Capítulo 11 – Verdades que Tocam, Segredos que Ferem

1675 Words
A noite era calma, silenciosa como se o mundo lá fora tivesse apertado o botão de pausa. O quarto de Eiden, normalmente marcado pela bagunça criativa de um adolescente rebelde, estava surpreendentemente em ordem. Luzes baixas, uma música suave tocando ao fundo — algo instrumental, quase imperceptível. Gabbie sentia o coração bater mais rápido conforme os minutos passavam. Sentada na beira da cama dele, observava cada detalhe ao redor. Era a primeira vez que estavam sozinhos assim, sem o mundo ao redor exigindo cautela, sem os olhares da escola, sem o peso dos “e se”. — Você tem mesmo um pôster do Radiohead do lado do espelho? — ela perguntou, tentando quebrar o silêncio com leveza. Eiden riu baixo. — Julgando meu gosto musical? — Só... estudando você — ela respondeu, virando-se para ele. — Como se você fosse um poema muito difícil de decifrar. — Eu sou mesmo. Mas você é a única que me lê até o fim. Ele se aproximou, sentando-se ao lado dela. Os joelhos se tocaram de leve, como um aviso sutil. E, por um segundo, apenas se olharam. Sem palavras. Sem máscaras. Foi Gabbie quem tomou a iniciativa, inclinando-se devagar até os lábios dele. O beijo começou suave, com a urgência contida de quem tem muito a dizer sem dizer nada. Quando se afastaram, as respirações estavam aceleradas, os olhos brilhando. — Eu quero... — ela começou, hesitante — mas só se você quiser também. Eiden a olhou como se estivesse vendo o próprio céu pela primeira vez. — Eu quero. Mas quero que seja com você, não com o impulso. Com a verdade que você me traz. E ali, entre sussurros e toques tímidos, entre beijos lentos e roupas sendo deixadas pelo caminho, eles se entregaram um ao outro. Não foi perfeito — e nem precisava ser. Foi real, intenso, cheio de carinho. Não havia pressa, não havia medo. Era como se, por algumas horas, o mundo tivesse desaparecido. E no meio da madrugada, ainda entrelaçados, Gabbie desenhava círculos invisíveis com os dedos no peito dele. — Eiden... posso te perguntar uma coisa? — Claro. — Aquelas pessoas... na escola. Que cochicham. Que nos olham estranho. É só por causa da tua fama de antes? Ele ficou em silêncio. O corpo relaxado de repente pareceu tenso. Gabbie sentiu. — Tem algo que eu não sei, né? Ele respirou fundo, virou-se para encará-la de frente. Os olhos agora tinham uma sombra diferente — uma dor antiga, enterrada. — Teve uma menina. Antes de você. Não foi nada como o que a gente tem, mas... ela gostava de mim. Eu não sentia o mesmo. Fui honesto. Ela ficou magoada. Gabbie ouviu em silêncio, mas o coração já pressentia que vinha mais. — Só que... ela não aceitou. E começou a espalhar umas coisas. Que eu tinha brincado com os sentimentos dela. Que eu fazia isso com todas. E como eu era fechado, ninguém sabia ao certo o que era verdade ou não. — E o que isso tem a ver comigo? Eiden desviou o olhar. — Quando você chegou na escola... ela percebeu que eu tava diferente. Que você me fazia bem. Começou com olhares. Depois palavras. Tentativas de se reaproximar de mim. E quando viu que não ia conseguir, ela fez o que sabia fazer: plantar dúvida. Gabbie sentiu um frio na barriga. — Dúvida onde? — Em você. Silêncio. — Aquela época em que a gente se afastou. Que tudo parecia desandar. Ela se aproximou de você, lembra? Gabbie franziu a testa, puxando lembranças esquecidas. — A Nina? Eiden assentiu, devagar. — Foi ela. Gabbie se afastou um pouco, o peito apertando. — Ela me disse coisas... que você tinha um tipo. Que eu era só curiosidade pra você. Que já tinha acontecido com outras. — Eu sei. E eu deixei. Porque eu tava tão... assustado com o que sentia por você, que achei que talvez fosse verdade. Que eu fosse tóxico demais pra você. — Eiden... — ela sussurrou, as lágrimas começando a subir. — Eu me odeio por isso. Por ter deixado você acreditar nela. Por ter te perdido por causa disso. O silêncio que veio a seguir não era vazio. Era cheio demais. Pesado. — Então você me afastou... pra me proteger? — Não. Eu me afastei porque fui covarde. Gabbie respirou fundo. Queria gritar, chorar, bater nele e abraçá-lo ao mesmo tempo. Mas apenas deixou as lágrimas escorrerem. — A Nina ainda tenta se aproximar de mim. Você sabia? — Sabia. — E o que a gente vai fazer agora? Eiden aproximou-se de novo, os olhos úmidos. — Agora a gente se escolhe. De novo. E quantas vezes for preciso. Ela hesitou. Mas então, entre as lágrimas e os medos, estendeu a mão. — Então me escolhe agora. — Eu escolho você — ele disse, apertando a mão dela — mesmo com as sombras do passado. Mesmo com a inveja. Mesmo com o que vier. *** E no escuro daquele quarto, entre lençóis e promessas sussurradas, eles recomeçaram. Não