Capítulo 10 – Versos que Desarmam

853 Words
Naquela semana, a escola parecia respirar diferente. A professora de Literatura, empolgada com a ideia de despertar a sensibilidade nos alunos, havia proposto uma atividade simples, mas desafiadora: cada um deveria escolher ou criar um poema e lê-lo em voz alta para a turma. Para a maioria, era apenas mais um trabalho. Mas para Gabbie, era algo mais. Desde que espiou os primeiros versos no caderno de Eiden, não parava de pensar no que ele diria ali, diante de todos. E se ele realmente lesse aquilo? E se se expusesse daquela forma? A própria Gabbie havia decidido escrever um texto. Durante noites seguidas, ficou sentada na cama com o notebook no colo, escrevendo e apagando, reescrevendo e duvidando. Queria que fosse honesto. Queria que, de alguma forma, ele soubesse que as palavras eram pra ele — mesmo que só eles dois entendessem. Quando a sexta-feira chegou, o ar na sala parecia carregado de tensão e expectativa. A professora ajeitava os papéis com calma, enquanto os alunos cochichavam entre si, alguns rindo, outros claramente nervosos. — Quem gostaria de começar? — ela perguntou, com um sorriso gentil. Silêncio. Então, para surpresa de todos, uma mão se levantou. Eiden. Gabbie sentiu um arrepio percorrer-lhe os braços. O coração disparou. Ele caminhou até a frente da sala com passos firmes, mas sem pressa. Tirou um papel dobrado do bolso da calça, desdobrou com cuidado, e levantou os olhos para os colegas. — Eu escrevi isso há alguns dias — disse, a voz limpa, segura. — Não sei se é bom. Mas é verdadeiro. Respirou fundo, e começou: > “Ela chegou como o vento que antecede a chuva. > Não fez barulho, só trouxe cheiro de mudança. > > Tinha olhos que liam os silêncios dos outros, > e mãos que sabiam recolher o que os outros quebravam. > > Eu, que sempre fui inverno, > me vi querendo aprender a ser primavera. > > Com ela, aprendi que o amor não grita, > ele sussurra. > > E que o toque mais profundo não está na pele, > mas no olhar que te atravessa sem pedir licença.” Quando terminou, o silêncio na sala era espesso. Ninguém riu. Ninguém cochichou. Era como se todos tivessem sido levados, mesmo sem saber, para dentro daquele sentimento. A professora sorriu com os olhos brilhando. — Muito bonito, Eiden. Obrigada por compartilhar. Ele voltou ao lugar sob olhares curiosos, mas a única coisa que procurou foi o olhar de Gabbie. E quando os olhos se encontraram, foi como se dissessem tudo que o poema não pôde. Poucos alunos depois, foi a vez dela. Gabbie se levantou com o papel nas mãos trêmulas. A garganta estava seca, mas o coração tinha algo a dizer. E ela sabia que, se não dissesse agora, se não usasse essa chance, se esconderia para sempre. Parou na frente da turma, respirou, e começou: > “Disseram que era só mais um garoto com fones nos ouvidos > e respostas curtas. > > Disseram que era problema. > > Mas ninguém viu o que eu vi: > > Um universo inteiro escondido atrás de olhos cansados. > > Uma alma que lia o mundo como quem escuta uma música triste > e ainda assim dança. > > Eu vi. > > E mesmo com medo, me aproximei. > > E foi no caos dele que encontrei o que faltava no meu silêncio.” A última linha saiu num sussurro. Ela abaixou o papel, engoliu em seco, e caminhou de volta para seu lugar sem encarar ninguém. Exceto Eiden. Ele a esperava com aquele olhar que dizia tudo — orgulho, ternura, e algo mais profundo, que ela ainda não sabia nomear. *** No final da aula, quando todos saíam, ele se aproximou devagar. — Era pra mim? — ele perguntou, com um sorriso de canto. Ela fingiu não entender por um segundo. — O quê? — O poema. — Talvez — ela respondeu, provocando. — Eu espero que sim. Porque foi a coisa mais bonita que alguém já escreveu sobre mim. Ela riu, e dessa vez, foi um riso leve, verdadeiro. — Você sabe que é mais do que fones de ouvido e respostas curtas, né? — Agora eu sei. Porque você me viu. Gabbie olhou em volta. A sala já estava vazia. Apenas eles dois. Então, sem pensar muito, deu um passo à frente e segurou a mão dele. — E eu quero continuar te vendo. Até quando você deixar. — Então prepara os olhos — ele disse — porque eu pretendo ser transparente, mas nunca simples. *** Lá fora, o céu começava a escurecer. Os dois saíram juntos da sala, mãos entrelaçadas, passos sincronizados. E pela primeira vez, não se importavam com os olhares. Porque agora, não eram apenas sentimentos escondidos. Eram palavras ditas. Versos lançados ao vento. Um amor que, aos poucos, ganhava forma — mesmo que ainda tímida, mesmo que ainda vulnerável. Mas ali, entre poemas, gestos e olhares, Gabbie e Eiden descobriram que amar também era isso: se deixar ler por inteiro. E, mais do que isso, ser lido e compreendido.
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