Capítulo 18 – Verdades que afastam

1210 Words
*(Ponto de vista da Gabbie)* O silêncio entre nós havia se tornado quase insuportável. Desde o dia em que vomitei na frente dele, sentia o peso do olhar do Eiden a cada gesto meu, como se ele esperasse, pacientemente, a confirmação de uma verdade que já intuía. E eu… eu não aguentava mais. O segredo não cabia mais dentro do meu peito, assim como as roupas começavam a não caber mais no meu corpo. Naquela tarde, chovia. A casa estava mergulhada em tons cinzas e sons abafados. Ele estava sentado na beirada da cama, mexendo no celular sem realmente prestar atenção em nada. Os dedos inquietos entregavam sua ansiedade. — Eiden… — minha voz saiu trêmula, baixa demais. Ele levantou os olhos lentamente, atento, como se já soubesse o que viria. — A gente precisa conversar. Ele não respondeu, apenas assentiu, e aquele gesto foi o suficiente para que meu coração batesse tão forte que parecia querer escapar do peito. — Eu… eu devia ter contado antes. Mas tive medo. Muito medo. Me aproximei devagar, sentando ao lado dele. O cheiro do quarto, o calor da nossa presença, tudo parecia muito intenso. — Há algumas semanas, eu descobri que… tô grávida. A palavra ficou suspensa no ar. Grávida. Ela ecoou como um trovão em meio à chuva lá fora. Eiden não respondeu de imediato. Ficou imóvel. O olhar perdido em algum ponto à frente, como se precisasse reorganizar todos os pensamentos que estavam desordenados dentro da cabeça. — É por isso os enjoos… — murmurou. — Por isso você andava tão distante. Assenti, sentindo os olhos arderem. — Eu não sabia como te dizer, Eiden. Eu tive medo da sua reação. Medo de te perder. Ele se levantou, passando a mão nos cabelos, inquieto. — Você devia ter confiado em mim, Gabbie. Aquilo doeu. — Eu sei. Mas você não entende… eu passei dias me culpando, me sentindo sozinha, me perguntando se isso ia estragar tudo o que a gente reconstruiu. Ele se virou com o olhar magoado. — Estragar? Isso não estraga nada, Gabbie. Mas o que machuca é você ter carregado isso sozinha… enquanto eu tava aqui, querendo te proteger, querendo estar presente. Eu me senti excluído da parte mais importante da nossa história. As lágrimas escorreram sem que eu pudesse conter. — Eu tava com medo. Eu ainda tô. Ele respirou fundo, os olhos marejados também. Mas havia algo mais ali. Uma dor maior, um ressentimento que nem ele sabia nomear direito. — E tem mais uma coisa — ele disse, encarando o chão. — Esses dias, eu… eu pensei na Nina. Não por querer algo com ela. Mas porque ela fez parte do que nos afastou. E quando você ficou estranha, eu achei que talvez… que a história pudesse se repetir. Que você estivesse escondendo algo como antes. — Não! — me levantei, assustada. — Nunca mais! Eu nunca esconderia outra pessoa de você. Ele balançou a cabeça. — Eu sei, eu sei… mas o trauma fica. A desconfiança… mesmo que eu não queira sentir, ela vem. Ficamos em silêncio. Só o som da chuva batendo contra as janelas preenchia o ambiente. — Talvez a gente precise de um tempo pra processar tudo isso — ele disse, com a voz quase falhando. Meu coração afundou. — Você vai embora? — Eu só… preciso pensar. Não tô fugindo. Só preciso entender como lidar com isso. Como ser o cara que você e esse bebê vão precisar. — Eiden… por favor, só… fica. Ele se aproximou, me abraçou forte, com um carinho que parecia um pedido de desculpas e um adeus ao mesmo tempo. — Eu te amo, Gabbie. Não duvida disso. E então ele saiu. Devagar, como se deixasse parte de si dentro daquele quarto. Fiquei ali, abraçando minha barriga com as mãos trêmulas. Pela primeira vez, senti que não estava mais completamente sozinha — e, ao mesmo tempo, tão só quanto nunca. *(Ponto de vista do Eiden)* O quarto parecia maior sem ela. O mundo também. Desde que saí da casa da Gabbie, levei comigo uma sensação constante de vazio. Nada preenchia. Nem o som da TV ligada, nem as conversas com meus amigos que tentavam me distrair, nem a música alta nos fones que insistia em repetir nossas canções favoritas. E, acima de tudo, havia o eco daquela frase: *“Eu tô grávida.”* Grávida. A Gabbie. Minha Gabbie. Eu devia estar feliz, devia me sentir honrado, empolgado, preparado… mas tudo o que senti foi medo. E um tipo de dor que eu não sabia explicar. O fato dela ter guardado isso sozinha me corroía. Como se, de novo, eu tivesse sido afastado de um pedaço essencial da vida dela. A última vez que senti algo parecido foi quando a Nina plantou aquelas mentiras entre a gente. Eu me senti traído, perdido, e dessa vez… não era por causa de outra pessoa. Era ela. A pessoa em quem eu mais confiava no mundo, escondendo de mim o maior segredo que poderia existir entre nós. Ainda assim, todos os dias, eu abria o celular e relia as últimas mensagens dela. Não respondia. Só lia. Me perguntava se ela dormia bem, se comia direito, se estava assustada. Queria correr até ela, mas a voz da razão me segurava. Eu precisava estar inteiro para ela. Para o bebê. Eu só não sabia como fazer isso. --- *(Ponto de vista da Gabbie)* Os dias sem ele eram frios, mesmo com sol lá fora. Meus pais percebiam o meu olhar perdido, a ausência nos gestos, os pratos cheios demais voltando da cozinha. Mas ninguém ousava perguntar. Dentro de mim, o bebê crescia — e com ele, o medo. O medo de ser mãe sozinha. O medo de ter perdido o Eiden de novo. O medo de que aquele afastamento se tornasse definitivo. Mas mesmo assim, eu tentava. Fazia pequenos planos no papel. Esboçava nomes, imaginava o quarto, pesquisava sobre o que podia ou não comer. Era como me manter viva em meio ao silêncio. Nas noites mais difíceis, abraçava o travesseiro e fechava os olhos, lembrando do jeito como ele falava “meu amor” baixinho. Lembrando do calor dos braços dele. E cada vez que eu pensava em contar tudo pra ele com sinceridade, o medo voltava. Será que ele ainda me queria depois disso? --- Foi numa tarde de sexta, quase duas semanas depois, que a mensagem finalmente chegou. **Eiden:** “Ainda tá chovendo aí dentro?” Eu sorri. Chorando. Com um alívio que me cortava e curava ao mesmo tempo. **Gabbie:** “Chovendo muito. Mas você sempre foi meu sol.” Demorou alguns minutos, talvez ele tenha hesitado. Mas então veio a resposta. **Eiden:** “Posso voltar a iluminar esse lugar com você?” Eu não respondi com palavras. Mandei o endereço de casa. Ele chegou meia hora depois. Sem flores, sem presentes, sem discurso pronto. Só com os olhos marejados e as mãos trêmulas. — Ainda posso ser parte disso? — ele perguntou, colocando a mão sobre minha barriga com cuidado. — Você sempre foi. Mesmo quando teve medo. Nos abraçamos longamente. Nenhum de nós era mais o mesmo de antes. Mas talvez… exatamente por isso, estávamos prontos para o novo que viria. ---
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