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Entre o Colar e a Gravata (A descoberta do amor)

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intro-logo
Blurb

Esther é garota nada convencional que está saindo da adolescência, embora seja bem madura para a idade.

Nunca foi um padrão de beleza, e isso é algo que não a incomodou.

Sua vida é monótona e sem muitas novidades: escola, trabalho, ajudar a mãe em sua confeitaria e finais de semanas na companhia de Álvaro, seu melhor e único amigo, os dois cresceram juntos e se tratam como irmãos.

A brasileira que foi criada no México é avessa a mudanças e não permite que outras pessoas invadam o mundinho perfeito criado ao redor dela e Álvaro.

Até que uma trombada desastrosa coloca um ricaço egocêntrico, autoritário e lindo em sua vida. Athos é um advogado bem sucedido que vai bagunçar com a vida de Esther, justo quando ela entra em conflito ao perceber que sente algo a mais por Álvaro, o que é recíproco.

As vésperas de entrar para a vida adulta, Esther se vê dividida e completamente perdida em sentimentos, dúvidas, descobertas e apenas uma certeza: Está apaixonada! Só nos resta saber por quem!

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CAPÍTULO UM
                                                                                 "Donde pode nascer o amor? Talvez de uma súbita falha do universo, talvez de um erro, nunca de um acto de vontade." – Marguerite Duras               O trabalho começou de madrugada e está sendo corrido, mamãe não me deu um minuto de descanso desde que acordamos. Estamos com uma grande entrega para hoje, ela é uma confeiteira de mãos cheias, muito conhecida em nossa cidade; já chegamos a receber pedidos de encomendas de outros estados e até mesmo de fora do país. O grande sonho dela é abrir o próprio negócio, mas estamos deixando este plano para depois que eu concluir meus estudos. Já empacotei centenas de docinhos, cupcakes e rosquinhas recheadas, tudo delicadamente preparado e decorado pela minha mãe, é claro, com um toque da minha singela ajuda. — Anda logo, menina, sabe bem que o pessoal desta empresa não gosta de atrasos! — Calma, madrecita, a senhora também sabe que somos pontuais e no fim, sempre agradamos nossos clientes – Minimizo. Minha mãe é uma brasileira que engana bem sua origem, pois apesar de ter nascido na América do Sul, herdou os traços de seus pais, nascidos na Alemanha: tem os olhos azuis como os da vovó Gertrudes, os cabelos lisos e loiros do vovô Klaus, é alta e elegante; apesar de ter os traços físicos europeus,  os dotes culinários são herança brasileira. Desde que papai foi embora, ela tem usado seus truques na cozinha para sustentar a casa e pagar meus estudos, por que a grana que ele manda não é lá essas coisas, então combinamos de guardá-la para pagar minha faculdade, onde quer que eu escolha me formar. — O que foi menina? Está hipnotizada? — Sim, sim estou hipnotizada por esta linda mulher que está aqui na minha frente! — Bom, então sai do transe, pois esta linda mulher aqui está mais do que atrasada, e como não ganhamos a vida com minha beleza, temos que correr! – estala os dedos. — Ok, senhora Confeiteira linda, vamos lá encher a pança daqueles executivos, com todas essas gostosuras que só você consegue fazer! Carregamos a van com caixas de papelão cuidadosamente empilhadas. Ao pegar a estrada, mamãe acelera pela Principal e desvia do trânsito como uma pilota em fuga. Chegamos com vinte minutos de folga, o que vai nos garantir uma entrega exemplar e dentro do horário; ponto pra Dona Lourdes, minha mãe que é fera no fogão e no volante. Como já somos conhecidas no prédio, o porteiro acena com a cabeça e libera a cancela do estacionamento para entrarmos. Nos dirigimos ao hall de funcionários, um dos seguranças nos ajudou a descarregar e colocar a encomenda no carrinho, então, subimos pelo elevador de serviço. Ao chegarmos no andar onde fica o restaurante da empresa, mamãe sai na minha frente procurando pelo responsável do setor de alimentos, enquanto fico imprensada entre a porta e o carrinho com as caixas de doce, volto o carrinho para dentro do elevador a fim de abrir espaço para sair e puxá-lo novamente, quando sinto que trombei com algo grande e duro, ou melhor alguém grande e forte, em minhas costas. Viro-me devagar