Capítulo 17– Sinais em silêncio

1080 Words
*(Ponto de vista do Eiden)* Acordei com o cheiro de café fresco invadindo o quarto. A luz da manhã filtrava pelas cortinas, e o silêncio confortável da casa da Gabbie me fazia sentir em casa de um jeito que eu não sabia que precisava. Vesti uma camiseta qualquer e fui até a cozinha, onde ela estava de costas, mexendo o leite na panela com os cabelos presos de forma desajeitada, usando minha blusa grande demais pra ela — o que a deixava ainda mais linda. Me aproximei devagar, envolvi sua cintura por trás e beijei seu ombro. — Bom dia, meu amor. Ela sorriu, mas seu corpo reagiu com um leve sobressalto. Como se tivesse sido pega de surpresa ou... desconfortável. Soltou a colher com rapidez, desligou o fogo e se virou. — Bom dia. Dormiu bem? — Como uma pedra — respondi, ainda observando seus olhos que evitavam os meus. Ela serviu o café e colocou as xícaras na mesa. Sentamos, e por alguns minutos conversamos sobre o dia, sobre nada em específico, mas algo estava diferente nela. Algo que eu não conseguia nomear. Um silêncio estranho, uma hesitação nos gestos, um cansaço embaixo dos olhos que ela tentava esconder com maquiagem leve. Foi quando notei: ela evitava o cheiro do café. — Não vai tomar? — perguntei, apontando pra xícara que ela m*l encostara. — Tô... meio enjoada hoje — respondeu rápido demais, desviando o olhar. A palavra “enjoada” ficou ecoando na minha cabeça. Ela tentou mudar de assunto, falando sobre um filme que tinha assistido, sobre talvez irmos à livraria mais tarde. Mas eu estava atento agora. A cada pequena coisa. Os movimentos lentos. O toque na barriga, mesmo que inconsciente. A maneira como ela evitava comer demais. Algo estava acontecendo. — Gabs, você tá bem mesmo? Ela sorriu f*****o. — Tô, só tô um pouco estranha hoje. Deve ser ansiedade... sua volta, essas coisas. Concordei com a cabeça, mas algo dentro de mim começou a se mover. Mais tarde, enquanto ela tomava banho, fui buscar meu casaco no quarto dela e, ao abrir a gaveta errada, vi algo que me congelou por dentro. Um envelope de papel pardo. Dentro, um teste de gravidez usado. Fechei a gaveta rapidamente, com o coração martelando dentro do peito. Fiquei parado ali por um tempo, olhando pro nada. Minhas mãos suavam, minha mente girava. Eu não sabia se o teste era dela, se era antigo, se era só um susto ou... se era real. Mas naquele momento, fiz algo que eu mesmo não esperava. Guardei aquilo comigo. Não o teste, mas a informação. Fechei a dúvida no peito como uma carta não enviada. Quando ela saiu do banho, com os cabelos molhados e um roupão simples, olhou pra mim com aquele olhar doce que eu conhecia tão bem. — Que foi? — Nada — sorri. — Tava só pensando em como você é linda até sem querer. Ela riu, e veio se jogar ao meu lado. Abracei forte. Porque agora... eu sabia que algo estava para mudar. Mas não era o momento. Ela ainda não confiava em mim com esse segredo, e talvez eu precisasse provar que podia ser aquele que ela escolheria para dividir o peso da vida. Então eu continuei ali. Silencioso. Presente. Esperando que ela me contasse. E torcendo, no fundo, pra que eu estivesse certo. Ou errado. Eu já não sabia mais. Só sabia que, acontecesse o que fosse, eu não iria embora *(Ponto de vista da Gabbie)* A manhã seguiu estranha, como se cada passo que eu desse fosse em uma corda bamba. O olhar do Eiden estava diferente — mais atento, mais... analítico. E isso me deixava em alerta. Talvez ele tivesse notado algo. Talvez o modo como recusei o café, ou a maneira como encostei no ventre mais de uma vez, sem perceber. Eu tentava me convencer de que podia esconder isso por mais alguns dias. Só o suficiente pra criar coragem, pra saber como dizer. Como contar que tudo ia mudar, que dentro de mim agora havia uma nova vida. Uma parte dele. Uma parte nossa. Mas o corpo já não me obedecia. Pouco depois do almoço, estávamos no sofá vendo um filme qualquer. Eu tentava fingir interesse, rindo das piadas que nem ouvia direito, com a cabeça zonza e o estômago revirando. — Tá tudo bem? — ele perguntou de novo, olhando de lado com os olhos apertados. — Uhum... só tô com sono — menti, virando o rosto e tentando respirar fundo. E então, de repente, tudo girou. Um enjoo forte subiu pela garganta, me fazendo saltar do sofá com pressa. — Gabbie? — ouvi a voz dele atrás de mim. Corri pro banheiro, tropeçando na pressa, e me ajoelhei no chão frio, vomitando tudo o que havia comido. Era como se meu corpo inteiro gritasse o que minha boca ainda se recusava a dizer. Ouvi os passos dele se aproximando, sua voz preocupada batendo contra a porta. — Gabbie, abre. Por favor. O que tá acontecendo? Meus olhos estavam marejados. A vergonha e o medo se misturavam com o gosto amargo na boca. Lavei o rosto, respirei fundo e abri a porta com as mãos tremendo. — É só uma virose — sussurrei, evitando seu olhar. — Deve ser algo que comi... Mas Eiden não comprava mais as minhas desculpas. Ele me envolveu com os braços devagar, com cuidado, como se tivesse medo de me quebrar. Me sentou no sofá e trouxe água. Me observava como quem decifrava um código. — Gabbie... — sua voz era baixa, firme. — Você tem certeza que tá tudo bem? Desviei o olhar. Balancei a cabeça. — Eu só preciso descansar, Eiden. Só isso. Ele assentiu, mas eu via nos olhos dele: ele não acreditava mais. Algo estava se formando dentro dele, uma certeza incômoda que talvez nem ele quisesse aceitar de cara. Fiquei em silêncio, tentando controlar o tremor nas mãos. O enjoo havia passado, mas o medo agora tomava conta. O medo dele se afastar. De me julgar. De achar que eu escondi isso por egoísmo, por covardia. E ainda assim... eu não consegui dizer. Ele me cobriu com uma manta, passou os dedos no meu cabelo com carinho e se sentou ao meu lado. Ficou ali por horas, mesmo em silêncio, mesmo sem saber o que exatamente estava errado. Mas algo me dizia que ele já sabia. E que agora... era uma questão de tempo até tudo mudar.
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