era mais o amor tímido do início. Nem a paixão impulsiva. Era amor com cicatriz. Com verdade. Com história. E, talvez, por isso mesmo… mais forte do que nunca. --- A segunda-feira chegou com o peso de um novo começo, mas também com a sombra de um passado que teimava em espreitar. O dia amanheceu nublado, e havia algo no ar — uma tensão quase invisível, mas palpável para Gabbie e Eiden. Como se o mundo, agora ciente da aproximação deles, estivesse prestes a reagir. Na entrada da escola, os olhares vieram como uma avalanche silenciosa. Sorrisos forçados, cochichos abafados, grupos se formando nos corredores. Gabbie sentia como se atravessasse um campo minado, mas, ao lado de Eiden, a mão entrelaçada na dele era a armadura que a mantinha firme. — Estão olhando — ela murmurou, sem virar o rosto. — Que olhem — ele respondeu, simples, como se não importasse. Mas ela sabia que importava. Só que, dessa vez, ele escolhia não deixar isso vencer. Eles passaram pelo corredor principal como um casal real, presente, unido. E isso... incomodava. Principalmente a Nina. Sentada perto dos armários, rodeada por duas colegas, ela viu tudo. O olhar dela era uma mistura disfarçada de tédio e frustração, como se já tivesse ensaiado aquela cena mil vezes em sua mente — e em nenhuma delas Gabbie saía por cima. — Eles estão de mãos dadas — comentou uma das amigas, surpresa. —É só cena. Isso não dura — Nina respondeu, com um sorriso enviesado. — Ele vai cansar. Sempre cansa. Mas no fundo, a raiva ardia. Porque havia um detalhe que Nina nunca esperava: Gabbie não tinha se deixado corromper. Ela era forte, intuitiva, e Eiden... estava mudando por causa dela. E quando o amor começa a curar alguém que a dor alimentava, quem vive de manipular sofre. *** Na aula de literatura, Gabbie estava distraída, os dedos deslizando devagar pelas bordas do caderno. Tentava focar, mas a presença de Nina três cadeiras atrás parecia gritar dentro da sala. Quando a professora pediu para todos escreverem uma carta anônima — um exercício sobre desabafo e escrita emocional — Gabbie hesitou. Mas logo começou a escrever: > “Se eu pudesse voltar no tempo, teria confiado mais em mim. > Teria acreditado na minha intuição, > e no olhar de quem me fazia sentir paz. > > Mas deixei o medo guiar meus passos. > > Agora sei: o amor verdadeiro não grita, > ele resiste. > > Ele volta. > Ele fica. > Mesmo depois de tudo.” Ela terminou de escrever e olhou discretamente para Eiden, do outro lado da sala, inclinado sobre a folha com concentração. Era estranho ver aquele “ex-encrenqueiro” escrevendo com tanta entrega, mas ali estava ele — transformado. E justo nesse momento, Nina levantou discretamente, entregou sua folha à professora com um sorrisinho enigmático e saiu da sala. Gabbie não percebeu, mas deveria. *** Horas depois, enquanto caminhava até o pátio para encontrar Eiden, Gabbie foi abordada por duas meninas que ela m*l conhecia. — Então é verdade, né? — disse uma, cruzando os braços. — Desculpa? — Que você tá com o Eiden. E que foi você quem espalhou a história da ex dele. Achei baixo — a outra completou. — O quê? — Gabbie sentiu o sangue gelar. — A Nina falou. Disse que você ficou com ciúme, que quis afastar ele da escola de novo. Era o começo. *** No mesmo instante, do outro lado do pátio, Eiden recebeu uma notificação anônima no celular: uma montagem de uma mensagem falsa, como se Gabbie tivesse escrito que estava com ele só por diversão. A legenda dizia: *"Cuidado com quem você confia."* Ele congelou. Não porque acreditasse, mas porque reconhecia o padrão. — Nina... — murmurou. *** Eles se encontraram minutos depois, com os olhos arregalados e o peito acelerado. — Estão falando que eu inventei coisas sobre você — Gabbie disse, aflita. — E me mandaram isso — Eiden mostrou a tela do celular. — Montagem óbvia. Mas eles vão acreditar. — É ela de novo, né? — É. Silêncio. Mas dessa vez, nenhum dos dois recuou. Não como antes. Havia dor, sim. Mas também havia amor — e agora ele não era mais frágil. — A gente vai encarar isso junto — Gabbie disse, decidida. — Por mim. Por você. Por nós. Eiden a olhou por alguns segundos. Depois, puxou-a para um abraço apertado, quase desesperado. — Eu te amo, Gabbie. E não vai ser ela, nem ninguém, que vai apagar isso. Ela sorriu contra o peito dele, os olhos ainda marejados. — Eu te amo também. E eu confio em você. Mesmo quando o mundo quiser me convencer do contrário. *** Ao longe, escondida atrás do pátio, Nina os observava com o maxilar tenso e as unhas cravadas na palma da mão. Percebia, mesmo sem querer admitir: dessa vez, talvez o jogo não estivesse mais a seu favor. E isso... era insuportável. ---
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