e fito um par de sapatos pretos e brilhantes de alguma marca bem famosa, acredito... Vou subindo o olhar por um longo par de calças pretas de corte italiano, chegando a um corpo bem desenhado por baixo de uma camisa azul-clara, adornada por uma gravata azul-marinho, com alguns risquinhos finos de cor prata e terno preto... o corpo continuava ali, parado com as mãos no bolso, mas meus olhos não conseguiram alcançar o restante daquele "corpo". Escondida sob a aba do meu boné consegui sentir que acima daquela linda e sensual gravata, havia um rosto sério com olhos famintos que  tentavam encontrar os meus. — Menina o que deu em você? – ouço a voz da minha mãe surgir pro trás daquele corpo enorme, que parecia um muro entre nós — Vai ficar o restante do dia na passagem? — Desculpe, mãe... errr... e-eu... — Ela está apenas sendo educada, segurando as portas do elevador para que eu passe... eu acho! – Disse aquele corpo com uma voz baixa, crua e ao mesmo tempo tão sensual que me arrepiou até os cabelos da nuca. Baixei o olhar novamente para os sapatos elegantes e, reunindo forças para não demonstrar meu constrangimento, virei-me de costas para ele e puxei o carrinho com toda força para fora do elevador, passando ao seu lado sem levantar os olhos, me escondendo sob a aba do meu boné. Senti que ele entrou no elevador, mas continuou me fitando friamente; num instante de coragem, me viro para tentar descobrir como era o rosto dono daquele corpo tão sexy e de voz tão macia – tarde demais, as portas já estavam quase completamente fechadas. Entrega efetuada com sucesso, minha mãe recolheu todas as bandejas e caixas, colocamos no carrinho para irmos embora e acabo de reconhecer uma voz bem familiar, sem precisar procurar, a voz se materializou na minha frente com um sorriso largo e cheio de dentes, cabelos meticulosamente ajeitados em um topete loiro, brilhantes olhos azuis e corpo atlético de quase dois metros de altura. — O que a mocinha mais linda da cidade faz por aqui? – Perguntou o sorriso mais lindo que eu já vi em toda minha vida. — O que o mocinho mais lindo da cidade faz por aqui? – Retruquei devolvendo o sorriso. — Bem, esta empresa está passando por algumas modificações internas e fomos contratados para atuar na nova campanha publicitária deles. – Agora o sorriso deu lugar a um ar sério e profissional e, mesmo assim, Álvaro continua lindo. — Ora, ora, ora, em dois anos que você se tornou sócio desta agencia, ainda não consegui acostumar em vê-lo em traje profissional. — E? – Sussurrou ele, passando as mãos pelo terno, como um modelo apresentando uma roupa. — Aprovadíssimo! Você fica muito bem usando terno e gravata – Mordo o lábio inferior propositadamente, sabendo que ele iria morrer de vergonha. — Garota você sabe muito bem como mexer com as ideias de um homem! – Deslizando a mão em meu braço, me deixando completamente arrepiada. — Vocês poderiam terminar essa conversa em outro lugar. O que acham? – Resmunga mamãe nas minhas costas. De onde é que ela sempre aparece, hein?   — Sra. Guimarães... — Reimann, Álvaro, Reimann, lembra-se, divórcio, nome de solteira?... – Ela é rápida em corrigi-lo, às vezes penso que é mais para se auto convencer do divórcio. — Sim, verdade! – Repete ele, mudando o tom de suas bochechas de rosada para púrpura — Desculpe-me, acabo esquecendo que a senhora já não está mais casada com o senhor Guimarães e... — Ok, ok, já entendi. – interrompe-o novamente, levantando a mão em sinal de basta, desviando de nós e seguindo com o carrinho em direção ao elevador. — Estamos um pouco em cima do horário e preciso deixar a mocinha mais linda da cidade no serviço em menos de dez minutos. Então, por favor, se despeçam e deixem essa conversa mole para quando ambos estiverem em seu momento de lazer.   