Capítulo 8 – O Lugar Que Não Precisa de Palavras

895 Words
O céu amanhecia em tons delicados de lilás e dourado. As ruas da vila ainda estavam silenciosas, como se o mundo tivesse decidido dormir um pouco mais. Gabbie acordou cedo, não por obrigação, mas porque o coração estava inquieto de uma forma boa. Um tipo de ansiedade doce, que fazia o estômago se revirar levemente, como quando se espera uma carta, um gesto, um toque. Na noite anterior, depois do reencontro com Eiden, ela m*l conseguiu dormir. Ficou relendo o bilhete que ele havia escrito, passando os dedos sobre as letras como se pudesse sentir a voz dele entre as linhas. Na tela do celular, uma nova mensagem: **Eiden: “Hoje, às 16h. Não se atrase. Endereço a seguir…”** Em seguida, ele enviou a localização de um lugar nos arredores da vila. Era um sítio pequeno, próximo de uma trilha de mata fechada. Gabbie não conhecia o local, mas algo dentro dela acendeu. Tinha certeza que aquilo não era apenas um passeio — era algo que ele tinha preparado. Ela sorriu, mordeu o lábio, e começou a se arrumar devagar. Escolheu um vestido leve, com estampa floral discreta, e prendeu o cabelo num coque frouxo. No espelho, viu seu reflexo e pela primeira vez em dias se reconheceu: havia luz nos olhos de novo. *** O caminho até o local era ladeado por árvores altas e flores silvestres. O ar ali era diferente, mais fresco, mais úmido, carregado de vida. Quando chegou ao portão do sítio, Eiden já estava esperando. Ele usava uma camisa branca de linho, mangas dobradas até os cotovelos, e calça de tecido claro. Os pés descalços sobre a grama denunciavam a simplicidade da cena. Mas o que mais chamava atenção era o olhar: calmo, gentil, cheio de intenção. — Você veio — ele disse, como se ainda não acreditasse. — Você me chamou — ela respondeu, com um meio sorriso. Eiden estendeu a mão. Quando os dedos se tocaram, foi como se o tempo pausasse por alguns segundos. Caminharam por um pequeno caminho de pedra até uma clareira entre as árvores. Ali, uma surpresa esperava por ela. No centro da clareira, um piquenique estava montado: uma toalha grande estendida sobre a grama, almofadas coloridas, lanternas penduradas nos galhos das árvores e uma cesta de vime aberta, cheia de frutas, pães, e doces simples. Mas o mais bonito não estava na decoração. Estava no gesto. — Você fez tudo isso? — Gabbie perguntou, tocada pela delicadeza do momento. — Com alguma ajuda do dono do sítio — ele riu — mas a ideia foi minha. Eu queria te levar pra um lugar onde as palavras não fossem necessárias. Onde o silêncio fosse bonito. Ela o olhou com ternura. Seus olhos diziam “obrigada” mesmo antes da boca. Sentaram-se sobre a toalha, o sol filtrando-se pelas folhas acima deles. O som da natureza ao redor era suave — passarinhos, vento, o farfalhar das árvores. Nenhum ruído urbano. Nenhuma interrupção. — Quando eu era criança — Gabbie começou, pegando um pedaço de bolo de cenoura da cesta — eu imaginava que o amor era isso aqui. Um lugar escondido, onde ninguém mais consegue encontrar. Só quem sente de verdade. — E agora? — Agora… eu tô começando a acreditar que essa criança talvez estivesse certa. Eiden sorriu, pegando uma morango e oferecendo a ela. Ela mordeu a fruta com os olhos fixos nos dele. — Eu não sabia que era capaz de criar algo assim — ele confessou. — Eu só sabia me esconder atrás de piadas e silêncios. Mas com você… eu quero ser claro. Quero ser gesto. Quero ser intenção. Ela inclinou o rosto, tocando levemente os dedos no braço dele. — Você tá sendo. A cada dia mais. Ficaram ali por horas. Falaram sobre as músicas que amavam, os livros que os marcaram, as manias que ninguém mais entendia. Descobriram que ambos odiavam dormir de meias, que tinham pavor de baratas e que choravam com filmes animados. Riram muito. E choraram um pouco também. À medida que a tarde ia se transformando em crepúsculo, Eiden se deitou na grama e puxou Gabbie com ele. Ficaram lado a lado, olhando o céu mudar de cor, em silêncio. — Você sente isso também? — ele perguntou, a voz baixa. — O quê? — Essa sensação de que mesmo se tudo der errado lá fora, aqui dentro a gente ainda tem um lugar seguro? Ela virou o rosto e olhou pra ele, os olhos brilhando com lágrimas contidas. — Sim. Eu sinto. E então, como se o universo tivesse esperado aquele exato instante, Eiden virou o corpo e a beijou. Dessa vez, foi diferente. Não havia urgência. Não havia medo. Era um beijo lento, cuidadoso, cheio de promessas silenciosas. Os lábios se encontravam como se já se conhecessem de outras vidas, e os corações batiam no mesmo compasso. Quando se separaram, ela encostou a testa na dele e sussurrou: — Eu não quero mais fugir disso. — Eu também não. Seja o que for, vamos viver até o fim. *** Voltaram pra vila já de noite, a mão dela entrelaçada à dele no carro, como se o tempo tivesse se derretido ao redor deles. Nenhum dos dois queria que o dia acabasse, mas sabiam que agora tinham algo maior: um novo começo. E dessa vez, sem fantasmas. Sem dúvidas. Só sentimento.
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