Na manhã seguinte, o clima estava carregado, como se o céu também sentisse que algo estava prestes a mudar. Gabbie acordou mais cedo do que o normal, com aquela sensação incômoda no peito — como se a euforia da noite anterior tivesse deixado uma ressaca emocional.
Repassou na cabeça tudo o que viveu com Eiden. O beijo, a conexão, o jeito como ele falava com ela como se já a conhecesse há anos. Mas algo não saía da sua mente: a ideia de que talvez ele fosse assim com todo mundo. Carismático, envolvente, gentil... demais.
Levou o celular pro colo e abriu o perfil dele no i********:. Fotos lindas, sempre sorrindo, rodeado de amigos — e garotas. Muitas garotas. Comentários como “saudades daquele dia”, “você sempre incrível”, e um em especial:
**“A gente precisa repetir aquela noite. Você sabe qual.” – @Nina_Melo**
Gabbie leu e releu aquilo. O estômago virou. Tentou se convencer de que era só uma amiga, alguém do passado, uma brincadeira. Mas o cérebro já fazia o trabalho sujo: criando cenários, dúvidas, interpretações.
Logo recebeu uma mensagem.
**Eiden: “Acordou cedo. Sonhou comigo ou com a batida de coco?”**
Ela hesitou. Quis responder com leveza, como sempre fazia. Mas a dúvida entalada na garganta pesava.
**Gabbie: “Vi seu perfil. Quem é a Nina?”**
A resposta veio depois de alguns minutos. Minutos longos demais.
**Eiden: “Uma história antiga. Nada pra se preocupar.”**
Nada pra se preocupar? Aquilo a irritou mais do que se ele tivesse contado tudo. O tom evasivo, a falta de clareza. Parecia um daqueles alertas silenciosos que o coração entende antes da razão.
**Gabbie: “Antiga quanto? Ainda rola alguma coisa?”**
**Eiden: “Gabbie… ela é só parte do meu passado. E você é o agora.”**
“Você é o agora.” Palavras bonitas. Mas será que eram verdadeiras?
***
Mais tarde, decidiu sair sozinha. Precisava clarear a mente. Pegou um caderno de anotações e foi até uma cafeteria pequena e charmosa, que tinha visto nos primeiros dias na cidade. Se sentou num canto, pediu um café gelado e abriu o caderno, tentando escrever.
As palavras vinham aos pedaços. Rabiscou frases como:
> “Paixão à primeira vista é perigosa porque cega onde mais devíamos enxergar.”
> “O que é verdadeiro não precisa se esconder.”
> “Sentir é simples. Confiar é que complica.”
Estava imersa nos próprios pensamentos quando ouviu a porta da cafeteria se abrir. Ao olhar para o lado, o coração deu um salto.
Eiden.
Mas não estava sozinho.
Ao lado dele, uma garota alta, morena, de sorriso largo e expressão confiante. Nina. Ela reconheceu de imediato da foto do i********:. Os dois entraram rindo, como se compartilhassem uma piada interna.
Gabbie congelou.
Ela tentou não olhar, fingir que estava ocupada, mas era impossível. Sentia o sangue fervendo, o estômago se retorcendo, o peito apertado. Estava pronta para levantar e sair, mas foi nesse momento que Eiden a viu.
O sorriso dele vacilou por um segundo. Ele murmurou algo para Nina, que respondeu com um sorriso ambíguo. Depois, ele se aproximou da mesa de Gabbie, visivelmente desconfortável.
— Gabbie... eu não sabia que você vinha aqui.
Ela manteve a postura firme, mas a voz saiu mais gelada do que queria.
— Você disse que ela era passado.
— E é. Ela veio visitar a irmã, nos encontramos por acaso e... — ele passou a mão no cabelo, nervoso. — Eu ia te contar.
— Ia? Quando?
Ele hesitou. Isso bastava.
— Eu não tô pedindo que confie em mim sem dúvidas — disse, com a voz mais baixa — mas... eu também não quero que esse tipo de coisa apague o que a gente tá construindo.
— E o que a gente tá construindo, Eiden? — ela perguntou, encarando ele de frente. — Porque até agora parece tudo lindo, mas cheio de brechas.
Eiden olhou pra ela como se quisesse dizer muita coisa, mas não tivesse as palavras certas. E então, de repente, Nina apareceu ao lado dele, com um copo na mão.
— Oi — disse com um sorriso sutil demais pra ser inocente. — Gabbie, né? Já ouvi falar de você.
Aquilo foi o fim.
— Prazer — Gabbie respondeu com ironia. — Espero que ele tenha te falado a verdade.
Nina arqueou uma sobrancelha, surpresa com a resposta direta. Eiden pareceu querer intervir, mas Gabbie já estava de pé, pegando suas coisas.
— Não quero fazer cena. Só quero clareza. — Olhou direto nos olhos dele. — Eu não sou só o “agora”, Eiden. Eu sou mais que isso. E mereço mais.
Saiu antes que lágrimas caíssem.
***
Horas depois, já em casa, recebeu uma última mensagem dele:
**Eiden: “Você tem razão. Me deixa provar que eu também sou mais do que pareço. Só não desiste de mim ainda.”**
Mas Gabbie não respondeu.
Não porque não quisesse. Mas porque, às vezes, o silêncio também é resposta.
E agora, mais do que nunca, ela precisava pensar com a cabeça e não só com o coração.