Capítulo 14 – Silêncios Que Gritam

1468 Words
*Algumas semanas depois...* O tempo pareceu escorrer pelos dedos desde aquele fim de semana juntos. As aulas chegaram ao fim, a escola ficou para trás, e o verão trouxe com ele uma sensação agridoce de liberdade. Era como se tudo estivesse em pausa — menos o que acontecia dentro de mim. — Promete que vai me mandar mensagem todo dia? — perguntei, tentando sorrir enquanto o Eiden colocava a mochila nas costas. — Todo dia. Até quando eu não tiver nada pra dizer — ele respondeu, se aproximando pra me beijar de leve. A gente estava na rodoviária. Ele ia passar duas semanas na casa dos avós, num lugar afastado, quase sem sinal. A mãe dele insistiu. "Eles estão ficando velhos", ela disse. Eiden não queria ir. Mas foi. Porque ele é esse tipo de pessoa: que cuida até quando não quer. Eu sorri. Fiz parecer fácil. Mas dentro de mim... um mundo inteiro se movia. * Três dias antes, algo tinha mudado. Começou com enjoo. Depois veio a tontura. E o atraso. E, por fim, o teste de farmácia que tremia na minha mão enquanto eu esperava os segundos mais longos da minha vida passarem. Duas linhas. Duas linhas que diziam: *você vai ser mãe*. * Naquela noite, me tranquei no quarto e chorei em silêncio. Não de arrependimento. Mas de medo. Medo do desconhecido. Do julgamento. De tudo que viria. Pensei em contar pra ele. Pegar o telefone, mandar uma mensagem, dizer: “Eiden, a gente vai ter um bebê.” Mas não consegui. Porque ele estava empolgado com a viagem. Porque eu não queria transformar aquele momento em algo pesado. Porque... talvez eu precisasse de tempo pra entender tudo antes de envolver ele. * Durante os dias que se seguiram, tentei manter a rotina. Fingi normalidade. Respondi às mensagens dele com emojis, piadas, fotos do meu dia. E guardei meu segredo como se ele fosse um cristal frágil que eu não podia deixar cair. Mas tudo mudava rápido. Meu corpo. Meu humor. Minhas madrugadas agora eram feitas de pensamentos acelerados e mãos na barriga, como se já fosse possível sentir algo ali. E, aos poucos, eu comecei a sentir uma conexão estranha com o que crescia dentro de mim. Como se aquele pequeno ponto de vida já fosse alguém que eu precisava proteger, mesmo sem saber como. * Teve uma tarde em que sentei na janela do meu quarto e escrevi uma carta pra ele. Não sei por quê. Talvez por medo de não conseguir falar quando fosse a hora. Talvez por precisar colocar tudo pra fora. > "Eiden, > > Talvez, quando você estiver lendo isso, as coisas já tenham mudado. Talvez eu já tenha dito. Talvez você esteja aqui, do meu lado, segurando minha mão como sempre faz quando sabe que estou com medo. > > Mas agora, nesse instante em que escrevo, é só eu. E um novo coração batendo dentro de mim. > > Sim, *nosso* coração. > > Eu estou grávida. E eu estou com medo. Mas também estou sentindo algo maior do que qualquer coisa que já senti. > > Eu não sei como você vai reagir. Mas quero que saiba: não foi um erro. Foi amor. Tudo que aconteceu entre a gente foi amor. > > E se eu puder escolher, quero que você esteja aqui. Pra dividir tudo. Pra crescer junto comigo. > > Mas, se por algum motivo você não puder... eu vou ser forte. Por mim. Por ele. Por nós. > > Te amo. > > – Gabbie." Dobrei a carta e guardei na caixinha onde deixo tudo que importa. Talvez eu entregasse um dia. Talvez não. Mas naquele momento, só escrever já me fez respirar melhor. * A saudade dele doía mais agora. Cada mensagem que chegava era um alívio e um aperto. E cada dia sem resposta, por causa da falta de sinal, era um tormento cheio de pensamentos: *E se ele mudar? E se eu perder ele? E se eu não conseguir fazer isso?* Mas então eu lembrava dos olhos dele. Da voz dele quando diz meu nome. De como ele sempre me acolheu mesmo nos meus piores dias. E algo dentro de mim dizia: *ele vai ficar. Ele vai entender.