Detalhes

1979 Words
Era uma noite de domingo, o frio envolvia a rua e uma densa escuridão pairava no ar. O vento batia em meu rosto enquanto a luz da lua me iluminava, e os uivos dos cães ecoavam como lobos ao longe. Eu estava prestes a me despedir de minha mãe, mas, para minha felicidade, sabia que seria apenas uma separação temporária. Dentro de três semanas, estaríamos reunidas novamente. – Mamãe, agradeço imensamente pela sua calorosa recepção – disse, dirigindo-me a ela para um abraço. – Você é minha filha, é claro que a receberia bem. Tenho muito orgulho de você, minha grande garota – respondeu ela, abraçando-me firmemente, apesar dos aparelhos que usava. Uma leve lágrima escapou de seus olhos, revelando a saudade que sentia de nossa família. Só percebemos o quanto amamos algo quando estamos prestes a perdê-lo ou quando o perdemos. Dirigi-me ao carro, estacionado no bairro vizinho, uma vez que não havia vagas disponíveis perto da casa de minha mãe. Caminhei tranquilamente, apesar da distância moderada, até que, infelizmente, percebi uma presença logo atrás de mim. Discretamente, olhei para trás e avistei um homem vestido de preto, com o rosto oculto pelo capuz. Comecei a acelerar o passo, e ele fez o mesmo. Sem alternativa, iniciei uma corrida desesperada. Ao virar em uma esquina na tentativa de despistá-lo, a densa neblina ocultou minha presença, proporcionando um breve alívio. Esperei por cerca de três minutos antes de retomar a corrida, tomada pelo pânico. Ao chegar finalmente ao carro, constatei, com desespero, que os pneus estavam furados. Não podia acreditar no infortúnio. Reunindo toda a coragem que me restava, decidi correr de volta para a casa de minha mãe. No entanto, a tentativa foi em vão; o homem apareceu subitamente à minha frente, empunhando uma arma. Senti que meu fim estava próximo. As lágrimas começaram a rolar enquanto pensava na vida que não consegui proporcionar à minha mãe. Sempre fiz de tudo para que ela tivesse o que merecia, mas naquele momento, parecia que tudo estava perdido. Minha mãe dependia de mim, sua única família, e a ideia de deixá-la sozinha me dilacerava. As lembranças se misturavam à angústia. Recordava-me da ligação do hospital, informando sobre o câncer de minha mãe e os custos que teria que arcar. Não era o dinheiro que me abalava, mas a culpa por não ter previsto essa tragédia. O peso da responsabilidade me esmagava, e eu chorava ainda mais intensamente. Enquanto estava imersa nesse turbilhão de emoções, o homem retirou sua máscara, observando-me com atenção. – Jessy? – Ele disse, com lágrimas nos olhos. – Phil? – Respondi, incrédula. Corri a pequena distância que nos separava e o abracei, tomada por um misto de choro e alívio. A emoção era avassaladora. O reencontro inesperado com Phil, em meio ao desespero, trouxe uma reviravolta ao meu destino. O medo deu lugar a um sentimento de profunda ligação. O que parecia ser o fim se transformou em um novo recomeço. – Por onde você andou? Por que desapareceu? – Perguntei, abraçando-o com toda a força de minha saudade acumulada. – Vai ser complicado de explicar. Vamos entrar no carro e procurar um lugar tranquilo para conversar. – Você esqueceu que furou meus pneus? – Tsc, realmente me esqueci desse detalhe. – Sorte sua que tenho pneus de reserva no porta-malas. Sabe trocá-los? – Você tem macaco hidráulico, chave de rodas, estepe? – Tenho – respondi, abrindo o porta-malas e pegando o necessário. – Ótimo, vamos começar então. Alguns minutos se passaram e ele já havia terminado a troca dos pneus, suas mãos e roupas manchadas de graxa. – Consegui – Disse ele, aproximando-se com um sorriso travesso. – Fique longe – Adverti, rindo, enquanto ele tentava me pegar no colo. Esquivei-me, e ambos caímos na gargalhada. – Vamos para o carro. Podemos ir até seu apartamento? – Claro – Concordei, acenando com a cabeça. Enquanto caminhávamos