Murat apaixonado.
Meu coração, que há pouco parecia explodir, agora se contrai em um misto de confusão, esperança e medo.
Murat apaixonado!
Não! Não pode ser. Ele é bom demais, atencioso demais... Há algo por trás dessa bondade toda. Um homem como ele não faz nada sem um motivo. Ele deve ter um objetivo.
O pensamento me atinge como uma facada no peito. Ele quer que eu ceda, que eu me entregue. Que eu seja dele.
Que eu seja sua amante.
A ideia é ao mesmo tempo fascinante e aterrorizante.
Fecho os olhos novamente, tentando sufocar as emoções que me consomem. Mas é inútil. A imagem de Murat, suas palavras, seu toque... tudo volta para mim com uma força incontrolável.
E, mais uma vez, meu coração acelera.
🌞🌙🌞🌙
Dois dias se passaram...
É tarde, pouco mais de nove da noite, e meus olhos estão fechados. Não porque estou dormindo, mas porque não consigo encarar o vazio do quarto. Ontem, passei o dia todo esperando por Murat, cada som do lado de fora me fazia pensar que ele entraria pela porta a qualquer momento. Mas ele não veio.
Tentei me convencer de que não importava. Não sou uma garotinha boba e dependente... mesmo que a realidade insista em me lembrar de que, no momento, sou exatamente isso. Desempregada, sem perspectiva, com uma mãe egoísta e carente, e agora dependente de um homem que parece me carregar como um fardo.
Uma lágrima escapa antes que eu consiga segurá-la. Limpo-a rapidamente, como se negar sua existência fosse suficiente para me proteger de sua causa.
Acho que ele não vem...
Essa certeza amarga começa a se instalar quando sinto o aroma familiar e inconfundível que o precede. Meu coração dispara, ignorando minha razão, e antes que eu abra os olhos, sua mão desliza gentilmente pelos meus cabelos. É um toque delicado, mas cheio de uma energia que me faz prender a respiração.
Abro os olhos devagar, como se temesse que ele fosse apenas uma ilusão criada pela minha mente desesperada. Mas não é. Ele está ali, de verdade, parado ao lado da minha cama.
Deus, como ele está lindo. O terno n***o impecavelmente ajustado destaca seus ombros largos, e a gravata vermelha contrasta com a camisa branca, adicionando um toque de sofisticação. Meu coração parece inflar com uma alegria que não sei de onde vem.
— Oi — digo, a voz um pouco rouca pela emoção que tento esconder.
Ele se senta no canto da cama, os olhos fixos em mim, me estudando como se quisesse descobrir o que está por trás do meu olhar.
— Você está bem? — pergunta, a preocupação transbordando de sua voz.
Eu hesito. Tento decifrar a sinceridade em sua expressão antes de responder:
— Eu... acho que sim.
Ele dá um sorriso lento, que parece carregar um alívio silencioso.
— Tereza e Júlia têm dado conta do recado?
Eu aceno e sorrio levemente.
— As duas são maravilhosas. Tereza faz pratos incríveis, e Júlia tem sido uma cuidadora excelente.
O sorriso de Murat se amplia, e ele parece genuinamente satisfeito com minha resposta.
— Você veio direto do trabalho ou passou em casa? — pergunto, tentando entender seu ritmo.
— Vim direto, mas passei em um restaurante de comida japonesa antes — responde com naturalidade.
Eu arqueio as sobrancelhas, avaliando-o com curiosidade.
— Comida japonesa?
Ele confirma com um pequeno sorriso.
— Comprei um combinado. Tereza está desembalando, daqui a pouco ela trará para nós.
— Vou precisar comer com palitinhos? — brinco, soltando um leve sorriso.
Ele ri suavemente.
— Não, claro que não.
— Que bom, porque não faço ideia de como usar.
— Ninguém é perfeito — ele provoca, os olhos passeando pelo meu rosto com um toque de leveza.
Nesse momento, Tereza entra com a bandeja, a comida disposta de forma impecável em uma barca de madeira. Murat se levanta, ajusta a cama para que eu fique mais confortável e puxa a mesa hospitalar. Ele pega a barca das mãos de Tereza com cuidado e a coloca na minha frente.
— Nossa! — exclamo, admirada. — É linda.
Ele sorri, satisfeito.
— Não só bonita. É deliciosa também.
Tereza nos observa com um sorrisinho discreto antes de sair, deixando-nos a sós.
— Vamos, prove esses sushis de salmão com raiz forte — Murat incentiva, apontando para os pequenos pedaços de arte culinária.
— Não, quero sentir o sabor deles primeiro — respondo, pegando um.
— Sério que nunca comeu?
— Nunca.
— Espero que goste. — Ele parece nervoso, seus olhos atentos às minhas reações.
— Tenho certeza de que vou gostar. Não sou exigente para comer.
Seu sorriso relaxa, e comemos tranquilamente, enquanto ele me incentiva a experimentar de tudo. Nunca pensei que poderia gostar de peixe cru, mas cada pedaço parece melhor que o anterior.
Quando terminamos, recosto-me satisfeita.
— Foi maravilhoso — digo, sincera.
Murat se levanta, afasta a mesa e me encara por um instante antes de olhar o relógio.
— Bem, preciso ir — anuncia, sua voz mais baixa.
— Tão cedo... — A frase escapa dos meus lábios antes que eu possa impedi-la.
Ele para, surpreso. Seus olhos escuros me estudam, e seu rosto suaviza.
— Amanhã vou viajar cedo. Não sei quanto tempo ficarei fora.
— Tudo bem — respondo, tentando mascarar meu desapontamento.
Ele se senta novamente, pega minha mão e a segura com firmeza.
— Se precisar de qualquer coisa, peça à Tereza. Ela providenciará para você. Precisa de algo agora?
— Meu celular. Pedi à Júlia que procurasse, mas ela não encontrou.
Seus olhos escurecem, e ele me encara com intensidade, como se buscasse algo escondido em meu interior.
— Ele deve ter se perdido no acidente. Por que precisa do celular?
— Para falar com minha tia...
— Sua tia mesmo? — Ele parece estar se segurando, mas há algo mais por trás de sua pergunta.
Meu coração acelera.
— Sim. Não tenho ninguém. Nenhum homem. É essa sua preocupação?
Ele pisca, como se tivesse sido pego desprevenido, e suaviza a expressão.
— Eu compro um novo para você.
Engulo em seco. Algo dentro dele ainda me confunde, e decido arriscar uma pergunta:
— Se eu ficar bem e quiser partir... você aceitará numa boa?
Seu rosto endurece, a respiração fica visivelmente mais pesada, e seus lábios tremem antes de ele responder.
— Você é livre, Ester. Como eu disse, não estendi minha mão para te prender a mim. É isso que pensa?
As palavras me atingem como um golpe. Ele está sério, os olhos como balas cravados em mim, e a tensão no ar parece palpável.