Capítulo 13 – Um Lugar Que É Só Nosso

1387 Words
*Narrado por Eiden* A primeira vez que ouvi o som da chuva batendo no vidro do meu quarto ao lado da respiração da Gabbie, eu soube que o mundo tinha mudado. E não foi tipo “filme”, com música de fundo ou uma epifania mágica. Foi sutil. Como se a presença dela reorganizasse o silêncio. Como se, de repente, meu espaço tivesse virado lar. Porque ela estava ali. — Tem certeza que sua mãe não vai achar estranho? — ela perguntou, enquanto tirava os tênis molhados na entrada de casa. — Ela gosta de você. E vai trabalhar o final de semana inteiro. Então, tecnicamente... você só vai *me* aturar. Ela riu. E esse som — o dela rindo, de verdade, livre — é uma das poucas coisas que ainda me fazem esquecer das sombras que carrego. Levei ela pro meu quarto, meio tímido. Nada demais: cama, livros, paredes com rascunhos pendurados. Um lugar que sempre foi só meu... e que hoje eu queria dividir. — Esse é o seu mundo, né? — ela disse, olhando tudo com os olhos de quem enxerga mais do que só o que vê. — É. Bagunçado, mas honesto. — Igual você. * A gente passou o começo da tarde jogando cartas velhas e rindo de coisas bobas. Teve uma hora que ela me empurrou de leve porque eu trapaceei. Na outra, a gente se embolou na cama fingindo brigar por quem ia pegar o controle remoto. Tudo muito simples. Mas tudo... certo. — Sabe o que eu gosto em você? — ela perguntou, deitada de lado, os olhos nos meus como se lessem pensamentos. — Não. Mas espero que não seja minha habilidade em roubar no jogo da memória. — É o jeito que você não força nada. Você só... deixa acontecer. E isso me atingiu mais do que elogios normalmente me atingem. Porque passei tanto tempo tentando controlar tudo — sentimentos, reações, o que os outros pensavam. E com ela, pela primeira vez, eu só *era*. * À noite, fizemos miojo juntos. Não porque não tínhamos opção. Mas porque queríamos algo rápido, só pra voltar pro sofá, cobertos, vendo filme r**m de comédia romântica. Gabbie fez questão de narrar o roteiro como se fosse uma dubladora dramática. E eu ri até a barriga doer. No meio de tudo, ela parou o filme, olhou pra mim com aquele olhar que sempre vem antes de algo sério, e perguntou: — Você ainda pensa naqueles dias... em que a gente ficou afastado? — Penso. E dói. Porque eu fui covarde. Achei que me afastando, eu te protegeria. Mas eu só machuquei a gente. Ela ficou em silêncio por uns segundos. Depois, encostou a cabeça no meu ombro. — A gente tá aqui agora. Isso é o que importa. E eu juro... se alguém dissesse naquele momento que o mundo ia acabar no dia seguinte, eu só pediria mais um pouco de tempo ali. * Dormir ao lado dela foi... estranho. No melhor sentido da palavra. Eu passei a vida achando que amor era bagunça, grito, possessividade. E ali, com ela do meu lado, respirando calma, os dedos entrelaçados nos meus... eu entendi que amor, de verdade, era *paz*. No meio da madrugada, acordei com ela murmurando meu nome. Só isso: “Eiden”. Baixo. Sonhando. E me dei conta que ser amado assim, mesmo no inconsciente dela, era mais do que eu achava merecer. * Na manhã seguinte, preparei café enquanto ela ainda dormia. Fiquei parado olhando aquela cena dela no sofá, toda torta, cabelo bagunçado, a blusa enorme que ela pegou minha sem pedir. E pensei: *"Se isso for o começo da minha vida adulta, eu aceito."