12 – Verdades em Voz Alta

1635 Words
Naquela manhã, a escola parecia diferente. O som dos passos ecoava mais alto. O barulho dos armários se abrindo soava como marteladas. O sussurro dos corredores não era apenas fofoca: era julgamento, era antecipação. Algo pairava no ar. Desde os boatos do dia anterior, a tensão havia se espalhado como fogo em mato seco. Ninguém parecia realmente saber o que era verdade, mas todos achavam que sabiam. E era isso que doía mais em Gabbie. Ela entrou pelos portões decidida, o rosto fechado, o olhar firme. Eiden vinha logo atrás, mais calado do que o normal, mas havia uma raiva contida nos olhos dele — uma raiva fria, meticulosamente guardada. — Ela precisa ser exposta — ele murmurou. — Eu vou fazer isso — Gabbie respondeu. — Hoje. No intervalo, o momento chegou. Nina estava cercada por seu grupinho habitual, as unhas bem-feitas dançando sobre a tampa do refrigerante enquanto ria de algo que só ela achava engraçado. Quando viu Gabbie se aproximar, o sorriso vacilou por um segundo, mas logo retornou com uma máscara afiada. — Veio pedir dicas de como se manter relevante, Gabbie? — ela soltou, com deboche. Gabbie não hesitou. Não gritou. Não fez cena. Apenas falou — com a voz firme, fria e certeira. — Você é patética, Nina. O silêncio caiu como um raio. Os poucos que estavam por perto pararam de fingir que não estavam ouvindo. — Você tentou destruir o que eu tenho com o Eiden. De novo. E nem foi por ele. Foi porque você não suporta ver alguém ser amado de verdade. Nina ergueu o queixo, fingindo desprezo. — Se ele te ama mesmo, por que acreditou nas coisas que recebeu? — Porque a dor fala antes da razão. Mas ele voltou. E agora sabe quem você é. — Sabe mesmo? — Nina rebateu. — Você acha que é a primeira? A única? — Não — Gabbie respondeu. — Eu sou só a que não vai calar. O g***o de alunos em volta crescia. Os olhos saltavam de uma para a outra como em um duelo prestes a explodir. Nina perdeu o controle primeiro. — Você é só mais uma que vai chorar depois. Quando ele cansar. Quando perceber que não é boa o suficiente pra ele. Gabbie se aproximou um passo, o rosto a centímetros do dela. — A diferença é que ele não quer alguém perfeita. Ele quer alguém real. E você nunca soube ser isso. Um murmúrio correu pelo pátio. Eiden apareceu logo em seguida, e todos silenciaram ainda mais. Ele se posicionou ao lado de Gabbie, encarando Nina. — Você devia se olhar no espelho — ele disse, seco. — E perguntar em que momento virou a pessoa que destrói os outros só porque não sabe amar. — Eu te amei — ela respondeu, a voz trêmula. — Você amou o controle. O poder. Não a mim. — E ela ama o quê? O seu histórico? Os seus erros? — Ela ama o que eu sou agora. E isso só existe porque ela ficou mesmo quando eu tentei afastá-la. O golpe final estava dado. Mas ainda viria mais. No dia seguinte, uma convocação apareceu nos grupos da turma: Reunião com a coordenação - obrigatória Assunto: Boatos, difamações e segurança emocional dos alunos. A sala de reuniões encheu rápido. Professores, coordenadores, representantes de turma. E entre eles: Gabbie, Eiden… e Nina. A diretora, severa mas justa, abriu a conversa: — Recebemos denúncias sérias de difamação entre alunos, manipulações emocionais e bullying. Isso precisa parar. Gabbie levantou a mão. — Posso falar? A diretora assentiu. — Há semanas, eu e o Eiden estamos sendo alvo de uma campanha maliciosa. Imagens falsas. Conversas inventadas. E tudo veio da mesma pessoa. Ela olhou direto para Nina. — Eu tenho prints. Conversas com alunos que foram manipulados. E vídeos. Inclusive um de ontem, onde ela admite que fez isso por vingança. Nina arregalou os olhos. — O quê?! Que vídeo?! Eiden pegou o celular. Pressionou “play”. O áudio da conversa no pátio — gravado por um colega — ecoou pela sala. Vozes, risos falsos, e finalmente, a confissão disfarçada de ataque. O silêncio na sala era absoluto. — Isso é ilegal! Vocês não podem gravar sem permissão! — Nina gritou. — Mas podemos quando é pra nos proteger — a diretora respondeu. — E, infelizmente, esse tipo de registro é o que nos dá base para tomar medidas. — Medidas? — Nina sussurrou, agora pálida. — Suspensão imediata. E acompanhamento psicológico obrigatório. Você precisa entender o que fez antes de voltar pra cá. Quando saíram da sala, Gabbie sentiu o peso da tensão dissolver aos poucos. Eiden segurou sua mão com força. — Você foi incrível lá dentro. Ela o olhou. — A gente foi. — Eu só consegui porque você ficou — ele disse. — E porque dessa vez, eu quis lutar. Ela