Capítulo 3 – No Ritmo da maré

971 Words
A música pulsava como um segundo coração na praia lotada. A cada passo que Gabbie dava ao lado de Eiden, sentia como se atravessasse uma fronteira invisível entre o que era conhecido e o que estava apenas começando a se revelar. Ela nem sabia se aquilo era certo ou precipitado — só sabia que queria descobrir. — Quer dar uma volta? — ele perguntou, apontando discretamente com o queixo para uma parte mais tranquila da praia, onde as luzes da festa não chegavam. Ela hesitou, o coração batendo mais rápido. Mas havia algo na maneira como ele olhava que a deixava à v*****e. Como se dissesse, sem palavras, que ela podia confiar. — Quero — respondeu, surpresa com a própria firmeza. Começaram a andar em silêncio, os pés afundando na areia úmida e fria. O mar murmurava baixo, com ondas suaves quebrando na orla. A brisa carregava o cheiro de sal e algo doce vindo da barraca de batidas, que ainda podia ser vista de longe. — Você parece meio deslocada... mas de um jeito bom — Eiden disse, quebrando o silêncio. — Deslocada é uma palavra gentil — Gabbie respondeu, rindo baixo. — Eu me sinto uma estranha no ninho. Tipo um arquivo que não carrega. Eiden deu uma risada curta, sincera. — Talvez você só esteja em processo de download. Ainda tá carregando tudo o que precisa pra funcionar aqui. Ela riu, surpresa com a resposta criativa. Aquilo parecia tão bobo, mas também tão certo. Como se, aos poucos, a nova vida estivesse mesmo se instalando nela, pedaço por pedaço. Chegaram a um ponto onde havia uma pedra grande, achatada, meio coberta por areia e sal. Eiden subiu primeiro e estendeu a mão para ajudá-la. Ela aceitou, sentindo o calor da pele dele contra a sua. Sentaram lado a lado. Dali, a visão era linda: o mar parecia um espelho quebrado refletindo as luzes da festa ao longe e o céu infinitamente estrelado. Gabbie encostou os braços nos joelhos e soltou um suspiro. — Esse lugar parece irreal. — É. Mas às vezes, é justamente o irreal que a gente precisa. Ela virou o rosto e o observou por um segundo. A expressão de Eiden era serena, mas seus olhos tinham algo a mais. Como se escondessem histórias que ele ainda não estava pronto pra contar. E isso só o tornava mais interessante. — Por que você ainda tá aqui? — ela perguntou, meio sem pensar. — Na cidade ou aqui com você? — Os dois. Eiden sorriu, desviando o olhar pro mar. — Eu gosto da calma daqui. Da sensação de que o tempo anda devagar. E de poder conhecer pessoas novas que não me veem como os outros veem. Tipo você. Gabbie mordeu o lábio inferior, segurando um sorriso. — Eu te vejo como...? — Como alguém curioso. Que observa antes de mergulhar. Que sorri meio tímido, mas fala com o olhar. — Ele virou o rosto e a encarou. — Acertei? Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Não esperava ser vista tão rápido. E isso a desarmou completamente. — Tá perigosamente perto da verdade — disse, baixinho. A conversa foi interrompida por um g***o de garotos que passou correndo pela areia, rindo e jogando água uns nos outros. Gabbie olhou e riu da cena. — Isso aqui parece um clipe de verão, né? — ela comentou. — Só falta a câmera girando em câmera lenta e a música romântica de fundo. — Quer que eu comece a dançar em slow motion pra completar o efeito? — ele brincou. Ela gargalhou. — Por favor, não! Vai estragar tudo! — Ei! Eu tenho meus passos — disse, fingindo estar ofendido. — Aposto que tem. — Ela se calou por um instante, e depois perguntou, com uma curiosidade genuína: — E o que você faz além de dar em cima de garotas novas na praia? Eiden fez uma careta divertida. — Uau, direta assim? — É a bebida — ela deu de ombros, rindo. — Culpa da batida. — Ok, confissão: eu sou meio artista. p***o, desenho, às vezes escrevo. E você? — Publicidade. Gosto de criar, escrever, pensar em coisas que mexam com as pessoas. — Então a gente se conecta por aí. Criar é o que deixa a gente vivo. Gabbie ficou em silêncio, pensando. Ele falava com paixão. Com verdade. E ela se deu conta de que aquele era o tipo de conexão que não se achava todo dia. Que talvez fosse sorte demais encontrar algo assim logo de cara. — Me conta um segredo — ele pediu de repente. — Um segredo? — É. Um qualquer. Nada muito pesado. Pode ser até bobo. Ela pensou um pouco. — Eu tenho medo de não me encaixar. Em lugar nenhum. Tipo... de ser aquela peça que parece que vai caber no quebra-cabeça, mas no fim nunca encaixa direito. Eiden ficou sério por um segundo. — Talvez você só esteja tentando se encaixar no quebra-cabeça errado. Gabbie olhou pra ele, surpresa com a resposta. Era isso. Exatamente isso. — Sua vez — ela disse. Ele respirou fundo. — Eu tenho medo de gostar de alguém e... essa pessoa ir embora. Por isso, às vezes, eu não deixo ninguém chegar muito perto. Ela mordeu o lábio, pensativa. — Mas e se alguém quiser ficar? Eiden olhou pra ela, com um sorriso leve no canto dos lábios. — Aí talvez eu precise reaprender como é se deixar ficar também. O silêncio que veio depois não era vazio. Era cheio de possibilidades. De promessas não ditas. Eles ficaram ali, lado a lado, observando o mar se mover, como se o tempo tivesse parado só pra eles. E naquela noite, Gabbie percebeu: talvez aquilo não fosse só uma ficada. Talvez fosse o começo de algo que nem ela sabia nomear ainda.
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