* Quando ela acordou, me deu um beijo de bom dia daqueles lentos, ainda sonolentos. E disse: — Nunca mais me afasta de você, tá? — Nunca mais. Nem se o mundo pedir. E eu cumpro promessas. * Naquele fim de semana, não teve viagem, nem luxo, nem fogos de artifício. Mas teve amor em cada gesto pequeno. Teve confiança reconstruída, toque com cuidado, olhares que diziam mais do que qualquer frase ensaiada. E eu soube, ali, que meu coração tinha deixado de ser abrigo vazio e virado casa. Porque agora, ele tinha morada. Tinha nome. E era Gabbie. Narrado por Gabbie Sempre achei que finais de semana serviam pra escapar. Do colégio. Das cobranças. De mim mesma, às vezes. Mas esse... esse foi o primeiro que me deu v*****e de ficar. Quando pisei na casa do Eiden, com o cabelo pingando chuva e o coração aos pulos, senti um frio estranho no estômago. Não de medo. Mas de expectativa. Aquela sensação que a gente tem quando entra num lugar novo e já sabe que vai lembrar dele pra sempre. O quarto dele era exatamente como eu imaginava: simples, mas cheio de personalidade. Pôsteres de bandas que eu nunca ouvi, rascunhos pendurados com fita, livros empilhados de qualquer jeito. Mas o que mais me chamou atenção foi a janela. Tinha algo ali... uma paz silenciosa, como se ele gostasse de olhar o mundo de dentro, em silêncio. — Esse é o seu mundo, né? — perguntei, me aproximando de um desenho colado na parede. Ele só assentiu. E me deu v*****e de segurar a mão dele. De mostrar que agora esse mundo também era um pouco meu. A gente passou o tempo fazendo coisas bobas. Jogando, provocando, rindo até a barriga doer. E, em cada risada, eu sentia algo dentro de mim se soltando. Como se as amarras que a vida colocou em mim fossem se afrouxando só de estar perto dele. — Sabe o que eu gosto em você? — perguntei, meio sem pensar, mas sabendo que precisava dizer. — Não. Mas espero que não seja minha habilidade em roubar no jogo da memória — ele respondeu, fazendo graça. Eu sorri. — É o jeito que você não força nada. Você só... deixa acontecer. E isso era verdade. Eiden não tentava me consertar, nem me moldar. Ele só me via. Inteira. Com tudo que eu era — o caos, as dúvidas, os traumas — e mesmo assim... ficava. Mais tarde, no sofá, cobertos até o nariz e assistindo um filme péssimo, eu sentia meu coração tão calmo que até estranhei. Ali, naquele espaço pequeno, eu vi o que era paz. Mas aí veio o medo. Porque, por mais que eu quisesse ficar ali pra sempre, uma parte de mim ainda se perguntava: isso vai durar? E se a vida, como sempre, levar isso embora também? Fui eu quem trouxe o assunto do passado. Eu precisava. — Você ainda pensa naqueles dias... em que a gente ficou afastado? A resposta dele doeu, mas também me curou. Porque foi sincera. E porque, mesmo com tudo, ele estava ali comigo. A noite chegou como um cobertor quente. Dormir ao lado dele foi estranho — não pelo desconforto, mas porque meu corpo não sabia o que era dormir ao lado de alguém e sentir-se segura. Eu acordei no meio da noite, e ele tava lá. Respiração calma. Mão perto da minha. E por impulso, sussurrei: “Eiden.” Não sei se ele ouviu. Mas foi sincero. Foi... amor. No dia seguinte, acordei com cheiro de café. Levantei, cabelo bagunçado, camiseta dele cobrindo até metade da coxa, e o vi ali na cozinha. Concentrado, quase em silêncio. E pensei: como isso pode ser tão certo? — Nunca mais me afasta de você, tá? Foi o que eu disse. Porque esse era o meu maior medo: que tudo aquilo fosse só um intervalo bonito, prestes a acabar. — Nunca mais. Nem se o mundo pedir — ele respondeu. E naquele momento, eu soube. Eu soube que não importa o que aconteça, onde a gente vá, ou o que ainda venha pela frente... esse menino com alma de poesia e olhos que enxergam o que ninguém vê é o meu lar. Eiden me ensinou que amor não é só toque. É espaço. É silêncio confortável. É saber que você pode ser quem é, sem medo de ser demais. E aquele fim de semana me mostrou que o amor pode, sim, ser leve. Pode ser verdade. Pode ser casa. “Hoje, vi meu reflexo nos olhos de alguém. E, pela primeira vez, gostei do que vi.” – Gabbie
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