* * Na última noite antes dele voltar, deitei com as mãos na barriga. Senti o corpo mais pesado, o coração mais leve. E falei baixinho, como se ele pudesse ouvir: — Amanhã, você vai saber. E não importa o que aconteça depois... eu vou amar você. Sempre. Porque agora, não era só sobre mim e o Eiden. Era sobre algo maior. Era sobre a vida que a gente criou. Sem querer. Mas com amor. As noites estavam mais longas agora. O tempo parecia se arrastar, e mesmo quando tudo ao meu redor estava quieto, minha cabeça gritava. O pensamento era sempre o mesmo: *E se isso acabar com tudo?* Eu me deitava e fechava os olhos tentando imaginar a reação dele. Tentava construir mil versões do momento em que eu contaria. Em algumas, ele sorria, me abraçava e dizia que tudo ficaria bem. Em outras — nas que mais me assombravam —, ele se afastava, os olhos cheios de decepção, dizendo que não era o que ele queria pra agora. E aí tudo virava medo. Porque o Eiden é tudo que eu tenho de mais verdadeiro. E pensar que isso... *essa gravidez*, podia ser o começo do fim, me fazia querer desaparecer. Eu sabia que não era culpa de ninguém. Sabia que essas coisas acontecem, que não é errado. Mas também sabia que éramos jovens. Que nossos planos ainda estavam no início. Que ele talvez quisesse ser livre. Que ele tinha sonhos que talvez não incluíssem uma criança agora. E, em silêncio, eu me perguntava: — Será que ele vai me olhar diferente? — Será que ele vai me culpar? — Será que ele vai... me deixar? * Lá fora, o verão seguia com seu calor abafado e tardes preguiçosas. Mas dentro de mim, era inverno. Um frio que começava no peito e congelava tudo que era certeza. * Teve uma noite em que acordei suando. Um pesadelo. Eu via o Eiden se afastando, indo embora, dizendo que não queria mais carregar esse fardo. Acordei com a respiração entrecortada e a mão instintivamente na barriga. Chorei. Por mais de uma hora. Porque eu estava sozinha. E, pela primeira vez, entendi o que era sentir medo de verdade. Medo de perder não só a pessoa que você ama, mas a si mesma. * Eu comecei a andar com mais cuidado. Comer com mais atenção. Dormir com travesseiro entre as pernas como li na internet. Mas tudo isso parecia surreal. Como se eu estivesse vivendo a vida de outra pessoa. Como se a qualquer momento alguém fosse bater na porta e dizer: *acabou, foi só um susto.* Mas não era. Era real. E com a realidade, vinham os dilemas: — *E se eu estiver destruindo o nosso futuro?* — *E se ele só ficar por pena?* — *E se ele disser que me ama, mas no fundo se sentir preso?* Esse último pensamento me matou um pouco por dentro. Porque o amor que eu tenho por ele é tão livre, tão leve... e agora, de repente, tudo parece mais pesado. E eu odeio isso. Odiei pensar que esse amor que nos uniu poderia se transformar numa prisão. * E o pior de tudo: eu não conseguia parar de me culpar. — *Fui eu quem não se preveniu direito.* — *Fui eu quem percebeu os sinais tarde demais.* — *Fui eu quem teve medo de contar na hora certa.* Como se o mundo estivesse inteiro nas minhas costas, e tudo que eu fizesse ou dissesse agora fosse definir não só o meu destino, mas o dele também. * Em um momento mais escuro, quase escrevi outra carta. Nela, eu dizia: > “Se for demais pra você, tudo bem. > > Se quiser ir, eu entendo. > > Mas só me promete uma coisa: > > Não me odeie por te amar tanto ao ponto de querer te dar uma vida nova.” Mas não tive coragem de terminar. Porque, no fundo, uma parte de mim ainda acredita nele. Ainda acredita que o amor que construímos é forte o suficiente pra atravessar essa tempestade. E eu espero, com tudo em mim, que essa parte esteja certa. * Porque agora... cada batida do meu coração não é só minha. Agora, tem alguém crescendo dentro de mim. Alguém que vai carregar o nome, o olhar, talvez até o jeito dele. E mesmo com todo o medo, eu não trocaria isso por nada. > “Amar alguém é ter coragem até nos dias em que tudo dentro de você só quer correr.” > – Gabbie
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