*(Ponto de vista da Gabbie)*
O som da campainha quebrou o silêncio da casa como um sussurro inesperado. Eu não esperava ninguém — ou pelo menos, não *hoje*. Ainda estava de pijama, com os cabelos presos de qualquer jeito e uma xícara de chá nas mãos trêmulas.
Quando abri a porta, meu coração esqueceu como bater.
Era ele.
Eiden estava ali, parado na minha frente, com um sorriso torto no rosto e os olhos verdes brilhando como se o mundo inteiro tivesse parado só para aquele instante acontecer.
— Surpresa — ele disse, com a voz baixa, rouca, tão familiar que me arrepiou inteira.
— Eiden... — sussurrei, sem conseguir dizer mais nada. As palavras ficaram presas na garganta, afogadas pela enxurrada de saudade.
Ele me puxou com cuidado, como se ainda pedisse permissão, e me envolveu num abraço apertado. E naquele momento, o mundo todo desapareceu. Minha respiração afundou no peito dele, e tudo o que eu sentia era o calor do seu corpo contra o meu. O cheiro dele, a textura da jaqueta, a forma como me encaixava perfeitamente em seus braços — como se ali fosse meu lugar desde sempre.
— Senti tanto sua falta, Gabs... — ele murmurou contra meus cabelos. — Você não faz ideia.
Ficamos assim por longos minutos, apenas sentindo. Os olhos fechados, as mãos entrelaçadas, os corações se reconhecendo como velhos amigos que nunca deveriam ter se separado.
Ele entrou, e eu fechei a porta devagar, ainda meio sem acreditar. Como era possível que ele estivesse ali, de verdade? Meu peito apertava com um tipo de felicidade que doía.
Sentamos no sofá, e ele não me soltava. As pernas entrelaçadas, os dedos passeando distraidamente pela minha pele, como se quisesse decorar cada pedacinho de mim outra vez.
Conversamos baixo, rimos de besteiras, trocamos olhares longos e silenciosos que diziam mais do que qualquer frase. Ele falava das histórias da viagem, dos dias com os avós, do quanto pensou em mim em cada lugar, em cada café da manhã, em cada entardecer na varanda.
E eu...? Eu só conseguia olhar pra ele e pensar em como o tempo nos transformou. Em como a dor nos moldou. E mesmo assim... ele ainda era o meu Eiden.
Fomos nos aproximando, sem pressa, como se o tempo não existisse. E quando nossos lábios finalmente se tocaram, foi como um reencontro de almas. O beijo era doce, mas cheio de urgência. As mãos passeavam com carinho, com v*****e, com saudade. Minha pele reagia à dele como fogo ao toque da brisa.
Fomos parar no quarto como se flutuássemos.
Não houve pressa. Nem ansiedade. Foi puro sentir.
As mãos dele exploravam meu corpo com reverência, como se cada curva fosse sagrada. Os olhares trocados entre um beijo e outro falavam sobre promessas silenciosas. E ali, naquele instante íntimo, intenso e calmo, eu me entreguei por completo.
Por alguns momentos... eu esqueci. Esqueci do teste escondido na última gaveta da escrivaninha. Esqueci do medo, da incerteza, da barriga que ainda era um segredo. Tudo o que existia era o Eiden — seu corpo, sua voz, seu toque. E a sensação de estar exatamente onde eu devia estar.
Depois de muito tempo apenas abraçados, deitados entre lençóis e risos abafados, ele beijou minha testa e disse com a voz arrastada:
— Senti tanta falta de você que parece que sonhei esse momento mil vezes.
Sorri, escondendo o nó na garganta.
— Eu também, Eiden. Mais do que posso explicar.
Ele ficou em silêncio por um segundo e então disse:
— Vamos sair? Só nós dois? Um jantar qualquer... só pra comemorar que eu tô de volta.
Assenti sem pensar. Ele se levantou e começou a se vestir, com aquele jeito natural e leve que sempre me encantou. Peguei uma roupa simples, mas bonitinha. Me olhei no espelho por um instante e, pela primeira vez em dias, sorri para mim mesma. Talvez só por uma noite... eu pudesse fingir que estava tudo bem. Que não havia um segredo entre nós.
Enquanto caminhávamos lado a lado pela calçada, com os dedos entrelaçados e o céu pintado de tons quentes do entardecer, senti uma paz difícil de explicar. Era como se, por algumas horas, o amor tivesse vencido o medo.