em direção ao carro, minha felicidade com sua presença era tanta que ignorei o passar das horas. Parecia que o mundo havia parado, deixando apenas nós dois em um instante suspenso no tempo. Sentia uma saudade imensa do meu irmão; raramente falava sobre ele, mesmo amando muito meu pai. Talvez a morte dele tenha me afetado mais profundamente. Não se tratava de uma competição de amor, pois meu amor por ambos era igual, mas a ausência dele era mais dolorosa. Talvez eu estivesse sendo injusta comigo mesma. – Você ainda lembra da nossa música favorita? – Perguntou ele, rompendo a bolha dos meus pensamentos. – Está brincando? Claro que sim – Respondi, inserindo o CD no rádio. Nos olhamos e rimos, enquanto ele começava a cantar desafinadamente e eu o acompanhava, ainda pior. – Yessss baby – Gritou ele, errando miseravelmente a letra. – Namorados? Jessy – Perguntou ele, arqueando a sobrancelha. – Não, e você, Phil? – Perguntei severamente, também arqueando a sobrancelha. – Ainda não. Tem alguma amiga para me apresentar? – Disse, piscando. – Talvez tenha, Aurora. Ela ainda não é minha amiga, mas espero que seja em breve. Rimos novamente, deixando a música fluir pelo carro. Depois de algum tempo, finalmente chegamos ao estacionamento. Saímos do carro e subimos até o apartamento. Assim que entrei, fui direto para a cozinha pegar refrigerante, enquanto meu irmão se acomodava no sofá. Voltei com as bebidas e me sentei ao lado dele. – Vamos conversar então – Disse, entregando-lhe um copo. Ele suspirou profundamente, seus olhos encontrando os meus, como se buscasse forças para contar o que havia ocorrido. – Vamos sim... – Nosso pai sempre foi um homem honesto. Nunca duvide disso. Infelizmente, ele se envolveu com drogas. – Como assim, com drogas? – Interrompi, sentindo um calafrio percorrer meu corpo. As palavras pareciam irreais. – Espere eu terminar de falar. Sei que vai ser difícil ouvir, mas por favor, deixe-me continuar. – Desculpe... – Sussurrei, as lágrimas já começando a se formar em meus olhos. – Nosso pai entregava sanduíches, pizzas, esse tipo de alimento. Ele não sabia, mas dentro dessas entregas havia drogas. Um dia, deixou cair um pedido e viu o que realmente havia dentro. Ficou desesperado. Voltou para casa sem saber o que fazer e me contou tudo, em estado de pânico. Implorou para que eu não contasse nem a você nem à mamãe. – O quê?! – Minhas mãos tremiam. Meu coração estava acelerado, m*l conseguia processar as palavras. – Calma, vai piorar. Eu tentei acalmá-lo, disse que tudo ficaria bem e que eu o ajudaria. Tínhamos muito a preservar; ninguém poderia saber disso... – Não me importo com o que os outros pensam. Quero entender o que aconteceu. – No dia seguinte, nosso pai foi falar com o patrão, dizendo que não queria mais trabalhar com eles. O patrão apontou uma arma e disse que, uma vez envolvido, não poderia sair, ou morreria. Nosso pai engoliu seco e voltou para casa, contando-me tudo de novo. Então, decidimos fugir para Londres. – Espera... Então vocês não vieram para que eu pudesse estudar em Oxford? – As lágrimas já corriam livremente pelo meu rosto. – Em parte sim, mas usamos isso como pretexto. Tínhamos algum dinheiro guardado. Sinto-me miserável por não ter desconfiado antes. Nosso pai só entregava esses alimentos e ganhava muito bem, isso era suspeito. Culpo-me tanto, Jessy... – Não se culpe, meu irmão – Disse, colocando a mão suavemente em seu rosto. – Quando chegamos aqui, não demorou muito para nos encontrarem. Lembra que o médico disse que nosso pai havia morrido de infarto? – Sim, lembro – Disse, com a voz embargada. – Bom... Eles injetaram cocaína quatro vezes em nosso pai. Como a cocaína tem vinte cinco porcento de chance de causar infarto, ele não tinha como escapar. – Meu Deus... – Não aguentei mais e desabei, abraçando meu irmão e chorando copiosamente. Ele também chorava, sentindo o peso da