*Narrado por Eiden*
O cheiro de café coado no pano me lembrava das manhãs da infância. A casa dos meus avós sempre teve esse ar de tempo suspenso — como se tudo aqui fosse mais lento, mais calmo, mais... distante.
Mas a verdade é que estar longe da Gabbie estava me consumindo.
A cada mensagem que ela demorava pra responder, meu peito apertava. A cada noite que eu deitava na cama de colchão afundado, encarando o teto, eu sentia a falta dela como se fosse parte do meu corpo. O cheiro do cabelo dela. O riso que escapava sem querer. O jeito como ela me olhava quando pensava que eu não estava vendo.
A saudade dela era quase física.
Mas tinha algo mais.
Algo que me irritava só de admitir. Algo que eu queria enterrar no fundo da memória — mas que insistia em voltar, principalmente quando o silêncio da casa era maior que tudo: *Nina*.
*
Não, eu não sentia falta dela.
Não da maneira que sentia da Gabbie. Mas havia... perguntas. Coisas não resolvidas. Restos de mágoa e culpa que eu fingia que tinham desaparecido, mas que agora pareciam ecoar de novo.
Talvez por estar longe da Gabbie. Talvez por ter tempo demais pra pensar.
*
Me peguei lembrando de uma conversa com a Nina, meses atrás, antes de tudo desmoronar.
Ela me disse que Gabbie só se aproximava de mim porque gostava da atenção que eu dava. Que ela não me amava de verdade — que usava meu carinho como escudo pra não encarar os próprios sentimentos.
Na época, eu não quis acreditar. Mas uma parte imatura de mim... duvidou. E foi aí que comecei a me afastar. A construir muros que nem eu sabia por quê.
E agora, parado no quintal dos meus avós, olhando o céu cor-de-fogo do fim da tarde, me perguntei: *por que aquilo ainda me assombra?*
*
A Gabbie nunca me deu motivos pra duvidar dela.
Ela sempre foi inteira. Verdadeira. Intensa. E mesmo assim, eu deixei a inveja dos outros, os sussurros envenenados, entrarem na minha cabeça.
O pior? Nina nunca pediu desculpas. Nunca assumiu o que fez. E mesmo assim, meu cérebro ainda brincava com as memórias. Às vezes com saudade do tempo em que tudo era mais simples, mesmo que fosse uma ilusão.
Me odiava por isso.
Porque eu amava a Gabbie. Com tudo em mim. Mas talvez ainda estivesse tentando entender por que, um dia, escolhi me afastar.
*
Meu avô me chamou pra jogar dominó. Sentei com ele, tentei sorrir. Mas minha cabeça estava em outro lugar. Estava com ela.
Será que a Gabbie também pensava em mim o tempo todo? Ou será que esse silêncio era um sinal de que ela estava... estranha?
Algo nas mensagens dela estava diferente. Mais contidas. Mais frias, talvez. Como se ela estivesse me protegendo de alguma coisa — ou de si mesma.
E isso me assustava.
Porque eu conheço a Gabbie. E sei quando ela está tentando esconder algo.
*
Mais tarde, deitei no sofá da sala antiga. O teto de madeira estalava por causa do calor. E eu encarei o celular por longos minutos.
Abri o chat com ela.
Escrevi:
> “Sinto sua falta mais do que consigo explicar.”
> “Tem algo errado, Gabbie?”
Apaguei.
Reescrevi.
Apaguei de novo.
Acabei só mandando:
> “Oi. Me conta do seu dia?”
Ela respondeu uma hora depois:
> “Normal. Fiquei mais em casa hoje. E você?”
Normal.
Essa palavra me doeu.
Porque a gente nunca foi *normal*.
*
Fechei os olhos e me perguntei:
*Será que estou perdendo ela?*
*Será que ela está se afastando e eu nem percebi?*
E aí, o medo que sempre evitei bateu com força: *será que aquela voz venenosa da Nina plantou algo que nunca saiu de verdade? Será que eu ainda carrego as dúvidas que ela me deu como se fossem minhas?*
E se sim... será que ainda dá tempo de consertar?
*
Senti um aperto no peito. O tipo de dor que só aparece quando a gente percebe o quanto pode ter estragado algo bom sem querer.
Porque eu a amo.
E se a perdi, foi por causa do meu silêncio. Das minhas hesitações. Do espaço que deixei pra que outras vozes falassem por mim.
*
O celular vibrou.
Era ela.
> “Saudade de você. Mesmo.”
Respirei fundo.