E mesmo sabendo que a verdade ainda morava em mim, silenciosa e insistente, eu me permiti apenas *sentir*. Porque estar com ele... sempre foi o meu lugar seguro.
*(Ponto de vista do Eiden)*
A noite estava morna, com o céu começando a ganhar tons azulados e laranjas que pareciam pintados à mão. Caminhar ao lado da Gabbie depois de tanto tempo longe era como voltar a respirar. E não apenas o ar comum — mas o ar que eu precisava, aquele que me dava vida.
Ela estava linda.
Mesmo com algo diferente em seu olhar — talvez um peso, uma hesitação —, seu sorriso iluminava tudo ao redor. Havia algo em sua leveza que me fazia esquecer todos os pensamentos embolados da viagem, as dúvidas que ainda latejavam em algum canto da minha cabeça. Nina, as mensagens estranhas... tudo parecia distante agora.
Paramos num restaurante pequeno, escondido entre ruas calmas, um lugar que eu sabia que ela adoraria. Luzes de fada enfeitando o teto, música suave ao fundo, mesas discretas com velas pequenas. Era aconchegante, íntimo, quase como se o universo tivesse reservado aquele espaço só para nós dois.
— Esse lugar... — Gabbie sorriu, olhando ao redor com os olhos brilhando. — É lindo.
— Achei que tinha a sua cara — respondi, puxando a cadeira para ela se sentar.
O garçom nos atendeu com simpatia, e logo estávamos com taças de vinho branco e pratos sendo escolhidos com risos cúmplices.
— E então? — perguntei, apoiando o cotovelo na mesa e olhando pra ela com atenção. — Me conta mais sobre você nesses dias. O que andou fazendo?
Ela hesitou por um segundo. Um brilho estranho passou por seus olhos antes que sorrisse de novo.
— Nada muito emocionante... só coisas de sempre. Filmes, livros, tardes longas. Senti sua falta.
Era verdade — mas algo naquela resposta parecia incompleto.
Ainda assim, não insisti. Peguei a mão dela sobre a mesa, entrelacei nossos dedos e deslizei o polegar em sua pele.
— Eu pensei em você todos os dias — disse. — Em como teria sido se você estivesse comigo lá. Em como a gente perdeu tanto tempo se afastando por coisas tão... pequenas.
— Não foram pequenas — ela respondeu, sem me olhar. — Machucou. Em mim... e em você também.
Concordei em silêncio. A ferida ainda estava ali, mesmo cicatrizada.
A comida chegou, e o cheiro nos distraiu por um tempo. Risoto de camarão pra ela, massa com molho branco pra mim. E enquanto comíamos, conversávamos com aquela naturalidade que só os dois sempre tiveram.
Falamos sobre bobagens, sobre música, sobre planos de final de ano. Mas em meio a tudo isso, havia algo não dito. Um espaço entre nós que nem os dedos entrelaçados conseguiam preencher.
Depois da sobremesa — um mousse de maracujá que ela insistiu em dividir comigo —, ficamos apenas nos olhando. Os olhos dela estavam um pouco marejados, mas ela disfarçava bem com aquele sorrisinho nervoso.
— Gabbie... — falei baixinho. — Tá tudo bem?
Ela mordeu o lábio, desviou o olhar para a rua lá fora, e balançou a cabeça.
— Tá sim. É só que... é muita emoção de uma vez só. Você voltou, a gente tá bem, e isso parece tão... bom, sabe?
Assenti. Mas meu peito sentia que havia algo mais.
Paguei a conta e saímos do restaurante de mãos dadas. Andamos em silêncio por um tempo, sob o céu noturno que agora estava salpicado de estrelas.
Paramos num banco de praça, e ela se aconchegou ao meu lado, apoiando a cabeça no meu ombro.
— Eu queria congelar esse momento — ela disse. — Fingir que não existe nada além disso.
— Então vamos fingir — sussurrei. — Só por agora.
Beijei sua cabeça com carinho, e ficamos ali, embalados pela brisa, pelo silêncio e pelo amor que ainda era forte demais pra ser descrito.
Ela não disse nada sobre gravidez. Eu não perguntei sobre suas ausências estranhas nas últimas semanas. Porque, às vezes, a gente escolhe o silêncio como forma de p******o. Mas eu sabia, lá no fundo, que não duraria para sempre.
Alguma coisa estava por vir.
E quando viesse, eu só esperava estar forte o suficiente para segurar a mão dela e não soltar.