verdade. – Mas, meu irmão, como você sabe disso? – Perguntei, levantando a cabeça para olhá-lo nos olhos. – Com medo do que poderia acontecer, enchi nossa casa de câmeras sem ninguém saber. Mamãe estava fazendo compras, você no colégio, e eu no trabalho. Só restava nosso pai em casa. Pelo que entendi, já estavam nos vigiando há muito tempo, conheciam todos os nossos passos. – Então, mamãe está em perigo? – Perguntei, alarmada e com o coração apertado. – Por enquanto, não. Quando nosso pai faleceu, eu soube cara a cara com o médico, desconfiei que ele estava envolvido – Disse ele, com uma expressão séria e pensativa. – Acho melhor pararmos por aqui... Você está processando muita coisa ainda. – Não, está tudo bem. – Tentei parecer firme, mas foi uma tentativa falha. Estava devastada. Se soubesse de tudo isso, nunca teria deixado meus pais. Teria-os abraçado todos os dias, dito que os amava... Meu irmão olhou para mim com tristeza nos olhos, percebendo o peso das revelações estampado em meu rosto. – Vamos superar isso juntos – Sussurrei, tentando encontrar forças no amor que nos unia. Mas, naquele momento, a dor parecia insuportável, e a sombra do passado pesava sobre nós. O abraço do meu irmão, ainda que confortante, não conseguia dissipar a escuridão que sentia. Cada palavra que ele dissera ainda reverberava em minha mente, como ecos de uma verdade que eu nunca quisera ouvir. O peso da realidade caía sobre mim com uma força esmagadora, transformando a saudade e o amor que sentia em uma dor profunda e aguda. Olhei para meu irmão, suas lágrimas refletindo a mesma tristeza e culpa que sentia. – Mas, meu irmão, por que não ajudou nosso pai? – Perguntei, sentindo a voz embargar com a dor crescente em meu peito. Ele respirou fundo, os olhos se enchendo de tristeza e culpa. – Eu tentei, minha princesa. Passei mais tempo em casa do que no trabalho, assistindo aqueles filmes de terror que odiava, só para ficar de olho nele... – E por que sumiu? – Insisti, o coração apertado pela angústia. – Quando desconfiei daquele médico, pedi a um amigo, também médico, que examinasse o corpo de nosso pai. Foi então que ele confirmou: haviam injetado cocaína. Revendo as gravações, tudo fez sentido. Forjei meu próprio desaparecimento, pedi a alguns contatos para espalharem que eu estava desaparecido. Pintei meu cabelo de preto, adquiri cicatrizes ao longo do tempo... Tentei me esconder na multidão. E então, fui atrás de todos aqueles que fizeram isso com nosso pai, um por um. Ainda faltam muitas pessoas. Quando te vi, confundi você com uma mulher da mesma organização mafiosa. Desculpe por isso... Agora estou aqui, e preciso inventar uma história para nossa mãe. Se ela souber a verdade, não sei o que pode acontecer. Por muito tempo, paguei uma enfermeira para cuidar de nossa mãe. Meu amigo inventou uma história dizendo que isso estava incluído quando você pagou o hospital. Ele fez ela acreditar que até isso foi pago. Eu nunca estive longe de vocês, minha princesa. Sempre estive ao lado de cada uma, mesmo que não pudessem me ver. Cada detalhe de mim estava em vocês, cada coisa que acontecia era eu agindo por vocês. Talvez eu não tenha dito o quanto as amava constantemente, mas cada gesto indica que amo vocês. As palavras de meu irmão eram um bálsamo e uma ferida ao mesmo tempo. A verdade era insuportável, mas o amor que ele demonstrava era inegável. – Eu também te amo, meu irmão – Respondi, tentando segurar as lágrimas que agora caíam livremente pelo meu rosto. – Mas o que faremos agora? Ele me apertou contra si, como se quisesse absorver minha dor. Sentíamos o peso do mundo em nossos ombros. As lágrimas continuavam a cair, mas agora eram um misto de tristeza e alívio. O silêncio que se seguiu era preenchido apenas pelo som dos nossos soluços. – Quando for a hora, agiremos. – Assenti com a cabeça.
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