Eu engulo em seco, meu rosto afogueado, não consigo responder por causa da expressão dele que parece uma pedra, seus olhos como balas me almejando.
— Meu coração é de carne. Não de pedra como pensa — diz ele, a voz carregada de algo que não consigo decifrar completamente.
Ele se levanta com firmeza, como se quisesse selar a conversa ali, antes que qualquer emoção o denunciasse. Seus olhos se fixam nos meus por um instante, mas rapidamente ele desvia o olhar, como se estivesse se protegendo.
— Bem, vou indo.
Inclina-se para mim e deposita um beijo na minha testa. É um toque breve, seco, mas firme. Não há hesitação em seu gesto, mas também não há suavidade. Parece um beijo de despedida, como se quisesse me lembrar de algo que não consigo entender.
Então ele se afasta, endireitando os ombros largos, o peito estufado como se carregasse um escudo invisível. Seus passos são decididos, ecoando pelo quarto em uma marcha de orgulho inabalável. Eu o observo até que ele desapareça pela porta, deixando apenas o cheiro amadeirado de seu perfume e um vazio que parece preencher todo o ambiente.
Sozinha novamente, a voz na minha cabeça começa a sussurrar, insidiosa e implacável.
Obrigada, mãe...
Sim, obrigada por isso. Por essa desconfiança cravada em mim como uma segunda pele. Por me ensinar a ver o pior em todos, a questionar intenções, a enxergar o mundo como um campo de batalha onde todos querem algo em troca. Cada vez que alguém se aproxima, a voz em mim grita: "Ele só quer se aproveitar de você."
Fecho os olhos e respiro fundo, mas isso não ajuda. Não silencia a dor de carregar essa barreira inquebrável entre mim e qualquer um que tente se aproximar.
Deus! O que eu estou fazendo?
Essa pergunta paira no ar como um eco, mas a resposta não vem. Em vez disso, sinto o peso das minhas decisões, das palavras não ditas, das emoções reprimidas. Murat... Ele pode ser muitas coisas, mas será que é justo colocá-lo nessa lista n***a sem sequer tentar entender quem ele realmente é?
Eu me deito, mas o sono não vem. Só há um pensamento girando na minha mente, uma ideia que cresce e me inquieta.
Preciso dar uma chance para ele.
Por mais difícil que seja, por mais que minha cabeça grite o contrário, talvez seja hora de baixar a guarda. Tentar compreender Murat nesse meio tempo, descobrir o que realmente se esconde por trás de seus gestos, de seus olhos que parecem sempre me estudar.
Uma chance... Talvez seja só isso que ele precisa.
Murat
Saio do apartamento com os pensamentos fervendo. Cada passo que dou ecoa como um martelar constante contra o meu orgulho.
Seu idiot.a!
A voz na minha cabeça grita como um comandante cru.el. Ela está louca para se ver livre de você! Pare de rastejar por ela.
Cada palavra dita por Ester no quarto ainda está fresca na minha mente, como se ela tivesse gravado suas dúvidas diretamente na minha pele. O olhar dela, aquela expressão de reserva... Como se eu fosse apenas mais um homem querendo algo dela. Um crápula.
Eu estava criando esperanças. Sim, esperanças de que, quando as amarras dessa situação se desfizessem, ela me olharia de outra forma. Que talvez, só talvez, ela percebesse que meu gesto não é apenas de responsabilidade ou culpa. Que há algo mais.
Mas agora... Agora vejo que não será assim.
Ester já está calculando o momento de partir. Já está imaginando a liberdade longe de mim, questionando o que quero em troca.
Como se o meu amor fosse uma dívida a ser paga.
As palavras dela martelam no meu peito, me forçando a encarar uma verdade que eu vinha tentando ignorar.
Preciso me preparar.
Se ela quer partir, não posso me colocar como uma barreira no caminho. Não posso segurar alguém que não deseja ficar. Preciso aprender a olhar para ela de outra forma, como alguém que passou pela minha vida e não como alguém que eu esperava que permanecesse nela.
Não posso criar expectativas.
Sim, é isso. As visitas precisarão ser mais curtas. Os momentos, mais distantes. Preciso evitar que o envolvimento cresça, que o que sinto por ela se enraíze ainda mais. Assim, quando chegar o momento em que ela resolver partir, meu coração estará pronto. Pronto para aceitar isso, por mais que doa.
Respiro fundo, mas o aperto no peito não cede. A comparação surge em minha mente como um sussurro antigo, algo que sempre fez sentido, mas que agora parece terrivelmente verdadeiro.
O amor é como uma flor em um precipício.
Você desce sem cordas, confiando apenas na própria força, na própria vontade de alcançá-la. Mas se houver qualquer deslize, qualquer contratempo, não há como voltar. Não há ninguém para te puxar de volta do buraco em que você se meteu.
Eu me meti nesse precipício por vontade própria, mas agora vejo a escuridão abaixo. Não há garantias, não há certezas.
Ester é essa flor.
E talvez seja hora de aceitar que ela não foi feita para ser colhida.
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Dias depois....
Cheguei ontem à noite de viagem. A exaustão ainda pesa sobre meus ombros, mas não é apenas física. Hoje vou almoçar na casa de Hazal, mantendo a fachada que criamos. Ainda estamos na mesma situação, vivendo essa farsa. Para ela, também é conveniente. Seu pai, assim como o meu, está calmo, sem aquela urgência sufocante de encontrar pretendentes para nós.
Hazal me confidenciou recentemente que está interessada em um rapaz da faculdade. Hoje eles são apenas amigos, e ele nem desconfia do sentimento dela. Quando ouvi isso, senti dois sentimentos opostos se agitando no meu coração. O primeiro foi um alívio genuíno, a felicidade de saber que não estou ferindo ninguém com essa encenação. Mas, ao mesmo tempo, uma tristeza inesperada por ela se abateu sobre mim.
Será que ela percebe a situação em que está se colocando? Se ela abrir seu coração para ele, precisará estar pronta para enfrentar as consequências. Será como lançar uma pedra em um ninho de vespas. Esses costumes que nos prendem são como muralhas, e ela precisará estar disposta a enfrentar tudo para atravessá-las.