Capítulo 6 – Entre o Orgulho e o Coração

863 Words
*Parte I – Eiden* O som da porta da cafeteria se fechando atrás dela ficou ecoando na mente de Eiden como uma batida s***a. Ele ficou parado por alguns segundos, com a boca entreaberta e o coração martelando forte. Nina ao lado, segurando o copo de café, o olhava de soslaio, um pouco surpresa, um pouco satisfeita. — Isso foi intenso — comentou ela, como se estivesse assistindo a uma cena de filme. — A garota é brava. Eiden não respondeu. Apenas passou as mãos pelo rosto, tentando reorganizar os pensamentos que vinham todos ao mesmo tempo — rápidos, cortantes, desordenados. Ele não esperava encontrar Nina naquele dia. Não esperava que ela aparecesse do nada, com aquele mesmo sorriso de sempre, como se os meses sem se falarem não significassem nada. E quando ela sugeriu um café, ele não pensou. Ou melhor, pensou pouco. Mas agora, olhando pra trás, percebia o erro. Não tinha sido só um café. Tinha sido uma quebra de confiança, mesmo que sem intenção. Ele sabia como Gabbie era com sentimentos — intensa, sensível, intuitiva. Ele tinha visto nos olhos dela, nas palavras escritas no caderno, nas pausas entre as frases. Ela não era qualquer uma. Era diferente. E ele estava estragando tudo. Subiu na bicicleta antiga e saiu pedalando pelas ruas da vila, o vento batendo no rosto como tapas frios. O céu começava a nublar, dando à tarde um tom cinza que combinava com o seu humor. Ele pedalava como se fugisse de si mesmo, dos próprios erros. Quando chegou na praia, largou a bicicleta na areia e sentou na beira do mar. Tirou os tênis e sentiu a água gelada nos pés. Respirou fundo. O cheiro salgado, o som das ondas, o vento bagunçando os cabelos soltos — tudo isso deveria trazer calma. Mas só trazia mais saudade. Pensava na noite do beijo, na batida de morango, no jeito como ela o olhou depois, com os olhos brilhando e a respiração acelerada. Aquela noite não tinha sido comum. Ele sabia. Sentiu algo ali que não sentia fazia tempo. Mas o passado insistia em bater. Nina era uma lembrança viva de tudo o que ele foi antes de Gabbie. Superficial. Inconstante. Um pouco inconsequente. E agora que ele queria ser diferente, justo agora, estava colocando tudo a perder. Puxou o celular do bolso. Abriu a conversa com Gabbie. A última mensagem estava ali, sem resposta. > “Você tem razão. Me deixa provar que eu também sou mais do que pareço. Só não desiste de mim ainda.” Digitou mais uma vez. **Eiden: “Se você quiser que eu desapareça, eu desapareço. Mas se ainda existe alguma dúvida, qualquer pontinha de sentimento... me deixa tentar consertar.”** Apertou enviar. E então ficou ali, olhando o mar, esperando que a maré trouxesse alguma resposta. --- *Parte II – Gabbie* A chuva começou fraca, como uma garoa fina que escorria silenciosa pelos vidros do quarto. Gabbie estava sentada na beirada da cama, abraçada ao próprio joelho, com o celular no colo e os olhos fixos em nada. Sentia o coração pesado, como se tivesse engolido uma pedra. Ela nunca foi do tipo que criava expectativas rápido. Sempre teve cuidado. Mas com Eiden foi diferente. Ele chegou como um raio — iluminando, aquecendo, tocando fundo. E talvez fosse por isso que doía tanto. Revivia a cena na cafeteria como se estivesse em loop: o sorriso confuso dele, o olhar de surpresa, a presença dela — Nina — como uma sombra que apagava a luz que eles estavam construindo. Levantou-se e caminhou até a janela. A praia estava vazia, o mar revolto. Cada onda parecia gritar dentro dela. Pegou o caderno e folheou as páginas até chegar nas de ontem. Leu o que tinha escrito e se sentiu frágil. Como se tivesse exposto demais. Como se tivesse entregado o coração cedo demais. Mas ao mesmo tempo… tinha sido real. O toque dele, as palavras, a entrega. Não era mentira. Ela sentia. E era isso que mais doía: não saber onde termina a verdade e começa a dúvida. O celular vibrou. Era a nova mensagem de Eiden. > “Se você quiser que eu desapareça, eu desapareço. Mas se ainda existe alguma dúvida, qualquer pontinha de sentimento... me deixa tentar consertar.” Ela leu e releu. Sabia que ele não era perfeito. Nenhum dos dois era. Mas talvez... talvez fosse isso que tornava tudo mais verdadeiro. Não era um conto de fadas. Era um verão bagunçado, intenso, cheio de rachaduras e sentimentos novos. E isso era assustador. Mas também era humano. Escreveu, sem pensar muito: **Gabbie: “Não é sobre sumir. É sobre estar. Estar de verdade. Não quero me sentir mais uma. Quero me sentir escolhida.”** O tempo entre ela enviar a mensagem e ele visualizar foi um eterno segundo. **Eiden: “Você é. Desde o dia do seu mergulho atrapalhado e do seu olhar orgulhoso. Desde ali.”** Ela sorriu. Pequeno. Quase tímido. Mas verdadeiro. Ainda estava magoada. Ainda precisava de tempo. Mas talvez, só talvez... ainda houvesse espaço pra tentar. Se amar era uma escolha, perdoar também era. E ela estava começando a considerar isso
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD