A chuva cessou por volta das quatro da tarde, mas o céu ainda carregava tons escuros, como se o verão estivesse em pausa. O cheiro de terra molhada invadia as ruas, misturado ao aroma do mar que vinha em ondas suaves, trazendo com ele uma melancolia indecisa.
Gabbie estava na varanda da casa onde estava hospedada, com um cobertor jogado nos ombros e o olhar perdido entre as nuvens. A conversa com Eiden ainda ecoava em sua mente, repetindo cada palavra, cada silêncio. Ela não tinha certeza do que sentia — só sabia que sentia demais.
O celular, apoiado no braço da cadeira, piscou uma nova mensagem. Ela não precisou ler o nome para saber quem era.
**Eiden: “Posso te encontrar? Onde for. Só quero ver você.”**
Ela olhou para a tela por longos segundos, o dedo hesitante sobre o botão de resposta. Respirou fundo, sentindo o ar úmido invadir seus pulmões.
**Gabbie: “Tem um lugar… chama Curva do Silêncio. Sabe onde é?”**
**Eiden: “Sim. Te vejo lá.”**
***
A Curva do Silêncio era uma parte afastada da praia, pouco conhecida pelos turistas. Um caminho de pedras escondido por vegetação nativa levava até um ponto alto, de onde era possível ver o mar inteiro se estendendo até o infinito. Era o lugar onde Gabbie costumava ir pra se ouvir. Ou pra calar o barulho de dentro.
Quando chegou lá, o céu começava a mudar. O sol forçava passagem entre as nuvens, criando feixes dourados que cortavam o azul acinzentado. Gabbie se sentou em uma pedra grande, puxou as pernas contra o peito e esperou.
Minutos depois, ouviu o som de passos nas pedras. Não precisou olhar. Sabia que era ele.
Eiden se aproximou devagar, como quem sabe que está entrando num território frágil. Usava uma camiseta preta simples e jeans molhado até a canela, como se tivesse atravessado uma poça sem se importar. O cabelo bagunçado pelo vento, o olhar mais calmo do que antes — e ainda assim carregado de urgência.
Ele parou a poucos metros dela. Nenhum dos dois falou por um tempo.
O som do mar fazia o fundo da cena. O vento tocava seus rostos como dedos invisíveis.
— Pensei que você não viesse — ela disse, a voz baixa, mas firme.
— Eu quase não vim — ele respondeu, sentando-se ao lado, deixando um espaço entre eles. — Mas não vir seria desistir. E eu não tô pronto pra isso.
Ela não respondeu de imediato. Olhava o horizonte, onde o mar se encontrava com o céu como uma linha tênue e quase mágica.
— Ainda dói — confessou. — A imagem de vocês dois juntos... parece que ficou colada atrás dos meus olhos.
Eiden olhou para ela, mas respeitou o olhar distante.
— Eu não planejei aquilo, Gabbie. A aparição da Nina, o café... não significou nada. Mas a tua reação, tua dor... isso significa tudo.
Ela desviou o olhar pra ele, os olhos um pouco marejados, mas firmes.
— Você entende por que doeu tanto?
Ele assentiu.
— Porque você começou a acreditar que podia confiar em mim. E eu dei um motivo pra você duvidar disso.
— Exatamente.
O silêncio voltou por alguns segundos, mas era um silêncio mais leve. Um silêncio de quem está tentando, mesmo depois da queda.
— Eu sou diferente com você — Eiden disse, com uma honestidade que quebrou qualquer barreira. — Não é clichê. Não é frase pronta. Eu sou de verdade com você porque você me mostra quem eu sou de verdade. Mesmo quando isso assusta.
Gabbie respirou fundo. Estava prestes a falar, mas ele continuou:
— Eu tenho medo. De me perder em você. De bagunçar tudo. De não saber como fazer certo. Mas mais do que isso… eu tenho medo de te perder. E isso pesa mais.
Ela fechou os olhos por um segundo. A brisa do mar tocava seu rosto e mexia nos fios soltos de cabelo. Parecia que o mundo inteiro esperava por sua resposta.
— Eu também tenho medo — disse por fim. — Medo de acreditar em algo que vai me quebrar. De me entregar pra alguém que não vai ficar.
Eiden se aproximou um pouco mais. Ainda não a tocava, mas já estava ao alcance.
— Eu vou ficar — ele disse, com voz baixa, quase um sussurro. — Se você deixar.
Ela o olhou de novo. A expressão dele não tinha pressa, nem desespero. Só sinceridade.
— Você tem certeza?
— Só de uma coisa nessa vida.
Ela sorriu. Pequeno. Tímido. Mas cheio de tudo o que vinha guardando.
Eiden estendeu a mão, virada pra cima, entre eles. Um convite silencioso.
Gabbie hesitou por um segundo, olhando aquela mão, aquele gesto. Então, lentamente, colocou a dela sobre a dele. E foi como se o mundo respirasse aliviado.
***
Eles ficaram ali por mais de uma hora. Sem beijos, sem promessas. Só a presença um do outro e a troca de palavras sinceras. Falaram de medos, sonhos, das versões deles antes de se conhecerem. Foi como uma reconciliação entre almas, mais do que entre corpos.
O sol começou a se pôr, tingindo o céu de tons alaranjados e rosados. As nuvens se desfaziam lentamente, como se também estivessem liberando pesos.
Eiden tirou do bolso um papel dobrado. Entregou a ela.
— Escrevi isso depois da nossa briga.
Gabbie abriu e leu em silêncio.
> “Você é o intervalo entre o barulho e o silêncio.
> O ponto exato onde eu deixo de correr e começo a sentir.
> Eu não quero viver entre vírgulas.
> Eu quero ser ponto final com você.”
Ela leu duas vezes, o coração pulando no peito. Depois olhou pra ele, que estava esperando qualquer reação.
— Isso é lindo demais pra ter sido só uma madrugada insone.
— Foi mais que isso. Foi você. Desde que te conheci, as palavras voltaram pra mim. Eu queria que você soubesse disso.
Ela não disse nada. Apenas inclinou o corpo devagar e encostou a cabeça no ombro dele. Eiden fechou os olhos, como se aquele gesto valesse mais que qualquer resposta.
***
A volta foi em silêncio, mas um silêncio bom, cúmplice. Caminharam de mãos dadas pela areia molhada, os pés se afundando um pouco a cada passo, como se quisessem deixar marcas reais. O céu agora estava limpo, estrelado, e a lua refletia no mar como uma promessa silenciosa.
Quando chegaram na rua de casa, Gabbie parou em frente ao portão. Olhou pra ele com um sorriso tranquilo.
— Eu ainda preciso de tempo. De espaço. Mas agora… eu acredito em você.
— E eu vou cuidar disso — ele disse. — Mesmo de longe. Mesmo devagar.
— Então... até amanhã?
— Até amanhã — ele repetiu, relutando em soltar a mão dela.
Quando ela entrou, ele ficou parado ali, olhando o portão se fechar com um clique suave. Não doía mais. Não era despedida. Era só o começo.
O começo certo.