Murat? Sem educação?

1228 Words
Murat O guarda-roupa vazio dela me atinge como um golpe seco no peito. Minha mandíbula trava, os músculos do maxilar têm vida própria, enquanto um turbilhão de emoções se desenrola dentro de mim. Dor, raiva, decepção... Não sei qual deles vai ganhar essa corrida desenfreada para dominar meu coração, mas sinto o gosto amargo de todos. E esse aperto na garganta? Angústia? Não sei. Tudo o que sei é que estou sufocando. Ofego. Minhas passadas ecoam no chão de madeira enquanto caminho de um lado para o outro no antigo quarto dela. Cada detalhe é um lembrete de que ela esteve aqui, mas agora não está mais. A cama perfeitamente arrumada. As cortinas que ainda carregam o perfume dela, tão sutil, tão c***l. O espelho vazio me devolve um reflexo que não reconheço. — Então ela foi embora? — murmuro para o vazio, a voz áspera como um punhal. Ela se aproveitou da minha ausência para fugir. Fugir de mim. Um riso seco escapa dos meus lábios, mais amargo do que qualquer insulto. Por que eu me importo? O que eu vi nessa mulher para que ela me desestabilize assim? A vontade de socar a porta do roupeiro é quase irresistível, mas me seguro. Respiro fundo, apertando os olhos com força. Não vou perder o controle. Não aqui. Saio do quarto dela com a mesma discrição com que entrei, tentando enganar a casa e a mim mesmo. Quando alcanço meu quarto, me jogo na cama como se meu próprio corpo pesasse toneladas. Minhas malas estão no canto, testemunhas silenciosas da minha ruína. Tiro o paletó e a camisa, cada botão que desfaço parece um desafio. A gravata já tinha sido arrancada antes, quando eu ainda estava cheio de esperança. A pego de cima da cama e, com um movimento brusco, a lanço do outro lado do quarto. Um grito de frustração preso na garganta. Idiota. Eu sou um i****a. Tão logo cheguei, corri para o quarto dela, cheio de saudade, de uma vontade insana de beijá-la, sentir o calor do corpo dela, ouvir sua voz. Estava ávido, como um adolescente no auge da paixão. E para quê? Para encontrar um quarto vazio. Foi como levar um soco direto no estômago. Um aviso claro e c***l: “Acorde, Murat. Esqueça essa mulher. Você sempre foi racional. Não deixe que seus desejos destruam tudo”. Fecho os olhos e tento me lembrar de quem sou. Meu sonho de ser presidente. Meu futuro. Todos os meus sacrifícios. Sim, é disso que eu preciso. Eu preciso esquecer Ester. Preciso enxergar Hazal com outros olhos, como meu pai tanto quer. O que é Ester, afinal? Um capricho? Um desejo passageiro? Mas meu corpo reage antes de minha mente. O coração acelera, a respiração se torna pesada, como se alguma força maior me puxasse para um abismo onde Ester reina absoluta. Ela, com aqueles cabelos que queimam como fogo, a voz rouca que sempre vem cheia de sarcasmo e provocação. Ela, com aqueles olhos verdes que me olham como se pudessem despir a minha alma. — Que se dane! — exclamo, minha voz um misto de raiva e desafio. Afasto-me do abismo. Meu futuro é maior. Meu pai tem razão. Preciso de uma mulher da minha cultura, uma esposa que não traga surpresas. Alguém que se encaixe no meu destino. Está na hora daquele verme do meu primo ser colocado no seu lugar. Meu futuro ditará isso. Talvez meu pai esteja mesmo com a razão: com uma mulher adequada, meu caminho será certo, e não terei surpresas que possam desestabilizar tudo. Mas, ao mesmo tempo, uma lembrança me atravessa como uma lâmina. A imagem de Ester nos meus braços, os olhos verdes arregalados, os lábios entreabertos, o corpo entregue àquele momento. Uma mistura de desejo e desafio. E eu sabia, em cada toque, que estava perdido. Em um gesto brusco, desfaço o cinto e o lanço no chão, tentando afastar esses pensamentos. Não posso. Não quero. Isso é irracional. Eu não a conheço direito. Ela é só uma mulher. É só... Fecho os punhos. Meu corpo inteiro parece em guerra com minha mente. Por quê? Por que ela tem esse poder sobre mim? Eu a queria apenas na minha cama, não na minha vida. E ainda assim, mesmo com essa convicção frágil, não consigo evitar a certeza incômoda que rasteja pelo meu peito. Ela me marcou de um jeito que terei grande dificuldade em apagar. Uma semana depois... Ester  Uma semana e nada de emprego. Ao contrário de Raquel, que hoje cedo me ligou no celular dizendo que conseguiu a vaga na casa dos Çelik. Meu coração disparou com a notícia. Ela me disse que ligaria mais a noite e me passaria suas impressões com relação aos patrões. Estou agitada agora, olhando toda hora o celular. Ansiando por sua ligação. Quando meu celular toca e o nome Raquel surge no visor, eu o pego na mão e quase e o derrubo. Já são nove horas da noite. Com certeza ela já serviu o jantar para todos e está me ligando do seu quarto. —Raquel? —Oi, Ester. —E aí? Gostou do emprego? Ela funga no telefone. —Rose e Norma são como você disse, uns amores. Mas fiz como pediu, não mencionei que você me indicou a vaga. Meu coração se agita. —Sim, eles são muito desconfiados. São muito fechados por causa da natureza Turca—solto o ar antes de perguntar—E os donos da casa? Teve contato com eles? Quando fiz essa pergunta foi a mesma coisa de perguntar se Murat tinha chegado de viagem e se ela o conheceu. —Sim, conheci todos hoje. O senhor e a senhora Çelik e... meu Deus, o lindão de seu filho, embora eu o ache sem educação nenhuma. Deus! Então ele chegou. Sem educação? O que ela quis dizer com isso? Eu engulo em seco. —Murat? Sem educação? —Muito. Extremamente irritado, reclamou de tudo. Que o leite estava frio, que o pão estava murcho. Coitada da cozinheira. Ainda bem que eu só servi. Ela que fez toda a refeição dele. —Entendo. —Norma disse que geralmente ele não é assim, mas que não sabe que bicho mordeu o rapaz. Parece que ele está assim desde que chegou de viagem. —Verdade? —Questiono e digo com o coração apertado. —Nossa! O que me livrei! —Sim, verdade. Ainda bem que o homem não quis jantar hoje e eu não tive que servi-lo. —Bem, Raquel. Boa sorte. Espero que tudo dê certo para você aí. —Obrigada por tudo. Eu já estava um bom tempo desempregada. Minhas economias estavam acabando. Nem sei o que faria se você não tivesse me dito sobre essa vaga. —Que bom! Então boa noite. —Para você também. Deitei-me na cama e fiquei a olhar para o teto. Já conheço cada rachadura nele, de tanto olhar para ele pensando na vida. Será que Murat estava assim por que fui embora? Não! Não pode ser! Nem nos conhecemos o suficiente para ele agir dessa maneira. Algo deve ter acontecido no trabalho para deixá-lo assim. Talvez a soma disso, o trabalho e descobrir que suas investidas caíram por terra. Afinal, do jeito que ele é arrogante, deve ter ficado morto de raiva por ser dispensado por uma mulher, uma simples empregada.
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