sorriu, cansada, mas leve. — Agora a gente pode viver em paz? — Com boatos, julgamentos, inveja e tudo mais? Não. — Então como vamos fazer? — A gente vai viver mesmo assim. E naquele corredor, sob os olhares agora muito mais curiosos do que maldosos, eles se beijaram. Sem medo. Sem dúvida. Sem deixar espaço pra mentira alguma mais crescer ali. quando a reunião terminou, o som das cadeiras se arrastando parecia um eco distante. Gabbie sentia o corpo leve, mas a cabeça girava. Não era só o alívio. Era o desgaste. A intensidade de tudo ainda pulsava por dentro — o confronto, a coragem que precisou reunir, a vulnerabilidade exposta na frente de todos. Ela e Eiden saíram da sala juntos, mas sem pressa. O corredor parecia mais longo, como se cada passo os afastasse de um capítulo antigo. — Você tá bem? — ele perguntou, com a voz mais suave do que de costume. — Não sei — ela respondeu, sincera. — Mas tô aqui. E isso já é muito mais do que eu esperava. Eles caminharam até o jardim da escola, o lugar onde tudo havia começado a mudar entre eles. Ali, sentaram-se sob a sombra de uma árvore. O barulho distante dos outros alunos não interferia naquele pequeno refúgio. — Eu nunca pensei que fosse ver a Nina assim — Gabbie disse, depois de um tempo. — Tão... exposta. — Eu também não — Eiden suspirou. — Por muito tempo, eu achei que ela era só alguém confusa. Mas hoje eu vi o quanto ela se perdeu. — Você ainda sente algo por ela? A pergunta escapou antes que ela pudesse segurar. Era invasiva, talvez até dolorosa — mas era real. Eiden não respondeu de imediato. Ele inclinou o corpo para a frente, cotovelos nos joelhos, olhando o chão. — Eu sinto pena — ele disse, por fim. — Não dela, exatamente. Mas da versão que ela poderia ter sido, se tivesse escolhido o amor ao invés do orgulho. Gabbie assentiu. Era a resposta que ela não esperava... mas precisava ouvir. Enquanto isso, Nina estava sentada sozinha nos fundos da escola, perto do depósito de educação física. O lugar onde ninguém costumava passar. Os olhos vermelhos, a maquiagem borrada, os dedos tremendo. Pela primeira vez em muito tempo, não havia plateia. Não havia espelhos. Só ela e o silêncio. O celular nas mãos vibrava com mensagens — algumas de apoio falso, outras de crítica escancarada. Mas nenhuma voz era mais alta do que a que gritava dentro dela mesma. "Eu só queria ser vista." "Queria que alguém lutasse por mim." Mas ninguém luta por quem transforma amor em a**a. Ela se encolheu, sentindo um nó apertar no estômago. E, pela primeira vez, chorou de verdade. Não pelas consequências... mas pela solidão que ela mesma criou. Na sala de aula, a reação dos colegas também era confusa. Alguns estavam em choque. Outros, visivelmente aliviados. — Eu nunca gostei dela — murmurou um garoto do fundo. — Mas ela sempre teve resposta pra tudo... parecia invencível. — E era boa em virar as coisas a favor dela. A Gabbie foi corajosa demais... As conversas pipocavam, e o nome de Gabbie agora surgia com respeito. Havia quem ainda não soubesse como reagir, mas já não era mais possível fingir que não sabiam quem era a verdadeira vilã da história. Mais tarde, no refeitório, Gabbie sentou ao lado de Eiden, sem medo. Sentiu olhares, claro. Mas dessa vez, não eram julgadores — eram curiosos, até admirados. — Acha que agora a gente vai conseguir respirar? — ela perguntou, partilhando um suco com ele. — Não totalmente. Mas... acho que agora as pessoas sabem o que somos. E isso muda tudo. — O que a gente é, Eiden? Ele a olhou de lado, com aquele meio sorriso que só ele sabia dar. — Uma bagunça bonita. Dois corações quebrados que decidiram se colar juntos. Ela riu. Um riso leve, quase infantil. — Poético. Meio torto. Mas poético. — A gente é isso, né? Meio torto. Mas real. E quando ela deitou a cabeça no ombro dele, no meio da escola inteira, Gabbie percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, não sentia medo de ser vista. No fim do dia, enquanto o sol se punha por trás do muro da escola, Gabbie escreveu no diário que há meses estava esquecido no fundo da mochila: “Hoje eu entendi que coragem não é gritar mais alto. É falar a verdade mesmo com a voz tremendo. E amar... amar é isso que estou aprendendo com ele. É segurar a mão mesmo quando o mundo inteiro tenta soltar.” Ela fechou o caderno e olhou pela janela da sala vazia. O reflexo do céu alaranjado tingia tudo com um tom de esperança. O caos havia sido necessário. Porque só depois de um terremoto é que as coisas se reorganizam no lugar certo.
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