A escola sempre teve um som próprio: o eco abafado dos passos apressados nos corredores, os sussurros urgentes antes de uma prova, o barulho metálico dos armários se abrindo. Mas naquela manhã de segunda-feira, tudo parecia mais intenso para Gabbie.
Ela sentia os olhos nas costas, mesmo sem ter certeza se alguém de fato a observava. Talvez fosse só paranoia. Talvez fosse só o coração, acelerado desde que entrou pelos portões, sabendo que ele estaria ali.
Eiden.
Eles não haviam conversado sobre como seriam as coisas na escola depois do encontro no sítio. Nenhum plano, nenhuma etiqueta social. Só o que sentiam — e isso, Gabbie bem sabia, era intenso demais para caber numa rotina comum.
Ela atravessou o pátio tentando parecer casual, mas cada passo parecia ensaiado. No fundo, esperava encontrá-lo no corredor do terceiro andar, perto da escada onde ele costumava encostar, fones nos ouvidos, como se o mundo fosse apenas uma trilha sonora de fundo.
E lá estava ele.
Mesma pose. Mesmo jeito despretensioso. Mas quando os olhos se encontraram, tudo mudou.
Ele tirou os fones devagar e sorriu. Aquele sorriso torto que ela já começava a identificar como “só dela”.
— Bom dia, senhorita "não quero mais fugir disso" — ele brincou, voz baixa, mas cheia de ternura.
Gabbie tentou conter o sorriso, mas não conseguiu. Aproximou-se devagar, parando a menos de um metro.
— Bom dia, senhor "vamos viver até o fim".
Eles riram juntos, e por um instante, os corredores barulhentos pareceram suspensos no tempo.
— A gente vai se ver no intervalo? — ele perguntou, sem pressa, mas com aquela pontinha de esperança no olhar.
— Claro. No lugar de sempre?
— No lugar de sempre.
Gabbie assentiu e virou para seguir até a sala. Sentiu o olhar dele seguir cada passo. E, pela primeira vez em muito tempo, o peso nas costas parecia ser de leveza.
***
Na sala de aula, o burburinho era o mesmo de sempre: vozes cruzadas, celulares escondidos sob as carteiras, cadernos com rabiscos e poucas anotações reais. Gabbie se sentou em seu lugar de costume, mas não demorou a perceber os olhares ao redor.
Alguns cochichavam. Outros apenas observavam. Nina, sentada duas fileiras à frente, virou a cabeça o suficiente para lançar um olhar enviesado, carregado de algo entre ciúme e deboche.
Mas Gabbie não desviou. Não dessa vez.
Ela tinha algo que ninguém ali podia entender. Algo que vinha de dentro, que vinha do silêncio entre eles dois, da forma como Eiden a olhava como se fosse poesia em carne e osso.
A aula começou, mas Gabbie m*l prestava atenção. O pensamento se perdia nos flashes do fim de semana: o piquenique, o beijo, as palavras sussurradas sob a sombra das árvores. Ela rabiscava frases soltas no caderno, tentando não sorrir feito boba.
Ao final da segunda aula, o intervalo chegou como um suspiro bem-vindo. Ela juntou as coisas com calma, atravessou o corredor e subiu até o terraço da ala antiga, onde poucos alunos costumavam ir. Era um lugar meio esquecido, mas com vista para o campo de esportes e bastante vento.
Eiden já a esperava lá, sentado no parapeito, os braços apoiados nos joelhos e o olhar perdido no horizonte. Quando a viu, o rosto se abriu num sorriso lento.
— Pensei que talvez você tivesse mudado de ideia — ele disse, deslizando para descer.
— Nem por um segundo — ela respondeu, encostando-se à parede ao lado dele.
Ficaram em silêncio por alguns instantes. Não precisavam de palavras o tempo todo. Só a presença já bastava.
— Sabe o que é engraçado? — ele começou, mexendo no zíper da mochila.
— O quê?
— As pessoas acham que eu mudei por sua causa. Mas a verdade é que... eu só tirei a máscara. Você não me transformou, Gabbie. Você me revelou.
Ela o olhou de lado, sentindo um nó no peito — daqueles bons, que apertam só pra lembrar que você tá vivo.
— E você também revelou algo em mim — ela disse. — Uma parte que eu escondia porque achava que não merecia ser amada desse jeito.
Ele se aproximou um pouco mais. Não a tocou — não ali, onde qualquer gesto podia ser m*l interpretado por olhares indiscretos —, mas o olhar dele a envolveu por completo.
— Eiden... — ela começou, mas hesitou. — Você acha que a gente vai aguentar o resto?
— Que resto?
— O falatório. Os comentários. As comparações. As inseguranças.
Ele pensou por alguns segundos.
— Eu não tenho certeza. Mas sei que vale a pena tentar. Porque o que a gente tem... não é comum. E o comum é fácil. A gente nunca foi fácil.
Ela sorriu, tocada pela sinceridade.
— Então vamos continuar sendo extraordinários — ela disse.
Ele inclinou a cabeça, curioso.
— Isso foi uma tentativa de frase de efeito?
— Não — ela riu. — Foi só... verdade.
***
De volta às aulas, o clima parecia menos denso. Mesmo com cochichos aqui e ali, Gabbie já não se deixava afetar. Eiden, no canto dele, parecia fazer o mesmo. Durante a aula de Literatura, trocaram olhares cúmplices, como quem compartilha segredos silenciosos.
A professora pediu que escolhessem um poema para ler em voz alta na próxima semana. Eiden anotou no caderno, mas em vez de procurar um clássico, começou a escrever algo próprio. Gabbie, que se sentava uma fileira atrás, conseguiu espiar parte do texto:
> "Ela chegou como o vento que antecede a chuva.
> Não fez barulho, só trouxe cheiro de mudança."
Ela prendeu a respiração. Aquilo era sobre ela. Era sobre os dois.
Quando a aula acabou, ele virou discretamente, sorrindo.
— Pode espiar mais da próxima vez.
— Talvez eu prefira ouvir da sua boca — ela respondeu, provocando.
E os dois saíram da sala entre risos abafados e corações pulsando rápido.
***
Ao final do dia, Gabbie se dirigia ao portão da escola quando sentiu uma presença ao lado. Eiden a acompanhava, passos calmos.
— Quer que eu te acompanhe até em casa?
— Quero.
E foram juntos, sob o céu alaranjado do fim de tarde, entre conversas soltas e silêncios confortáveis. A escola ficava para trás como um cenário onde o amor deles começava a florescer de verdade — não mais escondido, mas firme. Vivo.
E mesmo que os olhares continuassem, os comentários surgissem, ou os antigos fantasmas tentassem voltar… eles tinham um ao outro.
E, por agora, isso bastava.