Nossa como minha mãe tem o dom de ser grossa e educada ao mesmo tempo, e isso me deixa louca, pois ela não mede suas palavras sem se preocupar em me constranger. Ela conhece Álvaro Gutierrez desde quando eu jogava bola no campinho com o pessoal da rua; ele era um daqueles meninos cheios de espinhas, desengonçados, que quando estão na fase de puberdade, seus hormônios os deixam com os braços maiores que as pernas, o cabelo oleoso e, bem... Álvaro não tinha nada do homem charmoso, com cheiro amadeirado, cabelos limpos, sedosos, bem cuidados e claro, pele sedosa e firme, que é hoje. **** Chegamos ao México quando eu tinha seis anos. Nosso bairro era um lugar de famílias tradicionais que já se conheciam desde outras gerações e, por isso, papai o escolheu para recomeçarmos nossa vida, lá todos eram bem receptivos e calorosos, as crianças brincavam nas ruas, andavam de bicicleta, jogavam bola, empinavam pipas, iam à escola juntos, lembrando muito o povo do nosso país, o Brasil, meus pais acharam que morar em um lugar assim seria muito mais fácil para me adaptar e não sentir tanta falta de casa. Passei o primeiro mês um pouco deslocada, embora as meninas tentassem se aproximar de mim, o problema não era elas não, claro que não! O problema era que eu nunca gostei de brincar de bonecas, escolinha, casinha, essas coisas que as mulheres fazem quando criança. No Brasil, sempre brinquei com os meninos tanto na escola como na rua, jogava bola, taco, andava de patins, algumas vezes era eu quem liderava as brincadeiras, acho que eles nunca se deram conta de que estavam brincando com uma menina. Certo dia, aceitei o convite das minhas novas vizinhas e fomos andar de bicicleta na pracinha, depois de tanto dar voltas, parei para assistir a uma partida de futebol que estava começando, sentei na arquibancada improvisada por caixotes de madeira e lá estava ele, correndo de um lado para o outro, com suas enormes pernas e braços grandes; era tão magro que parecia que o vento o levava na direção contrária. Chamou-me a atenção por ser o maior de todos e o único de cabelos loiros, quase brancos e também pelo seu jeito de correr que sempre dava a impressão de que iria tropeçar nos próprios pés e cair a qualquer momento. — Esther, Esther... – ouvi as meninas me chamarem lá atrás do campinho — Esther, vamos embora, aqui não é lugar para garotas! – Insistiram elas. — Podem ir à frente, não vou demorar! – Respondi alheia. — Mas, Esther, você não pode voltar sozinha, vai acabar se perdendo; já está escurecendo! – Disse uma delas. — Ah não se preocupem, já conheço bem o caminho e, além do mais, estou com minha bicicleta, chegarei em casa rapidinho! – Queria continuar assistindo àquela acirrada partida entre os meninos da minha rua com os da rua de trás. Além disso, algo, ou melhor, alguém prendia a minha atenção e eu não conseguia sair dali para nada. — Tudo bem então! Nos vemos amanhã? – Insistiu a menina gordinha de bochechas rosadas. Ela era a líder de todas as outras, talvez por ser a mais velha, Maria José era seu nome... Hoje muitos a conhecem como MJ, que em nada lembra aquela gorducha de anos atrás. — Sim! – respondi, desviando o olhar para o campo — Amanhã! Passei as férias toda indo assistir às partidas no campinho, alguns dias depois estava atuando como gandula voluntária, duas semanas mais tarde já era a bandeirinha e por fim, consegui, depois de muito insistir, uma vaga como zagueira no time da minha rua. Na verdade me deixaram ficar porque Jaime, o antigo zagueiro, machucou o pé e eles ficaram sem ninguém na defensiva. Foi a oportunidade que eu esperava. O grandão de cabelo claro nunca havia me olhado, e eu decidi chamar a atenção dele. Não foi difícil: como fiquei todos aqueles dias prestando atenção em seus movimentos, aprendi as suas jogadas, já sabia de cada drible, cada chute, cada passe que ele desse com a bola, assim podia me posicionar à frente dele para impedir suas tentativas de marcar gol. De primeira, ele riu e me olhou de cima a baixo com desdém. Alguns minutos mais tarde e alguns gols impedidos, me tratava com certo respeito. Lembro-me de que nosso time perdeu neste dia, mas ganhei um grande, e eu digo grande mesmo, admirador. — Ei moleque, quantos anos você tem? – Perguntou ele me jogando um copo de plástico e depois o enchendo com água. — Não sou moleque e faço sete anos em alguns meses! – Fiz uma careta! Sempre fui bem respondona... devo ter herdado a boca dura de minha mãe. — Você é uma... uma garota? – Seus lindos olhos azuis se iluminaram quando ele os arregalou sem esconder sua surpresa. — E o que tem? – me fiz de chateada! — Isso não foi empecilho para eu bloquear suas jogadas. – Me gabei, sentindo orgulho de mim mesma. — Não, nada! Não tem nada, é que você não parece uma garota, mas gostei de ver você jogar, é muito rápida. – Enfim um elogio por parte do meu oponente, que