Preciso pensar com a razão, segurar firme as rédeas da lógica e não deixar que as emoções me conduzam. Tudo isso é um jogo, e eu conheço as regras. Ele é o caçador, e eu, a presa. Nada mais. Não há espaço para romantizações baratas, nada de histórias perfeitas como em livros ou comédias românticas. Isso aqui é a vida real. E a realidade é esta, se eu não agir agora, vou afundar antes mesmo de perceber. Preciso sair dessa casa enquanto ainda estou só na atração. Antes que essa emoção cresça e me arraste para um lugar sem volta.
Minha decisão está tomada: pedir as contas e encarar o mundo lá fora e nunca olhar para trás. Melhor voltar para o pulgueiro onde morava, onde ainda podia sonhar sem correntes. Aqui, neste lugar, não há espaço para respirar. Não consigo sequer receber ligações sobre novas oportunidades sem ser interrompida por ele ou pela sombra que ele projeta sobre tudo. Se eu consegui este emprego, consigo outro. Só preciso encontrar a saída antes que seja tarde demais.
Murat
Reescreverei o texto em primeira pessoa, mantendo a narrativa no tempo presente e intensificando as emoções e descrições.
A voz dele ainda ecoa na minha mente enquanto organizo os papéis que levarei na viagem. Tudo está preparado: a reunião em Manchester é minha chance de fazer algo grandioso, de provar meu valor. Minhas mãos deslizam pela pasta de couro, verificando mais uma vez se tudo está em ordem. É meu ritual antes de qualquer compromisso importante, um momento para acalmar os pensamentos e focar.
Mas, como sempre, ele aparece.
— Soube pelo seu pai que você e Hazal Omã estão... namorando. — A voz de Tabor, com aquele tom irritante de superioridade, invade o silêncio do meu escritório.
Levanto os olhos devagar, deixando o desprezo transparecer em cada linha do meu rosto. Não preciso me esforçar; o desgosto vem naturalmente sempre que ele está por perto.
— Namorando? — repito, minha voz carregada de sarcasmo. — Ainda se usa esse termo? Se quer saber, estamos nos conhecendo melhor.
O sorriso dele se alarga, mas seus olhos brilham com malícia.
— Ah, sim, claro. Conhecendo melhor. Do jeito que você é alérgico a compromissos, isso combina mais com o seu estilo. Deve ser difícil se prender a uma garota quando tantas passam pela sua cama, não é?
Meu sangue ferve, mas mantenho a calma. Dou um sorriso frio, calculado, aquele que sempre desestabiliza qualquer um.
— Não quando se gosta.
A satisfação é instantânea. Vejo o impacto das minhas palavras nos lábios que ele aperta instintivamente, o sorriso desaparecendo como se nunca tivesse existido. Ele é previsível demais.
Não perco tempo com esse verme, mas ele insiste em me provocar. Sempre foi assim desde que começou a trabalhar aqui. Ele é o brinquedo favorito do meu pai, o p*u-mandado perfeito, sempre pronto para qualquer tarefa que o velho designar. Às vezes, acho que o próprio Ahmed o orienta a me irritar. Não duvido.
Verifico os documentos na pasta mais uma vez. Está tudo aqui. Manchester me espera, e pretendo resolver tudo em dois dias. Mas o verme ainda está aqui, de pé, como uma mosca que se recusa a ser espantada.
— Então, está gostando da garota? — ele provoca, a voz carregada daquele tom insuportável de curiosidade fingida.
Antes que eu possa responder, meu pai entra no escritório. Como num passe de mágica, Tabor muda de postura. Ele se apruma, estufa o peito, como um cãozinho adestrado que aguarda um comando.
— Já está indo? — meu pai pergunta, ignorando completamente o clima pesado que paira na sala.
— Sim, baba. Essa conta será nossa. O senhor vai ver.
Ahmed acena com a cabeça e, então, vira-se para Tabor.
— Vamos para a reunião? O cliente já está nos aguardando.
Minha respiração falha.
— Que reunião? — pergunto, incapaz de esconder a surpresa.
— Tabor conseguiu uma reunião com Robert Smith. Ele teve a brilhante ideia de sugerir uma venda casada. Nossos televisores serão oferecidos junto com a assinatura da System. Vamos negociar tudo agora.
FDP. Essa ideia é minha! Meses atrás, comecei a perseguir esse cliente como um cão faminto, elaborando cada detalhe desse plano. Agora, Tabor está roubando o crédito bem na minha cara.
Bato com força na mesa, ignorando a carranca que meu pai lança na minha direção.
— Espera aí! Essa ideia foi minha. Estou há meses tentando falar com esse cliente!
— Não importa quem teve a ideia. Tabor conseguiu a reunião.
Levanto tão rápido que a cadeira de rodinhas vai parar no janelão de vidro atrás de mim. Meu tamanho, 1,90, contrasta brutalmente com os 1,70 de Tabor. Caminho na direção dele, deixando minha sombra engoli-lo. Meus olhos fixam nos dele, queimando com uma fúria que m*l consigo conter.
— Como você ficou sabendo que eu estava atrás de Smith? Está ouvindo conversas atrás da porta?
A sala mergulha no silêncio. Possibilidades passam pela minha mente: alguém está vazando informações. Minha secretária? Escutas no meu escritório? Não tenho dúvidas de que meu pai está envolvido.
Ahmed segura meu braço, me empurrando para longe.
— O que é isso, Murat? Deveria ficar feliz. Aqui, trabalhamos em equipe. Você teve a ideia, ele conseguiu o cliente.
Rio, mas sem humor algum.
— Equipe? Que equipe? Vocês me deixaram de fora. Se eu não tivesse perguntado, nem saberia dessa reunião!
— Exatamente por isso. Para evitar essa confusão toda. Você sabe que não gosto dessa rixa entre vocês.
Rixa? É assim que ele chama anos de manipulação? Olho para Tabor, que ainda está aqui, esperando como o cachorrinho fiel que é.
— Saia. — Rosno, incapaz de disfarçar minha raiva.
Ele olha para Ahmed, como sempre, buscando aprovação. Meu pai acena, e Tabor sai, fechando a porta atrás de si.
Viro-me para meu pai, cada palavra pesada como chumbo.
— O senhor acha que está enganando quem? Desde que Tabor começou a trabalhar aqui, o senhor instigou essa rivalidade. Ele não está aqui por competência. Eu trouxe milhões para esta companhia, e o senhor sabe disso. Ele está aqui como um lembrete, uma ameaça, caso eu não ande na linha.
O olhar de Ahmed endurece, mas não recuo.
— Pense como quiser. A verdade é que estou preparando Tabor para assumir meu lugar caso você continue vivendo de forma leviana. Quero um sucessor sério, não alguém que desonra a família com sua fama de irresponsável.
Solto o ar, balançando a cabeça em desolação.
— Parabéns, pai. O senhor está criando uma cobra. Mas vou fazer o que faço de melhor: trazer mais milhões para a companhia. É isso que deveria importar, não minha vida pessoal.
Saio, batendo a porta com força. Não costumo fazer isso, mas hoje é irresistível. Minha secretária dá um pulo na cadeira, assustada. Nem olho para ela. Há uma tempestade dentro de mim, e preciso de um plano para acalmá-la.