A música pulsava como um segundo coração na praia lotada. A cada passo que Gabbie dava ao lado de Eiden, sentia como se atravessasse uma fronteira invisível entre o que era conhecido e o que estava apenas começando a se revelar. Ela nem sabia se aquilo era certo ou precipitado — só sabia que queria descobrir.
— Quer dar uma volta? — ele perguntou, apontando discretamente com o queixo para uma parte mais tranquila da praia, onde as luzes da festa não chegavam.
Ela hesitou, o coração batendo mais rápido. Mas havia algo na maneira como ele olhava que a deixava à v*****e. Como se dissesse, sem palavras, que ela podia confiar.
— Quero — respondeu, surpresa com a própria firmeza.
Começaram a andar em silêncio, os pés afundando na areia úmida e fria. O mar murmurava baixo, com ondas suaves quebrando na orla. A brisa carregava o cheiro de sal e algo doce vindo da barraca de batidas, que ainda podia ser vista de longe.
— Você parece meio deslocada... mas de um jeito bom — Eiden disse, quebrando o silêncio.
— Deslocada é uma palavra gentil — Gabbie respondeu, rindo baixo. — Eu me sinto uma estranha no ninho. Tipo um arquivo que não carrega.
Eiden deu uma risada curta, sincera.
— Talvez você só esteja em processo de download. Ainda tá carregando tudo o que precisa pra funcionar aqui.
Ela riu, surpresa com a resposta criativa. Aquilo parecia tão bobo, mas também tão certo. Como se, aos poucos, a nova vida estivesse mesmo se instalando nela, pedaço por pedaço.
Chegaram a um ponto onde havia uma pedra grande, achatada, meio coberta por areia e sal. Eiden subiu primeiro e estendeu a mão para ajudá-la. Ela aceitou, sentindo o calor da pele dele contra a sua.
Sentaram lado a lado. Dali, a visão era linda: o mar parecia um espelho quebrado refletindo as luzes da festa ao longe e o céu infinitamente estrelado. Gabbie encostou os braços nos joelhos e soltou um suspiro.
— Esse lugar parece irreal.
— É. Mas às vezes, é justamente o irreal que a gente precisa.
Ela virou o rosto e o observou por um segundo. A expressão de Eiden era serena, mas seus olhos tinham algo a mais. Como se escondessem histórias que ele ainda não estava pronto pra contar. E isso só o tornava mais interessante.
— Por que você ainda tá aqui? — ela perguntou, meio sem pensar.
— Na cidade ou aqui com você?
— Os dois.
Eiden sorriu, desviando o olhar pro mar.
— Eu gosto da calma daqui. Da sensação de que o tempo anda devagar. E de poder conhecer pessoas novas que não me veem como os outros veem. Tipo você.
Gabbie mordeu o lábio inferior, segurando um sorriso.
— Eu te vejo como...?
— Como alguém curioso. Que observa antes de mergulhar. Que sorri meio tímido, mas fala com o olhar. — Ele virou o rosto e a encarou. — Acertei?
Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Não esperava ser vista tão rápido. E isso a desarmou completamente.
— Tá perigosamente perto da verdade — disse, baixinho.
A conversa foi interrompida por um g***o de garotos que passou correndo pela areia, rindo e jogando água uns nos outros. Gabbie olhou e riu da cena.
— Isso aqui parece um clipe de verão, né? — ela comentou. — Só falta a câmera girando em câmera lenta e a música romântica de fundo.
— Quer que eu comece a dançar em slow motion pra completar o efeito? — ele brincou.
Ela gargalhou.
— Por favor, não! Vai estragar tudo!
— Ei! Eu tenho meus passos — disse, fingindo estar ofendido.
— Aposto que tem. — Ela se calou por um instante, e depois perguntou, com uma curiosidade genuína: — E o que você faz além de dar em cima de garotas novas na praia?
Eiden fez uma careta divertida.
— Uau, direta assim?
— É a bebida — ela deu de ombros, rindo. — Culpa da batida.
— Ok, confissão: eu sou meio artista. p***o, desenho, às vezes escrevo. E você?
— Publicidade. Gosto de criar, escrever, pensar em coisas que mexam com as pessoas.
— Então a gente se conecta por aí. Criar é o que deixa a gente vivo.
Gabbie ficou em silêncio, pensando. Ele falava com paixão. Com verdade. E ela se deu conta de que aquele era o tipo de conexão que não se achava todo dia. Que talvez fosse sorte demais encontrar algo assim logo de cara.
— Me conta um segredo — ele pediu de repente.
— Um segredo?
— É. Um qualquer. Nada muito pesado. Pode ser até bobo.
Ela pensou um pouco.
— Eu tenho medo de não me encaixar. Em lugar nenhum. Tipo... de ser aquela peça que parece que vai caber no quebra-cabeça, mas no fim nunca encaixa direito.
Eiden ficou sério por um segundo.
— Talvez você só esteja tentando se encaixar no quebra-cabeça errado.
Gabbie olhou pra ele, surpresa com a resposta. Era isso. Exatamente isso.
— Sua vez — ela disse.
Ele respirou fundo.
— Eu tenho medo de gostar de alguém e... essa pessoa ir embora. Por isso, às vezes, eu não deixo ninguém chegar muito perto.
Ela mordeu o lábio, pensativa.
— Mas e se alguém quiser ficar?
Eiden olhou pra ela, com um sorriso leve no canto dos lábios.
— Aí talvez eu precise reaprender como é se deixar ficar também.
O silêncio que veio depois não era vazio. Era cheio de possibilidades. De promessas não ditas. Eles ficaram ali, lado a lado, observando o mar se mover, como se o tempo tivesse parado só pra eles.
E naquela noite, Gabbie percebeu: talvez aquilo não fosse só uma ficada.
Talvez fosse o começo de algo que nem ela sabia nomear ainda.