir o morro. Cada degrau parecia mais pesado que o anterior. Foi quando senti um arrepio na nuca. Não era vento, era olhar. Eu conheço essa sensação porque cresci aqui. No Cruzeiro, quando você tá sendo observado, o corpo avisa antes da mente.
Eu parei, olhei pros telhados, pros becos.
Nada. Mas ao mesmo tempo… tudo.
— Relaxa, Ayla… Você está ficando paranoica. — pensei, respirando fundo.
Continuei andando, mas agora meus passos eram mais rápidos. Eu ouvia pequenas coisas: um chinelo arrastando lá longe, um portão batendo devagar, uma sombra se mexendo onde não deveria.
Cheguei no barraco onde Pantera tava. Porque eu não perguntei diretamente, aqui ninguém pergunta nada, todo mundo apenas… sabe. Principalmente quando o assunto é o dono do Cruzeiro. Antes de bater, respirei fundo. A porta estava encostada, como se alguém estivesse me esperando.
Eu empurrei devagar.
Pantera estava sentado, sem camisa, encostado na parede. A luz fraca do barraco deixava as tatuagens dele ainda mais escuras, e as sombras desenhavam o contorno das cicatrizes pelo peito e braços. Ele levantou o olhar na mesma hora que me viu entrar.
E por um segundo, eu esqueci como respira.
— Voltei pra trocar seu curativo… — minha voz saiu mais fraca do que eu queria.
Ele não disse nada. Só me observou. Aquele olhar que atravessa pele, osso, alma. Aproximar dele dava a impressão de entrar em um campo elétrico. Como se o ar gastasse mais esforço pra mover.
— Você tá bem? — perguntei, abrindo a mochila.
— Tô vivo. — ele respondeu, curto, grave. — Por sua causa. — Engoli seco.
Falar sobre isso me dava um incômodo estranho.
Não orgulho… outra coisa. Me ajoelhei ao lado dele e comecei a tirar o pano que tinha colocado antes.
O ferimento tava feio, mas limpo. Ele não reclamou de dor nenhuma vez, mesmo quando eu sabia que devia estar queimando como inferno. Enquanto eu trabalhava, a sensação de estar sendo observada voltou. Ainda mais forte. Meu olhar se moveu rápido pela janela, pelo canto escuro do barraco, pelo corredor.
Nada.
Mas não era imaginação. Eu sabia que não era.
Ele percebeu.
— Que foi? — Pantera perguntou, sem mexer um músculo.
— Parece que… alguém me seguiu. — admiti baixinho.
Pantera ficou alguns segundos em silêncio. Olhos semi-cerrados, expressão fechada. Aquela expressão de quem calcula perigo antes mesmo de respirar.
— Cê tá segura aqui. — ele disse, enfim. Mas não era só frase solta. Tinha peso, e ordem.
— Mas lá fora…? — perguntei.
Ele inclinou a cabeça, me olhando como se soubesse de algo que eu não sabia.
— Lá fora também. — A voz dele soou como promessa. Ou ameaça.
Eu não soube diferenciar.
Terminei de colocar o curativo novo e fechei a maleta improvisada.
— Pantera… — comecei.
— Fala, Ayla.
— Se alguém tá me seguindo, eu preciso saber. Eu moro aqui, trabalho aqui. Não posso ficar vivendo com medo.
Ele deu um meio sorriso, não de deboche, mas de quem achou graça na minha coragem.
— Tu não devia ter vindo aquele dia, enfermeirinha. — disse, baixo. — Mas já que veio… agora cê tá na minha linha de visão.
Meu coração vacilou dentro do peito.
— Isso quer dizer o quê? — sussurrei.
Os olhos dele escureceram ainda mais.
— Quer dizer que ninguém encosta em tu.
Ninguém chega perto, e ninguém toca.
Ele se aproximou um pouco.
— Eu cuido.
E pela primeira vez desde que comecei a subir o morro naquela manhã, o arrepio na minha nuca mudou. Não era medo, era outra coisa.
Que também era perigosa.
Terminei de ajeitar o último pedaço de fita no curativo e fechei a mochila, tentando ignorar o fato de que minhas mãos tremiam, não por causa do ferimento, mas por causa dele. Pantera me encarava como se estivesse decifrando meus pensamentos um por um.
E eu… eu não conseguia entender como um homem que carrega tanto sangue nas mãos podia, ao mesmo tempo, parecer tão… vivo, intenso e presente. Quando dei um passo pra trás, ele também respirou fundo, como se tivesse me devolvendo espaço.
— Pronto. Não tá bonito, mas tá limpo. — murmurei, ainda meio sem ar.
Ele deu um leve aceno, quase imperceptível.
— Tu fez certo. — A voz dele era tão grave que parecia vibrar pelo chão.
Peguei a mochila e prendi a alça no ombro.
Eu devia ir embora. Devia correr pra casa, fingir que nada disso aconteceu e torcer pra que nenhum vizinho tivesse me visto entrando aqui. Mas eu fiquei parada na porta. Algo dentro de mim gritava que, quando eu desse aquele passo… alguma coisa mudaria pra sempre.
E eu não sabia se tava pronta pra isso.
— Eu volto amanhã pra olhar de novo. — soltei, sem pensar duas vezes.
Ele ergueu o queixo devagar.
— Eu sei que volta.
Meu coração deu uma batida forte demais. Saí do barraco ainda sentindo os olhos dele queimando minhas costas. Quando coloquei o pé no beco estreito, o ar lá fora parecia mais frio. Ou talvez eu estivesse mais quente por dentro.
Nem sei.
Comecei a descer o caminho e, a cada esquina, aquela sensação voltava: olhar. Passos leves.
Algo, ou alguém, me acompanhando à distância. Não era barulho de policial, que é duro, autoritário. Não era bandido m*l intencionado, que chega rápido.
Era… Proteção.
Mas proteção tem sombra. E é fácil confundir sombra com ameaça. Passei por três becos, dois escadinhas, virei à direita. A sombra virou comigo. Meu coração acelerou.
— Droga, Ayla… mantém o controle. Apertei a alça da mochila.
Quando virei mais um canto, vi um movimento rápido no topo do telhado, como se alguém tivesse se abaixado pra não ser visto.
Eu parei.
— Eu sei que tem alguém me seguindo! — falei alto, com a voz firme, mesmo que minhas pernas estivessem bambas.
Silêncio.
Mais pesado que o comum. O morro inteiro parecia prender a respiração comigo. Então, finalmente, ouvi um assobio curto. Não ameaçador. Apenas um sinal.
E uma voz abafada de longe:
— Tá tudo certo, moça. Pode ir.
Eu reconheci aquela voz de vista. Um dos vapores do morro, dos homens de Pantera.
Meu estômago virou.
Ele tava vigiando. Ele tinha mandado alguém me seguir. Pantera… tinha olhos em mim. E não era imaginação. Continuei andando, mais rápido, sem olhar pra trás. Mas por mais que eu tentasse me convencer de que era só medo… não era.
Tinha algo crescendo dentro de mim, pulsando no mesmo ritmo em que minhas lembranças daquele olhar dele ardiam. Eu devia sentir pavor. Mas o que eu senti foi pior. E melhor. E mais confuso. Eu senti que, por alguma razão, eu não estava mais sozinha no Morro do Cruzeiro. E não sabia se isso me salvava… ou me condenava.