nem imaginava o quanto eu já o admirava. Ele me lançou um sorriso largo e amigável e eu baixei a guarda, conversamos até escurecer e, mesmo sendo do time da rua de trás, me acompanhou até a minha casa, conversamos como se fôssemos amigos há muito tempo sobre jogos, vídeo game, esportes radicais, falei pra ele sobre minha coleção de camisas oficiais das seleções de futebol que papai estava montando; ele me contou dos carrinhos de colecionador que tinha em uma prateleira no seu quarto. Depois deste dia, nos tornamos amigos inseparáveis, mesmo que ele já fosse um adolescente de treze anos, cheio de acne e em crise com a voz, que ora saia fina como a de uma soprano, ora parecia um tenor desafinado. Ele me tinha como uma irmã mais nova, que cuidava e ao mesmo tempo com quem podia dividir seus gostos por esportes, musicas, filmes, desenhos, histórias em quadrinhos... Estávamos sempre juntos. No começo, minha mãe achava estranho que meu melhor amigo fosse um menino, mas papai a tranquilizou dizendo que eu precisava de um irmão mais velho, ainda mais por ser filha única e morar em um país diferente. Crescemos juntos, trocando experiências, aprontando algumas, ficando de castigo. Houve vezes em que ficamos separados nas férias, quando o garoto viajava com sua família; eu contava os dias para que ele voltasse logo e me trouxesse algum presente, mas a verdade é que não tinha graça ficar sem ele. Quando Álvaro tinha dezesseis anos, arrumou uma namoradinha na escola e eu era encarregada de levar os bilhetinhos que eles trocavam, foi eu quem insisti para que ele a paquerasse, percebi que a olhava diferente e toda vez que a garota estava por perto, o comportamento dele mudava de i****a para patético. Álvaro era muito inseguro porque se achava f**o e desengonçado, o que não deixava de ser verdade, mas isso foi há anos, quando nos conhecemos, agora seu corpo já estava mais harmonioso, os braços pareciam ter parado de crescer mais rápido que as pernas e ele já não era tão magro... não, não, não... havia engordado um pouco e algumas definições musculares apareciam pelo corpo. Sua pele já não era mais um queijo suíço e seu cabelo podia não ser o mais lindo da escola, mas pelo menos não fedia mais a cachorro molhado. Meu plano como cupido deu certo, e em troca faturava algumas figurinhas para meu álbum de coleções, uns salgados na cantina da escola, ingressos para o cinema e quando eles estavam juntinhos na casa dela, conseguia certa quantia em dinheiro. Éramos grudados a ponto de dormimos na casa um do outro nos finais de semana. Bem,  isso até ele começar a ter um comportamento estranho e me proibir de deixá-lo ver se trocando, começou a dormir de bermuda e camiseta diferentes de quando usava apenas samba-canção, além disso,  quando suas namoradinhas estavam por perto, simplesmente trancava a porta do quarto e me deixava pra fora. Nossos finais de semana já não eram tão nossos, e enfim, passamos a nos ver com menos frequência, mas ele sempre me acompanhava ou me buscava na escola, mesmo quando começou a trabalhar de entregador na cafeteria onde trabalho atualmente, dava um jeito de fugir em seu horário de descanso para me vigiar e saber se eu não andava aprontando por aí. Quando mamãe tinha algum compromisso à tarde, me deixava na cafeteria e eu fazia companhia pra ele, atendendo as mesas, recolhendo pratos, limpando as janelas. Eu ganhava gorjetas e acabei ficando por lá de vez quando tinha onze anos e Álvaro teve que ir para a faculdade na Cidade do México. No começo, eu ficava apenas nos finais de semana, para não atrapalhar meus estudos, depois alguns dias da semana por meio período e fui efetivada quando fiz quinze anos. Mesmo estando longe, ele vinha passar alguns finais de semana, feriados e aniversários em casa, me levava pra passear pela cidade, nos cinemas e jogávamos bola... Já chegamos a amanhecer o dia em um torneio de vídeo game, até papai participava; quando ele tinha que voltar, era aquela choradeira, parecia que meu irmão, um pedaço de mim, estava me deixando. Em seus últimos dois anos na faculdade, Álvaro firmou namoro sério com uma tal de Selena. Eu o vi umas duas ou três vezes, quando aquelazinha o permitiu vir nos visitar, claro, com a companhia dela. Era insuportável a patricinha, cheia de não me toque... de cara não nos demos e acabamos