Recomeço.

1214 Words
Estou lavando a louça do café da manhã. Murat e o senhor Çelik tomaram juntos hoje cedo. Murat estava sério, com o rosto fechado. m*l me olhou. Não sei se ficou ofendido com a minha observação de ontem ou se agiu assim para não dar bandeira na presença do pai. Talvez tenha sido por ambas as razões. A senhora Çelik tomou o café mais tarde e, logo depois, entrou na cozinha e foi para os fundos da casa. Estou angustiada. Quero muito falar com Rose, recuperar minha carteira de trabalho e pedir a conta. É a oportunidade perfeita, já que Murat estará ausente nos próximos dias. Assim que terminei a louça, fui atrás de Rose e a encontrei no quarto de Murat. Meu coração disparou ao sentir o perfume dele no ar. O cheiro preenchia o ambiente. Sobre a poltrona, a roupa que ele usava quando foi até o meu quarto era uma lembrança forte demais. — Rose. Ela parou de arrumar a cama e se virou para mim. — Aconteceu alguma coisa? — Não. Eu gostaria de pegar minha carteira de trabalho com você. — Por que quer sua carteira? Apertei os lábios, hesitante. —Eu desisti desse emprego. Rose veio até mim, o rosto estampando espanto. — Pensei que você estivesse gostando daqui e que estava se adaptando bem. — Quero tentar algo na minha área. Ela respirou fundo e apertou os lábios, como se contivesse uma resposta. — Se eu soubesse que ficaria tão pouco, não teria contratado você. — Desculpe. Não era minha intenção prejudicar ninguém. Ela soltou o ar lentamente. — Vamos até à biblioteca. Sua carteira está lá. Segui-a até a biblioteca. Logo ao entrar, avistei minha carteira de trabalho sobre a grande mesa de madeira escura, cuja superfície polida brilhava sob a luz. — Já falou com Norma? — perguntou Rose. — Não. Achei melhor conversar com você antes, já que foi quem me contratou. — Vai embora hoje? — Não. Pensei em sair amanhã. Quero cumprir meu trabalho até o fim do dia. — Tudo bem. Avisarei ao senhor Çelik assim que ele chegar. À tardinha, o senhor Çelik chegou do trabalho. Servi-lhe o café da tarde e, antes que ele começasse a comer, Rose aproveitou a oportunidade para falar sobre minha demissão. Fiz questão de ficar presente. — Por que quer ir embora? — Ele perguntou, avaliando meu rosto. Seu olhar era desconfiado. — Resolvi procurar trabalho na minha área. — Que área é essa? — questionou, curioso. — Fui recepcionista em um grande hotel. Ele me encarou por um instante antes de pegar um pedaço de pão. — Está certo. Farei suas contas ainda hoje. — Obrigada. Ele fez um leve aceno com a cabeça e me retirei da sala, aliviada, mas com o coração pesado.A sensação de alívio por ter tomado uma decisão se misturava ao peso de deixar para trás tudo o que vivi nessa casa — principalmente Murat. Agora, com minha carteira de trabalho em mãos e o dia quase chegando ao fim, sinto uma pontada de incerteza. Será que estou fazendo a escolha certa? O perfume de Murat ainda parecia me acompanhar, como uma sombra que não queria me abandonar. De volta ao meu quarto, arrumo minhas coisas em silêncio, evitando pensar demais. Amanhã, quando cruzar os portões dessa casa, terei uma nova chance de recomeçar. Mas, por ora, tudo o que consigo fazer é respirar fundo e me preparar para enfrentar o que vem pela frente. No dia seguinte, Rose foi mais do que gentil. Indicou-me uma pensão só para mulheres e pediu ao motorista da casa que me levasse até lá. Após me registrar, fui recebida por Margot, uma senhora rechonchuda e simpática, que me apresentou ao quarto e às instalações onde eu passaria os próximos dias. A estadia incluía uma refeição diária, à escolha entre almoço ou jantar. Optei pelo jantar, já que passaria o dia fora em busca de emprego. Depois de acertar o pagamento do mês adiantado e ficar praticamente sem dinheiro, guardei minhas coisas no armário, tranquei a porta e saí para enfrentar mais uma batalha. Felizmente, a pensão ficava no centro, o que me permitiria fazer tudo a pé. Passei o dia preenchendo fichas em agências de emprego e participando de entrevistas com recrutadoras. Meu esforço foi tão intenso que, quando voltei para a pensão, já eram cinco da tarde. Sem comer nada o dia inteiro, fui à cozinha e tomei um copo d’água para enganar a fome até o jantar, marcado para as sete horas. Não podia me dar ao luxo de gastar o pouco dinheiro que me restava, pois não sabia quanto tempo levaria para encontrar trabalho. Deitada na cama, de papo para o ar, às seis da tarde, uma mulher entrou no quarto. Baixinha e um pouco gordinha, aparentava ter cerca de cinquenta anos. Ao vê-la se dirigir à cama vazia, entendi que dividiríamos o quarto. Ela largou a bolsa, sentou-se e, em seguida, olhou para mim com um sorriso. — Oi — disse, simpática. — Meu nome é Raquel Hertz. Pelo jeito seremos colegas de quarto nos próximos dias. — Sim, verdade. Eu sou Ester Marshal. Ela sorriu novamente e se jogou de costas na cama, soltando um suspiro cansado. — Deus, meus pés estão tão doloridos! Estou quebrada. — Está à procura de emprego? Ou está chegando do trabalho? — Estou procurando emprego, mas está tão difícil. E você, está trabalhando? — Não. Estou procurando também — respondi, desanimada. — Faz tempo que está nessa busca? — Um mês... e nada. Pensei imediatamente na vaga disponível na casa dos Çelik. — Sabe cozinhar? Ela se levantou, curiosa. — Sei. Por quê? — Saí de uma casa que está precisando de uma auxiliar de cozinha. — Verdade? Por que saiu? — Eu queria um emprego na minha área — respondi, tentando soar neutra. — Qual é a sua profissão? — Fui recepcionista em um grande hotel. Também falo bem espanhol. Meu pai nasceu em Madri e me ensinou desde pequena. Ele veio para a Inglaterra ainda jovem. Raquel assentiu, compreensiva. — Com o mercado tão complicado, não podemos nos dar ao luxo de escolher muito. Mas, com o seu espanhol, faz sentido que você queira algo melhor. Pode me passar o contato dessa família? Meneei a cabeça em negativa. — Não. Eles são muito reservados. Mas posso te dizer que usam a Escala, uma agência de recrutamento. Você pode tentar por lá. Ela sorriu, animada. — Farei isso! E, se eu souber de algo na sua área, prometo que te aviso. — Obrigada — agradeci, sentindo-me um pouco menos sozinha naquela nova fase. Ficamos conversando, desabafando sobre a vida, as dificuldades que enfrentamos, a falta de dinheiro e o grande número de desempregados. É impossível ignorar: vivemos tempos de crise. Embora a conversa tenha fluído naturalmente, notei que nenhuma de nós se aprofundou em detalhes pessoais. Eu não falei muito sobre a minha vida, e Raquel também não. E eu entendo perfeitamente o motivo. Nossas vidas estão em transição. Hoje estamos aqui, mas amanhã podemos estar em outro lugar. É difícil criar laços profundos quando tudo ao nosso redor é incerto e transitório. Talvez, no fundo, ambas saibamos que esta conexão, por mais reconfortante que seja agora, é passageira.
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