Sorri, pela primeira vez no dia.
Mas no fundo...
Algo me dizia que ela ainda não estava me contando tudo.
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NA VOLTA
O banco do ônibus era desconfortável, mas eu não me importava. Cada solavanco da estrada parecia me levar um pouco mais perto dela. Mais perto da casa, da cidade, do bairro... da Gabbie.
Eu não avisei.
Poderia ter mandado uma mensagem simples, um “tô voltando” no meio da tarde. Mas algo em mim queria mais. Queria vê-la com aquele sorriso surpreso, os olhos brilhando, como da primeira vez que nos esbarramos no corredor da escola e ela deixou cair os livros — e o mundo, junto.
Eu queria aquela emoção crua. Real.
Queria que ela soubesse que, mesmo com os dias longe, eu não consegui tirá-la da cabeça nem por um segundo.
*
O céu estava acinzentado pela janela do ônibus. Nuvens pesadas, talvez chuva mais tarde. A paisagem passava borrada, como se o tempo estivesse com pressa — ou talvez fosse só minha ansiedade me fazendo ver o mundo em velocidade.
Eu apoiava a testa no vidro frio, com fones de ouvido em volume baixo. Tocava uma música que me lembrava dela. Aquela que tocou no nosso primeiro trabalho em dupla, quando ela estava concentrada demais em colorir as anotações com canetinha e eu só conseguia prestar atenção no jeito que os cílios dela se moviam quando ela piscava.
Eu lembrava de tudo dela. Até dos detalhes que ela nunca imaginou que alguém prestasse atenção.
*
A viagem parecia longa, mas meu coração corria.
Pensei nas mensagens trocadas durante os dias em que estive fora. Algo nelas me preocupava, ainda que eu tentasse ignorar. Ela estava mais distante, menos falante. Parecia ter um filtro entre o que sentia e o que escrevia — como se estivesse tentando esconder alguma coisa.
Mas eu não queria pensar nisso agora.
Não naquele momento, com a estrada se abrindo diante de mim e o destino marcado com o nome dela.
*
Quando a placa da cidade apareceu no horizonte, senti como se o ar tivesse mudado. Respirei fundo. Era como voltar pra casa depois de ter ficado muito tempo em um lugar onde tudo era certo demais — mas nada era realmente meu.
Porque a Gabbie era meu lugar.
Meu norte.
E agora, a poucos minutos de vê-la de novo, meu coração batia num ritmo descompassado, como se quisesse sair correndo na frente do ônibus e chegar antes.
*
Desci na rodoviária com a mochila nas costas e um passo apressado. Peguei um táxi, mas quase pedi pro motorista correr mais do que devia. Cada esquina conhecida reacendia lembranças. A lanchonete onde dividimos um milkshake. A praça onde ela me beijou de surpresa. O ponto de ônibus onde esperei por ela num dia de chuva — e ela apareceu com um guarda-chuva colorido e um sorriso que salvou minha semana.
*
Quando cheguei em casa, minha mãe estava na cozinha, surpresa ao me ver mais cedo do que o previsto.
— Já voltou? — ela disse, enquanto enxugava as mãos num pano de prato florido.
— Não consegui ficar mais tempo longe. — sorri, sincero.
Ela riu, balançando a cabeça. — Aposto que tem nome e sobrenome essa pressa.
Eu não respondi. Só sorri de canto e fui direto pro quarto. Deixei a mochila no chão e sentei na cama, observando o teto. Tudo estava no mesmo lugar, mas eu... não era o mesmo.
Voltar com ela na cabeça fez tudo parecer diferente.
*
Peguei o celular, mas não mandei mensagem. Queria vê-la sem avisar. Queria bater na porta da casa dela, aparecer do nada na pracinha onde ela costuma ler. Queria que o primeiro olhar dela fosse real, espontâneo, cheio de surpresa boa.
Abri a câmera frontal e ajeitei o cabelo. Tentei esconder a cara de cansaço da viagem, mas meus olhos denunciavam tudo: saudade, esperança, ansiedade.
E amor.
Muito amor.
*
Não sabia exatamente onde ela estaria. Mas saber que estávamos na mesma cidade de novo, respirando o mesmo ar, era o que bastava por agora.
Amanhã eu a veria.
Amanhã eu tocaria seu rosto e diria, com todas as letras, o quanto ela me faz falta.
Mas hoje... hoje eu só queria sonhar com o momento em que ela abrirá os olhos, me verá ali, e saberá — sem precisar de palavras — que eu voltei por ela.
Só por ela.
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