O domingo amanheceu preguiçoso. O som distante das ondas ainda ecoava na memória de Gabbie, mesmo que o quarto estivesse silencioso. A luz entrava pela janela, dançando preguiçosamente nas paredes claras, e cada canto do cômodo parecia ecoar o que ela sentia por dentro: confusão, curiosidade e uma ansiedade que não sabia explicar.
Ela rolou na cama, encarando o teto por longos minutos. O beijo, as conversas, os olhares de Eiden... tudo voltava em flashes desorganizados. Mas o que mais ficava era a sensação do toque dele. O jeito como ele a olhou quando disse que tinha medo de gostar de alguém e essa pessoa ir embora. Aquilo grudou nela.
Pegou o celular, hesitante. Nenhuma mensagem dele.
Talvez fosse cedo. Talvez ele estivesse dormindo. Ou talvez aquilo tenha sido só mais uma noite típica pra ele, enquanto pra ela... não foi.
Desceu pra cozinha onde a tia e a mãe conversavam baixinho, tomando café e comendo pão de queijo.
— Dormiu fora do fuso horário? — brincou a mãe.
— Um pouco — respondeu, pegando uma caneca de café preto. — A festa foi boa. Diferente.
A tia levantou uma sobrancelha.
—"Diferente", hein? Olha só, o verão tá fazendo efeito.
Gabbie fingiu não entender e levou a caneca à boca, esperando que o calor do café despertasse algo além da mente — que acalmasse o coração também.
Depois do café, foi pra varanda. O mar podia ser visto ao longe, azul e calmo, contrastando com a bagunça interna que se formava. Ela ligou a música no celular e deixou uma playlist aleatória tocar. As letras falavam de encontros inesperados, de começos intensos, de paixões repentinas — parecia que o universo estava conspirando pra deixá-la ainda mais pensativa.
O celular vibrou. Uma notificação.
**Eiden: “Ainda digerindo a batida de morango? Ou foi só o beijo que te deixou tonta?”**
Ela riu sozinha, mas o coração acelerou. Digitou rápido:
**Gabbie: “Mais o segundo que o primeiro. A batida foi leve comparada ao impacto emocional.”**
**Eiden: “Impacto emocional? Você fala bonito até de um beijo.”**
**Gabbie: “Deformação publicitária.”**
**Eiden: “Quero te ver de novo. Hoje.”**
Simples assim.
Gabbie encarou a mensagem por alguns segundos. Queria responder sim na hora. Mas um pensamento cruzou como uma nuvem: e se estiver indo rápido demais? E se ele for só mais um que sabe falar o que ela quer ouvir?
Respirou fundo e digitou:
**Gabbie: “Hoje pode ser. Mas sem batidas dessa vez.”**
**Eiden: “Sem batidas. Só calmaria.”**
***
Encontraram-se no fim da tarde. Eiden a esperava perto do deck da praia, sentado numa bicicleta antiga, com uma sacola térmica ao lado. Estava com camiseta larga e bermuda, cabelos presos num coque baixo e o mesmo sorriso de sempre — aquele que dizia mais do que palavras.
— Trouxe sorvete artesanal — ele anunciou, como se fosse o presente mais precioso do mundo. — A calmaria que eu prometi vem sabor coco com manga.
— Você sabe conquistar, hein?
— Tô tentando — respondeu com naturalidade, entregando o potinho com uma colher de madeira.
Caminharam pela orla enquanto o sol descia no céu como tinta laranja escorrendo devagar. Gabbie se sentia estranhamente confortável ali, como se aquele lugar — aquela cidade, aquela pessoa — já fosse parte da sua rotina.
— Posso te perguntar uma coisa? — ela disse, depois de algumas colheradas.
— Sempre.
— Você é sempre assim? Direto, intenso... presente?
Ele olhou pra frente, pensativo.
— Nem sempre. Já fui mais fechado. Já fugi de muita coisa. Mas quando algo me toca de verdade, eu me permito. E você me tocou, Gabbie.
Ela parou de andar por um segundo. O vento jogou uma mecha do cabelo dela pro rosto, e Eiden, sem pensar, ajeitou com delicadeza.
— Você não me conhece direito ainda — ela disse, quase num sussurro.
— Então me deixa conhecer. Devagar, do seu jeito.
O sorvete derretia, escorrendo pelos dedos dela, mas nenhum dos dois se importava. O mundo parecia silencioso por alguns segundos. E no meio do som das ondas, dos pássaros e das crianças brincando ao longe, havia um tipo de silêncio que acolhia.
Gabbie nunca foi de se entregar fácil. Sempre foi a garota que construía muros e observava por trás deles. Mas agora, ao lado dele, sentia os tijolos desmoronando sem fazer alarde. Como se ela estivesse, pela primeira vez, permitindo que alguém entrasse sem pedir senha.
— Eu tô com medo — ela confessou, ainda olhando o mar.
— De mim?
— De mim mesma. De sentir demais. De me apegar e depois me ver sozinha de novo.
Eiden assentiu, respeitando a vulnerabilidade.
— Eu não sei o que vai ser isso aqui. Mas sei o que tô sentindo agora. E sei que vale a pena tentar.
Ela sorriu, quase sem perceber. Um sorriso pequeno, sincero. Desses que nascem mais nos olhos do que nos lábios.
— Tá tudo indo rápido, né?
— Quando é de verdade, parece rápido, mas é só o tempo certo.
Ficaram ali até o sol desaparecer por completo. Depois, Eiden a deixou em casa. O beijo de despedida foi mais demorado, mais cheio de significados. E, ao entrar em casa, Gabbie sentia o coração leve e, ao mesmo tempo, cheio. Como uma onda que se forma devagar e, quando chega, cobre tudo.
Ali, no silêncio do quarto, deitada com o celular na mão e os olhos fixos no teto, ela sabia: o verão estava só começando. Mas dentro dela, já havia tempestade.
Tempestade boa.
Sentimento de verdade.