Deus! Ele pensou em tudo

1132 Words
Dia seguinte... Ester Hoje é segunda-feira. Ontem, fiz todos os exames. Está tudo bem. Nada me impede de ir para casa. Casa? Um arrepio percorre meu corpo enquanto imagino minha vida no apartamento de Murat. A palavra soa estranha, distante, quase sem sentido. Com os olhos embaçados pelas lágrimas, encaro o dia nublado lá fora. O sol tenta atravessar as nuvens escuras que insistem em encobri-lo. Parece um reflexo da minha vida: uma luta constante para encontrar um caminho em meio aos empecilhos. Desde que acordei neste hospital, tenho me sentido assim, como se estivesse à deriva. Minha mente se perde em um ciclo incessante de pensamentos sobre como minha vida é um caos, uma confusão sem fim. Eu não deveria ter saído de casa. Deveria ter engolido as palavras ácidas da minha mãe. Aceitado suas ordens, suas exigências. Talvez fosse mais fácil permitir que ela ditasse minha vida: as roupas que deveria vestir, os lugares a frequentar, o namorado almofadinha que ela escolheria para mim. As imagens invadem minha mente de repente, tão vívidas que quase posso ouvi-las. — Sua grandíssima i****a! Você é como seu pai, um ingrato, que vivia me criticando. — A voz dela ecoa, carregada de ódio, cortando como uma faca. — Não é novidade para mim que pense assim. — Se sair de casa, não poderá mais voltar. Nunca mais quero ver sua cara. Seu irmão está saindo por sua culpa! — Minha culpa? Foi ele que me propôs isso! Ele que arrumou o apartamento para dividirmos. Nem ele aguenta mais você! Você nos sufoca com essa mania de grandeza, nos ditando o tempo todo como devemos nos vestir, falar, comer. Quero viver a realidade, não essa fantasia que você criou! A dor daquele confronto ainda pesa em meu peito. — Você vive cercada por pessoas com rostos plastificados, palavras superficiais. Estou cheia disso! Para você, o homem perfeito para mim seria alguém como Tom Adam, um bêbado bajulador com uma conta bancária cheia. Tom. O tipo de homem que eu desprezava. Rico, criado no luxo, fugindo de qualquer desconforto ou desafio. Um verdadeiro i****a que nunca enfrentou os "nãos" da vida. — Sua ingrata! Eu quero o melhor para você! — gritou minha mãe, exasperada. — Não, mãe. Você quer o melhor para você. Quer o status de me ver casada com alguém assim, enquanto destrói tudo o que sou no processo. Balanço a cabeça, tentando afastar as lembranças. Não adiantava discutir com ela. Não adiantava tentar explicar. Não, eu não seria sua bonequinha de luxo. Nunca conseguiria engolir a mente superficial que ela carregava. A entrada da enfermeira me traz de volta ao presente. Ela mede minha pressão e faz anotações rápidas, enquanto eu observo o movimento mecânico das mãos dela. Sim, estou sendo bem cuidada neste hospital particular. Murat me transferiu para cá. As enfermeiras vêm a todo momento, cuidando de mim, medicando, ajudando com a comida. Estou tão dolorida que m*l consigo me mexer, e o esforço mínimo já me esgota. Assim que a enfermeira termina, Murat entra no quarto acompanhado pelo médico. Ele sorri para mim, mas logo volta sua atenção para o doutor Roger. Eles conversam em tom baixo, enquanto minha cuidadora, Julia, se aproxima deles. Sei que discutem sobre meu estado, sobre o que é melhor para mim. Murat. Apesar de tudo, gosto dele. Há algo em seus olhos que me faz acreditar que ele não é como os homens que odiei minha vida inteira. Murat é intenso. Ele não usa palavras para agradar, não finge. É franco, direto, e isso me desarma. Mas, ao mesmo tempo, perguntas invadem minha mente: Como ele me enxerga? O que ele quer comigo? Sou apenas uma fascinação passageira? Algo desejado pelo simples fato de ser negado? Suspiro. Talvez seja isso. Um homem como Murat — charmoso, inteligente, bonito — se apaixonar por alguém como eu? Não faz sentido. Homens como ele obtêm tudo o que querem, sejam coisas ou pessoas. Usam, depois descartam. Horas depois, chego ao apartamento. Estou sentada em uma cadeira de rodas, suando frio por causa da dor no tórax. Cada movimento é uma tortura. Assim que entro, uma senhora de meia-idade surge na sala. — Boa noite, senhor Çelik. — Boa noite, Tereza. Esta é Ester Marshal, a moça de quem falei. E esta é Julia Campbell, a cuidadora. — Ah, prazer em conhecê-las. — Tereza sorri educadamente e depois se volta para mim. — O senhor Çelik preparou todo o quarto para recebê-la. Espero que fique confortável. Vou levar sua mala para lá. Meu coração dispara, e eu olho para ele, buscando algum tipo de conforto. Mas Murat evita meu olhar. Ele continua com o semblante sério, voltado para Tereza. — Isso, e mostre o quarto que ficará a senhora Campbell. — Sim, senhor! — Ela responde a Murat com um aceno de cabeça e um sorriso discreto. Em seguida, volta-se para a cuidadora: — Acompanhe-me. Assim que elas deixam a sala, o silêncio se instala. Murat me estuda, seus olhos escuros e intensos fixos em mim, como se tentassem enxergar além da minha aparência cansada. — Você está pálida. Deve estar com dor. Precisa se deitar. Eu te levo para o quarto. Suas palavras são tão íntimas, tão repletas de preocupação, que meu coração se agita. Ele se posiciona atrás da cadeira de rodas e começa a me conduzir pelo apartamento. Passamos pelos cômodos, mas minha mente está tão confusa, tão desgastada, que m*l registro os detalhes. Ainda assim, percebo a sofisticação discreta ao meu redor. O espaço é amplo, iluminado, com uma decoração que equilibra funcionalidade e beleza. Apesar disso, sinto-me anestesiada, incapaz de focar em qualquer coisa. A fraqueza em meu corpo é quase insuportável, como se cada movimento drenasse o pouco de energia que ainda me resta. Murat acende as luzes do quarto, revelando um espaço decorado em tons pastéis que exalam serenidade. Porém, algo imediatamente chama minha atenção: Uma cama hospitalar? Minhas sobrancelhas se arqueiam em surpresa enquanto meus olhos percorrem o ambiente. Uma televisão grande, de 52 polegadas, está fixada em um suporte estrategicamente posicionado em frente à cama. De um lado, um rádio-relógio digital marca o passar das horas com precisão, enquanto do outro há uma jarra de barro com água e um copo cuidadosamente virado para baixo. Deus! Ele pensou em tudo. Quando Murat se agacha ao meu lado, o gesto me desarma completamente. Estremeço, incapaz de ignorar a proximidade. Seus olhos negros se encontram com os meus, e por um momento sinto como se ele pudesse ver direto para minha alma. — Chegamos ao seu santuário. Aqui você ficará até se recuperar. Terá paz, tranquilidade. Não quero que se preocupe com nada. Qualquer problema ou necessidade, você me avisa, e o que estiver ao meu alcance, eu farei.
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