discutindo uma vez quando ela me chamou de "pirralha intrometida" e eu retribui com um "vaca siliconada". Foi uma fase muito difícil, meu corpo estava passando por grandes transformações: agora meu cabelo é que era seboso, as espinhas me perseguiam e fiquei medonha de aparelho, tive que usar muito a contra gosto meu primeiro sutiã, já havia me transformado em uma mocinha, como dizia mamãe, e agora deveria me comportar como tal. Não contei para o Álvaro porque fiquei com medo dele me rejeitar; ele sempre meu viu como irmã, me tratou como tal, e eu achei que isso poderia nos trazer para a realidade de que eu era, na verdade, uma mulher, e talvez isso o fizesse se distanciar de mim, mais do que já estávamos afastados. Por fim, ele ficou sabendo do jeito mais vergonhoso  que poderia haver... em uma de suas visitas, esqueci meu absorvente sobre a mesa do meu quarto, quando entrei, ele já o tinha encontrado, aberto e colocado como t**a olhos. Quando o vi deitado na minha cama com aquilo na cara, senti vontade de abrir um buraco, voei para cima dele e depois de "lutar" pelo meu absorvente de trocentas abas, ele, óbvio, riu de toda aquela cena que armei, mas depois me jurou nunca mais tocar no assunto. Só que todas as vezes que discutíamos, ele me perguntava se a causa de estar tão irritada era por estar "naqueles dias"... E na maioria das vezes era. Fui levando minha vida, fazendo algumas novas amizades, mas nada de muita i********e; algumas vezes ia ao clube com as meninas do colégio, outras passava a tarde de sábado na quadra com os meninos da rua... Meninos? Já eram homens barbados, alguns já até tinham compromisso, carros e estavam indo para a faculdade, mas nunca perdiam por nada uma partida de futebol contra os caras da rua de trás! Quando fiz quinze anos minha mãe insistiu que eu precisava de uma festa à altura, mas eu não estava nem um pouco a fim de me fantasiar de princesa, dançar valsa, pisar nos pés do meu pai, e também não havia nada o que ser comemorado, pois papai ia sair de casa e estava tudo certo para sua volta ao Brasil, meu melhor amigo estava fora da cidade e com certeza teria algo bem mais importante que vir a uma festa de menininha. Acabei aceitando a contra gosto, pra dar uma alegria a minha mãe, afinal aquele ano foi muito sofrido para ela. Papai e mamãe já estavam em processo de separação há algum tempo, já que ele queria voltar para o Brasil e abrir um restaurante mexicano por lá, mas Dona Lourdes não desejava sair da sua casa que foi reformada e deixada a seu gosto, como sempre desejou, também não queria me tirar novamente de um lugar onde eu tinha amigos, trabalho, escola, toda uma vida. Ela também já tinha sua rotina, sua vida estabilizada por aqui, o relacionamento já estava se desgastando com as constantes discussões e para não perderem o respeito e a amizade que restavam, a separação amigável foi a solução. Depois de muitas conversas em família, aceitei que isso era o melhor para todos nós; por não estarmos próximos de nossos outros familiares e por eu ser filha única, sempre fomos muito unidos., Penso que, se talvez mantivessem ao menos o contato cordial, seria menos pior que prolongar o fim de uma relação que já não existia há muito tempo. Tenho sorte por ter tido pais que nunca me esconderam nada e sempre conversaram abertamente sobre tudo comigo, e, juntos, nós três chegamos ao consenso de que o divórcio não significava o fim do nosso laço de amor e cumplicidade, na verdade, nunca deixaríamos de ser uma família. Combinamos que papai voltaria ao Brasil somente após a minha "tão desejada" festa de aniversário, bom, pelo menos é o que minha mãe acredita até hoje. "Toda garota, por menos feminina que seja, sempre sonha com sua festa de debutante", é o que ela sempre dizia. Mergulhamos nos preparativos para o baile, mamãe, para esquecer a ida do papai, eu, para esquecer que meu melhor amigo, meu maior confidente, não estaria presente no dia que de qualquer forma seria o mais importante da minha vida, afinal, desde que nos conhecemos, sempre comemoramos nossos aniversários juntos, sem festas, mas com nossos pais, às vezes só entre a gente, em algum torneio de vídeo game, jogando futebol ou até mesmo comendo tacos com guaca-mole em alguma pracinha da cidade. Em quase quatro anos, ele não estava comigo, fingi que não me importava com essa falta, em todas as nossas mensagens trocadas, deixava de mencionar os planos de minha mãe para a festa. Álvaro tinha acabado de se formar e ainda continuava na capital, estava cumprindo o contrato de estágio com uma grande agência publicitária na qual trabalhou durante a faculdade, me avisou alguns meses antes do meu aniversário que por conta de estar empenhado finalizando um importante projeto, seria impossível comemorarmos juntos este ano. Senti que ele estava desapontado por não estar comigo neste dia e achei melhor não deixá-lo pior, além disso, em dezembro, seu período de estágio acabaria e ele logo voltaria para a cidade, assim poderíamos resgatar todos esses momentos que perdemos nos últimos quatro anos. Passamos por agosto quase sem perceber, setembro chegou mais rápido que de costume, eu ia ao colégio de manhã, trabalhava na cafeteria à tarde e à noite ajudava mamãe e a equipe que ela montou para agilizar enfeites, convites, arranjos, lembrancinhas, vestidos... Enquanto ela regia tudo com o maior orgulho, papai ficou responsável por arrumar o buffet, a iluminação e o som. O senhor Gutierrez, pai do Álvaro, ficou incumbido de contratar e organizar o pessoal da segurança; os rapazes do time de futebol estavam providenciando o serviço de bar e todas as bebidas; todos da vila estavam ajudando como podiam, sempre fomos muito queridos por toda a vizinhança, foram dois meses de força tarefa, seria uma festança para todo o bairro, os moradores da nossa rua aceitaram fechá-la para que pudéssemos fazer o evento. Meus pais estavam radiantes, tão felizes que por um momento até acreditei que aquela separação não ia mais acontecer. Um dia antes do meu aniversário, falei com Álvaro por telefone, ele parecia meio cansado e distante, não consegui esconder minha frustração. — Olha, eu acho que vou indo nessa, nos falamos outra hora. — O que foi, mocinha linda? Te deixei zangada? – Perguntou com uma voz calma. — Não, não é isso! Na verdade eu é que fico te atrapalhando com meus assuntos sem importância, enquanto você está aí ocupadíssimo com projetos, publicidade, contratos, eventos, desenhinhos, mulheres lindas... – Não fiz questão de disfarçar a ironia. — Ei, ei, ei... – interrompeu, ele — Alto lá, você está brava comigo por que tenho que trabalhar? — Sim, estou! E me sinto uma filha da mãe egoísta por isso! — Imagina? Bom é que... Bem, você está sempre tão ocupado, já não nos vemos há meses e parece que nem se preocupa... — Esther, pare! – me interrompeu outra vez, mas agora com sua voz que se tornou grave e forte — Sabe que me importo muito com você, com suas coisas, com tudo que te acontece. Você é minha irmãzinha. Como eu não poderia me importar com a minha melhor amiga? Mas você tem que entender que estou num momento complicado, preciso entregar este projeto, a empresa que nos contratou está em cima das nossas cabeças, a cobrança é muito grande, e a Selena também... — Cara, aquela vaca siliconada ainda não saiu do seu pé? – bufo — Você realmente é um banana... quando vai dizer pra ela que não a quer mais? Ou quer? — Não. Ela já é passado! – Ele parece decidido — Temos projetos diferentes, e bem, você já sabe de toda a história, mas ela se n**a a aceitar que não temos mais volta. Acontece que, só depois de entregar meu projeto e concluir meu trabalho, terei tempo de dar um basta nisso. — Nossa, vocês homens são mesmo complicados! – Sorri. — Nós? Homens? Falou a mulher mais macho que já conheci! – Ele realmente nunca me viu como uma mulher. — Olha, me desculpe pelo egoísmo – assumi — É que sinto sua falta. Nunca ficamos tanto tempo sem nos vermos e já faz quase seis meses, foi tão rápido que não consegui te contar tudo, Dona Lourdes e Sr. Eduardo realmente vão se separar, acho que vou ficar... — Logo estaremos juntos novamente – me cortou, já sabendo o que eu iria dizer — Não se preocupe, não vai ficar sozinha, não vou deixar! Falta pouco, pequena, aguenta mais um pouquinho, ok? Pode prometer que vai se comportar mais alguns meses até eu chegar aí e te amarrar ao meu pé? – Sua voz era doce e me encheu de alegria. — Álvaro! – Sussurrei. — Fala moleque! – Ele sorriu. — Sinto sua falta! – Confessei. — Sinto sua falta também! – Pude notar seu suspiro. — Boa noite. — Boa noite.

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